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Opinião

O Brasil além do pobre de Lula

Uma visão centrada na pobreza que, ao mesmo tempo em que marcou avanços sociais, hoje revela limites na leitura da complexidade econômica e social do Brasil contemporâneo
Por O Correio de Hoje
20/04/2026 | 17:09

No universo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há uma figura que estrutura o discurso, direciona decisões e influencia a forma de enxergar o país. Trata-se do pobre. Mais do que uma prioridade social legítima, como se espera de qualquer governo, essa referência ocupa um papel quase exclusivo. É um elemento central, moldado pela tradição sindical e pelo repertório da luta de classes, que ao longo do tempo deixou de ser apenas identidade política e passou também a impor limites de interpretação e estratégia.

A primeira consequência desse enquadramento está na dificuldade de compreender o Brasil em sua totalidade. Ao dividir o país de forma simplificada entre pobres e ricos, o pensamento lulopetista deixa de contemplar setores relevantes, especialmente as classes médias. Esse grupo exerce papel importante na arrecadação, no funcionamento da economia e na estabilidade institucional. Ainda assim, permanece fora do centro das atenções, tanto no plano retórico quanto nas ações concretas do governo.

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O fato de Lula e seus aliados, que estiveram no poder por 17 dos últimos 23 anos, não ampliarem esse olhar constitui um erro político que se manifesta em forma de distanciamento e insatisfação. Essa limitação ajuda a compreender parte das dificuldades enfrentadas pelo presidente na construção de uma base de apoio mais abrangente neste mandato.

Esse recorte, no entanto, não afeta apenas a relação com as classes médias. Há também uma questão mais sutil na forma como a pobreza é tratada nesse discurso. Ao posicionar o pobre como alguém permanentemente dependente da ação do Estado, o governo adota uma perspectiva que ignora um aspecto fundamental da experiência humana. O indivíduo não deseja permanecer nessa condição. A aspiração natural é avançar, melhorar de vida e conquistar autonomia. Ao manter o pobre como categoria fixa, o discurso político acaba por reforçar uma condição que deveria ser transitória.

Há ainda um terceiro elemento que evidencia o descompasso desse modelo. O Brasil passou por transformações importantes nas últimas décadas. Parte dessas mudanças ocorreu com a contribuição de políticas públicas que ajudaram a reduzir a pobreza, mérito que se associa aos governos de Lula. O país deixou o Mapa da Fome da FAO e registrou avanços na renda, com mobilidade social que ampliou o número de pessoas com padrões de consumo próximos aos das classes médias.

Os dados refletem esse movimento. Em um único ano, 8,6 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e outros 1,9 milhão deixaram a condição de pobreza extrema. Ainda assim, os desafios permanecem. Aproximadamente 23% da população vive com até R$ 694 por mês, parâmetro adotado pelo Banco Mundial para definir pobreza.


Esses números apontam para uma realidade de contrastes. Há progresso, mas também persistência de dificuldades. O problema está na forma como esse cenário é interpretado. Em vez de servir como estímulo à revisão de premissas, acaba sendo utilizado para reforçar uma lógica já conhecida. Com isso, ignora-se que parte significativa da população já não se identifica com essa classificação e tampouco deseja permanecer associada a ela.


O Brasil atual apresenta características distintas daquele que moldou o pensamento político de Lula. Trata-se de uma sociedade mais urbana, conectada, diversa e marcada por aspirações mais amplas. A insistência em um vocabulário e em práticas ancoradas no passado revela uma dificuldade de acompanhar essas transformações.


Nesse contexto, o resultado é um desalinhamento entre a realidade do país e a forma como ele é interpretado por uma de suas principais lideranças políticas. Ao manter essa perspectiva, o governo limita sua capacidade de diálogo com diferentes segmentos e deixa de aproveitar a oportunidade de construir um projeto mais abrangente.


O país segue em movimento, ainda que com desafios. Mas a visão que orienta parte de sua condução permanece presa a um modelo que já não oferece respostas suficientes para compreender — nem para conduzir — a complexidade brasileira contemporânea.