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Opinião

Sem plano fiscal, campanha vira encenação

Diante da crise fiscal, candidatos ao Governo terão de apresentar propostas concretas para recuperar a capacidade financeira e de investimento do Estado
Por O Correio de Hoje
10/07/2026 | 17:38

A reportagem publicada pelo Agora RN em sua edição de hoje, ao mostrar que os pré-candidatos ao Governo começam a reconhecer a crise fiscal e a prometer um “choque de gestão”, coloca sobre a mesa a questão que deveria dominar a campanha eleitoral de 2026. O Rio Grande do Norte, um Estado fiscalmente estrangulado, que convive com atrasos, obrigações não honradas e baixíssima capacidade de investimento, precisa saber como cada pleiteante pretende governá-lo. As contas são pressionadas permanentemente pela folha de servidores, por uma Previdência de déficit bilionário, pelo endividamento elevado e por uma sucessão de governos que, ao longo dos últimos anos, não conseguiu oferecer solução estrutural para o problema.

Os números demonstram a gravidade do quadro. No primeiro quadrimestre de 2026, a despesa de pessoal do Executivo alcançou 56,12% da Receita Corrente Líquida Ajustada. O limite máximo estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal é de 49%. O RN apresentou o maior comprometimento proporcional do País. A dívida estadual, por sua vez, encerrou 2025 em aproximadamente R$ 9,7 bilhões, após crescer 35% em apenas um ano.

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A Previdência é ainda mais preocupante. O déficit financeiro anual já ultrapassa R$ 2 bilhões. O déficit atuarial, que representa a diferença projetada entre os recursos disponíveis e os compromissos futuros, foi estimado pelo Tribunal de Contas em R$ 54,3 bilhões. Ao mesmo tempo, o Estado destina parcela reduzida de sua receita aos investimentos. Em levantamento comparativo, restaram somente cerca de 4% para essa finalidade, o menor percentual entre os estados brasileiros.

Isso significa que o próximo governador poderá assumir um Estado estruturalmente aprisionado. Arrecada para pagar pessoal, cobre o rombo previdenciário, administra dívidas, precatórios e despesas obrigatórias e, ao final, encontra pouco espaço para construir, modernizar ou expandir serviços. Quem ousar governar o RN não pode se conformar em ser apenas mais um administrador de folha de pagamento.

Há todo um Estado dependente de gestão responsável. Hospitais precisam funcionar. Estradas necessitam de recuperação, apesar do esforço feito nessa área pelo atual governo. Escolas exigem manutenção e melhoria efetiva da qualidade da educação. As forças de segurança cobram estrutura e maior capacidade de investigação. Municípios dependem de investimentos e do cumprimento regular dos repasses obrigatórios. Empresas precisam de previsibilidade, segurança jurídica e ambiente favorável aos negócios, inclusive com regras ambientais claras, objetivas e capazes de conciliar proteção e desenvolvimento. Sem capacidade financeira, qualquer programa de governo corre o risco de se transformar numa coleção de promessas sem execução.

Por isso, a campanha eleitoral não pode se contentar com expressões como “choque de gestão”, “corte de desperdícios”, “informatização”, “eficiência” ou “atração de investimentos”. Essas ideias podem integrar uma estratégia, mas não formam um plano. Qual despesa será cortada? Quanto se espera economizar? Em quanto tempo a folha será enquadrada? Qual será a solução para a Previdência? Haverá reforma administrativa, revisão de incentivos fiscais, concessões, alienação de ativos ou aumento de receita? Quanto o Estado pretende investir anualmente?

A sociedade potiguar, embora sofra diretamente as consequências da crise, também precisa assumir sua parcela de responsabilidade. Reclama da demora no atendimento, dos buracos nas estradas, da precariedade dos serviços e da falta de investimentos, mas não se mobiliza com a mesma intensidade para exigir dos candidatos um plano fiscal completo, com números, metas e prazos.

A elite econômica, política, empresarial e intelectual do Estado deveria cumprir papel ainda mais ativo. Em tese mais informada e consciente da dimensão do problema, precisa ultrapassar interesses particulares, relações partidárias e conveniências imediatas. Mobilizar-se em defesa do equilíbrio fiscal, da transparência e da capacidade de investimento é agir em favor da coletividade — e, no fim, também em favor de si própria. Não existe setor produtivo forte em um Estado permanentemente sufocado.

Qual é, portanto, o plano de cada pleiteante? O eleitor precisa conhecer as escolhas antes do voto, não depois da posse. A campanha eleitoral será verdadeiramente séria quando os candidatos deixarem a superfície e mostrarem como pretendem pagar pelo futuro que prometem. Ou o plano é apenas vencer a eleição? E depois?