A sucessão estadual de 2026 no Rio Grande do Norte dividiu quatro analistas convidados a discutir marketing político, redes sociais, polarização, pesquisas eleitorais e o peso dos palanques nacionais na disputa pelo Governo do Estado. As avaliações expuseram leituras diferentes sobre o papel de Allyson Bezerra (União), a força da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), o desempenho de Cadu Xavier (PT) e Álvaro Dias (PL) e o impacto do desgaste do Governo Fátima Bezerra (PT) na construção da campanha governista.
O ponto de maior divergência foi a possibilidade de a disputa estadual ser engolida pela polarização nacional. Para o jornalista Alex Medeiros, a tendência é que a eleição no RN reproduza o embate entre lulismo e bolsonarismo. Ele afirmou que acredita numa disputa nacionalizada em todo o país.

“Eu acredito que no Rio Grande do Norte e em todo Brasil vai ser Lula contra Bolsonaro”, disse.
Em tom de ironia, afirmou que a divisão política contaminou até a seleção brasileira.
“Quando tiver gol de Neymar, a direita grita. Quando tiver gol dos outros, quem grita é a esquerda”, declarou.
Na leitura de Alex Medeiros, a lógica nacional deve empurrar o segundo turno potiguar para uma disputa entre os nomes mais diretamente associados aos dois polos nacionais. Ele foi direto ao projetar o desfecho da primeira etapa da eleição.
“Aqui é segundo turno com o candidato de Bolsonaro, Álvaro, com o candidato de Lula, que é Cadu”, afirmou.
Para ele, mesmo com levantamentos contraditórios e excesso de pesquisas circulando no Estado, o eleitor tende a reorganizar a escolha estadual a partir da disputa presidencial.
O publicitário Arturo Arruda apresentou posição oposta. Para ele, Allyson Bezerra não pode ser tratado como terceira via porque, segundo sua avaliação, aparece na dianteira da disputa e tem estrutura política para chegar ao segundo turno.
“Eu nem ousaria chamar Allyson de terceira via porque ele está liderando as pesquisas. Quando você diz que vai ter uma polarização, como é que você vai polarizar dois candidatos que estão segundo e terceiro colocados?”, questionou.
Arturo sustentou que Allyson tem condições políticas, eleitorais e estruturais diferentes de outros nomes que tentaram furar polarizações em disputas anteriores. Ele comparou a situação atual com a eleição de 2024 em Natal, ao citar Carlos Eduardo (PSD), que, segundo ele, tinha “50 segundos de tempo de televisão”, não tinha apoio político e não tinha presença de rua.
No caso de Allyson, apontou o contrário.
“Vai ter mais tempo de televisão, é grande comunicador, tem um palanque com três deputados federais, com uma senadora, com seis deputados estaduais, e tem os prefeitos das maiores cidades”, afirmou.
A conclusão de Arturo foi taxativa.
“Eu acho que Allyson sim estará no segundo turno, não sei contra quem”, disse.
Ele fez questão de ressalvar que não trabalha em campanhas eleitorais desde 2014, embora continue atuando com contas públicas e acompanhando o ambiente político.
“Isso me dá a condição de estar aqui opinando”, afirmou.
Alexandre Macedo evitou cravar um cenário de segundo turno por estar inserido no processo político-eleitoral de 2026, mas reconheceu que a polarização nacional pode influenciar a sucessão no RN. Segundo ele, a eleição estadual ocorrerá no mesmo dia da disputa presidencial, o que torna natural a contaminação pelo clima nacional.
“Eu acho que é uma tendência. Ela pode até não acontecer, agora, a eleição estadual é uma eleição no mesmo dia de uma eleição nacional”, disse.
Para Alexandre, a presença de Lula como nome da esquerda e de Flávio Bolsonaro (PL) como representante de grande parte da direita reforça a possibilidade de nacionalização da disputa. Ele afirmou que, se os polos nacionais fossem representados por figuras menos personalistas, haveria mais espaço para outro caminho.
“Se você tivesse na esquerda um candidato que não fosse Lula, na direita um candidato que não fosse do clã Bolsonaro, talvez isso que o Arturo colocou tornasse uma realidade”, avaliou.
