Por muito tempo, o princípio da publicidade tem sido pilar fundamental da gestão pública, garantindo transparência e informação para a sociedade. No entanto, nos últimos anos, esse princípio sofreu uma distorção preocupante. O “Déficit Comunicacional”, termo cunhado pelo experiente estrategista de campanhas João Santana, ilustra um fenômeno cada vez mais comum: governos que fazem mais do que conseguem mostrar acabam sendo penalizados, enquanto aqueles que anunciam mais do que fazem são recompensados.
O impacto desse fenômeno pode ser observado na gestão do prefeito de Natal, Paulinho Freire, que reluta em encarnar personagem nas redes sociais. Logo nos primeiros dias de mandato, ele estruturou a “Operação Chuva”, um plano preventivo para os estragos das chuvas na cidade, antes delas chegarem. Entre as iniciativas, implantou um serviço inovador de desobstrução de galerias com robôs, removendo mais de uma tonelada de entulhos acumulados em canaletas subterrâneas. O resultado, locais históricos de alagamento permaneceram secos, mesmo com chuvas de 120 mm em 24 horas. Ademais, fez vistorias e manutenções em 28 lagoas de drenagem, eliminando transbordamentos.
Apesar do sucesso dessas ações, a comunicação não ocorreu com a mesma intensidade da eficiência da gestão. O prefeito não priorizou levar a imprensa aos locais de intervenção, não protagonizou visitas midiáticas e, por isso, seu trabalho não ganhou a devida visibilidade. Quando as chuvas chegaram e surgiram os problemas inevitáveis de infraestrutura, como buracos em vias ou interdições, algumas delas decorrentes da CAERN – que faz escavações nas ruas e não recompõe devidamente o pavimento que removeu -, a prefeitura agiu rapidamente, mas a percepção foi de que o prefeito estava ausente diante da situação. Viu-se que em Recife os estragos das chuvas foram caóticos mas, lá, o prefeito não foi cobrado porque domina as redes digitais.
Esse episódio reforça a incongruência do atual cenário político e midiático: o que não é propagandeado, não é considerado feito. Governantes mais atentos a essa dinâmica passaram a priorizar o discurso em detrimento da ação. A sociedade, inadvertidamente, aplaude quem anuncia, não necessariamente quem entrega.
É inegável que comunicar é essencial. Mostrar o que é feito, sobretudo no mundo hiperconectado das redes digitais, é uma necessidade. No entanto, quando a falta de publicidade se torna critério para desqualificar gestões eficientes, a sociedade incorre em um erro perigoso. O que deve prevalecer é a capacidade de execução, e não a força da narrativa. Em política, como na vida, a substância precisa valer mais do que a aparência.