O Brasil não pode tratar como pequena a ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra seus produtos. Caso avancem as duas frentes abertas pelo governo americano, uma ligada a uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras e outra sustentada por acusações de uso de trabalho forçado contra 60 países, mercadorias brasileiras poderão enfrentar tarifas de até 37,5% para entrar no mercado dos Estados Unidos. O risco é real, mas não autoriza pânico. A economia brasileira já dispõe de caminhos para reduzir os danos, e esses caminhos começaram a ser percorridos.
A primeira saída está dentro da própria investigação americana. O governo dos Estados Unidos abriu uma lista de exceções que inclui commodities como carne e café, além de dezenas de outros itens cuja compra interessa aos americanos manter. Na prática, as tarifas mais pesadas atingem algo em torno de um quinto das exportações brasileiras, concentradas sobretudo em produtos industriais. Enquanto essa relação não estiver concluída, o Itamaraty e setores empresariais continuarão tentando ampliá-la. Como os próprios americanos já indicaram disposição para negociar, há espaço para recuos em vários segmentos.

A segunda alternativa é mais importante e já aparece nos números do comércio exterior. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, se os Estados Unidos não quiserem comprar do Brasil, o país venderá para outros mercados. Foi exatamente isso que começou a ocorrer. No ano passado, as exportações brasileiras para os americanos caíram 16%, de R$ 16,6 bilhões para R$ 14 bilhões. No mesmo período, as vendas para a China cresceram 22%, passando de R$ 37,9 bilhões para R$ 46,2 bilhões. A fatia chinesa nas compras de produtos brasileiros subiu de 28% para 31%, enquanto a participação americana recuou de 12% para 9%. O mercado dos Estados Unidos, portanto, já pesa menos para os exportadores brasileiros.
A diversificação, porém, não se limita à China. A União Europeia pode representar uma oportunidade ainda mais relevante. A participação europeia nas compras brasileiras caiu de 15% para 14,7%, mas o valor importado aumentou de R$ 20,4 bilhões para R$ 21,8 bilhões. O afastamento entre Estados Unidos e Europa, com desgaste na tradicional aliança atlântica, abre espaço para uma aproximação maior entre europeus e brasileiros. Esse movimento ganha força com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor no início de maio, ainda que de forma parcial.
O tratado tem potencial para produzir ganhos expressivos para o Brasil. Além de ampliar mercados para as exportações, também expõe setores industriais e de serviços à competição externa, o que pode contribuir para ganhos de eficiência. Quando estiver consolidado, o bloco comercial reunirá 720 milhões de habitantes, pouco mais que o dobro da população dos Estados Unidos, e terá PIB conjunto de US$ 22 trilhões, inferior ao americano e ligeiramente superior ao chinês.
Durante os 27 anos de negociação do acordo, a agropecuária brasileira avançou de tal maneira que passou a preocupar o setor agrícola europeu. No caminho inverso, empresas industriais e de serviços da Europa despertam temor em segmentos do Mercosul. A competição tende a pressionar os dois lados, mas também pode beneficiar ambos. Para o Brasil, a abertura deve ser aproveitada como estímulo à modernização e à eliminação de bolsões de ineficiência que ainda sobrevivem na economia.
Se o mercado americano cria barreiras, outros mercados se apresentam. A Europa se abre, a China mantém forte apetite por produtos brasileiros, e o Brasil tem condições de reorganizar parte de suas vendas externas. As tarifas americanas merecem atenção e reação firme, mas não justificam desespero.