Apesar de reconhecer a força da polarização, Alexandre apontou uma fragilidade específica no campo governista do Rio Grande do Norte. Segundo ele, Cadu Xavier tenta se apresentar como nome ligado ao presidente Lula, mas evita carregar integralmente o peso da governadora Fátima Bezerra.
“Você tem um governo que apoia um candidato que está preferindo dizer que está no bloco ou na turma do presidente, mas não parece estar no bloco ou na turma da governadora”, afirmou.
A avaliação foi além. Alexandre reconheceu qualidades técnicas em Cadu, mas destacou que o pré-candidato é profundamente vinculado à atual gestão.
“É um candidato de um sistema representando o governo e, aliás, um candidato que tem considerações muito positivas na parte técnica, inegável, mas ele é umbilicalmente ligado ao governo atual”, disse.
Ele lembrou que Cadu foi secretário e gestor das finanças estaduais, o que, na visão dele, impede o candidato de se desvincular da administração Fátima.
As declarações foram dadas no Jornal do Dia, edição de sábado, da TV Ponta Negra, em debate mediado por Micarla de Sousa e com participação de Alexandre Macedo, Arturo Arruda, Alex Medeiros e Osair Vasconcelos. A conversa partiu do marketing político, mas avançou para a sucessão estadual, a polarização nacional, a força das redes sociais, a credibilidade das pesquisas e o desgaste do governo na pré-campanha.
No debate, Alexandre Macedo afirmou que a eleição potiguar terá também um componente de confronto entre governo e oposição. Para ele, a população demonstra desejo de mudança.
“Eu acho que no momento a população do Rio Grande do Norte está querendo um governo diferente do que está aí, pela desaprovação que está em todas as pesquisas”, declarou.
Um dos pontos mais duros da análise de Alexandre foi a menção a Walter Alves (MDB). Ele tratou a recusa do vice-governador em assumir o Governo do Estado como sinal da gravidade do quadro administrativo.
“Pela primeira vez, pelo menos nos meus 64 anos de vida, alguém não quis assumir o Governo do Estado alegando inclusive publicamente que não quis assumir porque a situação financeira do Estado era de absoluto caos e que ele ia apenas se desgastar”, disse.
Alexandre ressaltou o peso político do gesto por envolver um integrante de uma das famílias mais tradicionais da política potiguar. Lembrou que Walter é filho de Garibaldi Alves Filho e herdeiro de um grupo que já governou o Rio Grande do Norte com Aluízio Alves e Garibaldi Filho.
“Foi o filho de Garibaldi que disse ‘não, não, não, eu prefiro ser candidato a deputado’. Essa é a maior evidência, e talvez a maior dificuldade, para um candidato que vai representar o governo”, afirmou.
Osair Vasconcelos trouxe ao debate uma leitura mais ampla sobre a crise de confiança nas instituições e sobre o espaço que essa crise pode abrir para alternativas fora da polarização. Ao comentar o desgaste do ambiente público, afirmou que o país vive uma crise de informação e conhecimento.
“As pessoas hoje não procuram mais ter informação, que é básico, e muito menos conhecimento, que é fundamental para entender as coisas como elas são”, disse.
A partir dessa fala, Arturo Arruda associou o esgotamento institucional à possibilidade de crescimento de uma alternativa política.
“Eu acho que está aí a brecha de chegar na terceira via”, afirmou.
Em seguida, ao trazer o tema para o Rio Grande do Norte, defendeu que Allyson não deveria sequer ser enquadrado nessa categoria, por aparecer como protagonista da disputa.
O papel do marketing
O debate também tratou do papel do marketing político na eleição de 2026. Alexandre Macedo afirmou que é impossível fazer campanha sem marketing, porque ele estabelece a ligação mais rápida e eficiente entre candidato e cidadão. Segundo ele, a internet antecipou a campanha e reduziu a dependência do horário eleitoral.
“A campanha, na verdade, já começou”, afirmou.
Para ele, a legislação eleitoral permite uma pré-campanha ampla, desde que não haja pedido explícito de voto, o que chamou de “um dos cinismos da nossa legislação eleitoral”.
Mesmo defendendo a centralidade do marketing, Alexandre ponderou que nenhuma campanha depende apenas dele.
“O candidato nem perde a eleição, nem ganha a eleição, a depender só do marketing. Isso aí também não existe”, disse.
