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Informe do Correio

Turismo precisa virar projeto de Estado

Confira os destaques da coluna Informe do Correio, publicada em O CORREIO DE HOJE nesta quarta-feira 17
Por O Correio de Hoje
17/06/2026 | 16:31

O turismo é hoje a menina dos olhos da economia potiguar. Não por força de promessa, nem apenas pela beleza natural que o Rio Grande do Norte sempre teve, mas porque os números mais recentes confirmam aquilo que o setor produtivo repete há anos: quando bem trabalhado, o turismo é uma das atividades com maior capacidade de gerar renda, emprego, circulação econômica e imagem positiva para o Estado.

Em 2026, o setor começou em ritmo de destaque nacional. Em fevereiro, as atividades turísticas do RN cresceram 13,7% em relação a janeiro, maior alta do País segundo o IBGE. Em março, avançaram 7,3% na comparação com o mesmo mês de 2025 e fecharam o primeiro trimestre com alta de 6,8%, segundo melhor resultado do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro. Em abril, houve novo crescimento: 5,6% frente a março e 9,8% sobre abril do ano anterior, novamente o melhor desempenho nacional nessa base de comparação. No acumulado dos quatro primeiros meses, o avanço é de 3,2%.

Informe do Correio

Esses dados se somam a um indicador estrutural relevante. Estudo da Fecomércio-RN mostrou que o turismo movimentou R$ 11,3 bilhões em 2024, maior valor da série histórica, com crescimento de 57% no pós-pandemia. O levantamento colocou o RN como o segundo estado do Nordeste e o quarto do Brasil em participação do turismo na economia. Em Natal, a receita turística chegou a R$ 6,6 bilhões, concentrando mais da metade do total estadual.

Não se trata de um setor acessório, mas de um vetor econômico central. O presidente do Sistema Fecomércio-RN, Marcelo Queiroz, afirmou que os resultados confirmam a competitividade do Estado como destino turístico, enquanto o presidente da Abav-RN, Antônio Neto, atribuiu o desempenho ao aumento da conectividade aérea, à promoção do destino e à retomada dos investimentos.

A conectividade aérea, aliás, é um dos pilares desse crescimento. O Aeroporto de Natal foi projetado como o segundo do Nordeste com mais voos para a Argentina no primeiro trimestre de 2026. Entre janeiro e novembro de 2025, o número de turistas internacionais cresceu 44,9%, passando de 50,1 mil para 78,6 mil visitantes, segundo a Emprotur. Entre os argentinos, o crescimento chegou a 140%, reforçando a importância estratégica desse mercado.

A hotelaria também apresenta recuperação consistente. Para a Semana Santa de 2026, a ABIH-RN projetou ocupação média de 79%, acima dos 75% registrados em 2025 e dos 68% de 2024. O Carnaval de Natal movimentou R$ 346,1 milhões, crescimento de 75,9% sobre o ano anterior, com público superior a 1 milhão de pessoas e retorno estimado de R$ 19 para cada R$ 1 investido, demonstrando que eventos culturais também funcionam como política de desenvolvimento econômico.

O bom momento, entretanto, não pode servir de acomodação. O turismo potiguar ainda permanece excessivamente concentrado em Natal, Pipa, Genipabu, São Miguel do Gostoso e poucos roteiros consolidados. O interior ainda participa pouco, enquanto segmentos como turismo religioso, Seridó, Costa Branca, aventura, gastronomia, patrimônio histórico e cultura popular carecem de estrutura, divulgação e integração comercial.

O primeiro passo é tratar o turismo como projeto permanente de Estado, com planejamento contínuo, orçamento previsível, metas para conectividade aérea, calendário anual de eventos e promoção internacional. Não basta divulgar o destino se persistirem problemas de acesso, sinalização, limpeza, transporte e infraestrutura turística.

Também é indispensável investir em infraestrutura. Estradas, iluminação, segurança, saneamento, banheiros públicos, internet, transporte e ordenamento das orlas são tão importantes quanto campanhas publicitárias. O visitante avalia toda a experiência, não apenas a paisagem.

Outra prioridade é a qualificação da mão de obra. O setor é intensivo em empregos e pode gerar oportunidades para jovens e pequenos empreendedores, mas depende de capacitação permanente em atendimento, idiomas, tecnologia e vendas digitais.

O ordenamento também merece atenção. O combate à venda irregular de passeios na orla de Natal evidencia a necessidade de fiscalização e proteção ao consumidor. A informalidade desorganizada prejudica o turista, desequilibra a concorrência e compromete a imagem do destino.

Por fim, é fundamental interiorizar o turismo e fortalecer a inteligência de dados. Estruturar rotas, apoiar municípios, integrar produtos e conhecer melhor o perfil do visitante são medidas essenciais para ampliar o tempo de permanência e o gasto médio do turista.

O turismo potiguar vive uma oportunidade rara. Tem números favoráveis, mercado internacional em expansão, eventos de forte impacto econômico e setor privado disposto a investir. Falta transformar esse potencial em política permanente de desenvolvimento. O RN não pode depender apenas da generosidade da natureza. Precisa agregar gestão, infraestrutura, qualificação, promoção e ambição para que o turismo deixe de ser apenas a menina dos olhos e se consolide como uma das bases mais sólidas do futuro econômico do Estado.