Na avaliação dele, campanha é sistema, com candidato, equipe, mobilização, jurídico, conteúdo e estrutura. O marketing seria a parte mais visível para o eleitor.
Alex Medeiros seguiu linha semelhante ao comparar as redes sociais a uma vitrine. Segundo ele, a mídia digital atrai, mas não substitui o contato direto nem a estrutura de campanha.
“Não tem como um candidato majoritário ganhar uma eleição se preocupando e dando total atenção apenas à mídia digital”, afirmou.
Para ele, WhatsApp e Instagram podem ajudar a eleger vereadores e deputados, mas não bastam para uma candidatura majoritária.
Alex apontou três requisitos básicos para uma candidatura competitiva ao Executivo.
“Tem que ter o marketing político com ele. Não tem como começar sem ter isso, é a base. Ele tem que ter um bom programa de governo para dizer o que é que ele vai fazer se ganhar. E ele tem que ter uma infraestrutura que envolve a questão humana e a questão financeira”, afirmou.
Osair Vasconcelos reforçou a importância do corpo a corpo. Reconheceu que as mídias digitais têm força “inimaginável” em comparação com o que existia há pouco mais de uma década, mas disse que nenhuma campanha deve abandonar o contato pessoal.
Para ele, o eleitor pode ver um candidato por poucos segundos nas redes, entre muitos outros conteúdos, mas uma conversa direta tem outro peso.
“Nada, do meu ponto de vista, na vida humana substitui o contato pessoal, o olho a olho, a troca de impressões, de perguntas”, afirmou.
As redes sociais também foram tratadas como campo de batalha da campanha. Alex Medeiros questionou como as equipes vão monitorar, em tempo real, a reação do eleitor e os ataques digitais. Para ele, a eleição exigirá estrutura permanente para responder a memes, boatos e movimentos de rede.
“Vai ser uma batalha sem regra”, disse.
Na avaliação de Alexandre Macedo, diante da mesmice do ambiente político e digital, o diferencial de 2026 será conteúdo.
“Vai ser você ser o diferente com o conteúdo na hora em que você colocar para a população que você tem uma capacidade de mudar o que está aí”, afirmou.
Para ele, o candidato que conseguir traduzir mudança com credibilidade terá vantagem num ambiente em que a população demonstra reprovação ao atual quadro estadual.
Pesquisas
Outro ponto central do debate foi a guerra de pesquisas. Osair Vasconcelos afirmou que a pesquisa eleitoral se vulgarizou. Segundo ele, existem institutos sérios, com método científico rigoroso, mas também há levantamentos usados como instrumento de marketing político.
“Eu chamo as pesquisas fast food”, disse.
Para Osair, será preciso “dar um pouco de tempo ao tempo” para separar pesquisas consistentes de levantamentos feitos “em cima do joelho”.
Alex Medeiros ironizou o excesso de levantamentos no Rio Grande do Norte.
“Natal já está com mais pesquisa do que agência da Drogasil. Tem uma em cada esquina”, afirmou.
Segundo ele, a profusão de números embaralha o debate porque os três principais pré-candidatos já apareceram em primeiro lugar em algum levantamento.
Alexandre Macedo foi mais duro. Disse que o mercado de pesquisas se tornou inconfiável.
“Você já teve pesquisa com A ganhando, B ganhando e C ganhando. Quer dizer, alguém está errando de forma proposital”, afirmou.
Ele citou a eleição de 2022 para o Senado, quando, segundo relatou, um instituto nacional apontou Carlos Eduardo com 11 pontos de vantagem sobre Rogério Marinho (PL) na véspera da votação, mas Rogério venceu por 8 pontos.
“São 19 pontos. Aí eu não posso achar que isso é um equívoco do computador ou que errou a conta”, disse.
Arturo Arruda cobrou fiscalização sobre a contratação de pesquisas. Ele afirmou que, em uma mesma semana, foram divulgadas seis pesquisas no RN, com valores que variavam de R$ 5 mil a R$ 40 mil.
Para ele, os órgãos de controle deveriam verificar se veículos pequenos, blogs ou comunicadores que aparecem como contratantes têm condições de pagar pelos levantamentos.
“Vamos acabar com esse jogo de se enganar, me engana que eu gosto. É um cinismo”, afirmou.