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Michael Charles

Felca fura o tapete

Confira a coluna de Michael Charles desta sexta-feira 5
Michael Charles
05/09/2025 | 05:18

Em poucas semanas, o youtuber Felca capturou a atenção do País com sua crítica contundente sobre um dilema já conhecido, mas ignorado: a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos nocivos na internet. Não é de hoje que os riscos e danos da internet a esse público são tema de intensos debates na mídia, na academia e em diálogos entre educadores, juristas e profissionais de saúde.

Felca não puxou apenas a ponta de um tapete, mas escancarou uma discussão urgente. O vídeo, que se aproxima de 50 milhões de visualizações — ao abordar a adultização de crianças —, é um sintoma de um problema muito mais amplo. O debate começa no acesso à tecnologia: qual a idade ideal para uma criança ter livre acesso a um smartphone, computador ou TV conectada?

Youtuber Felipe Bressanim Pereira, o Felca, fez compilado sobre adultização de crianças nas redes sociais - Foto: Reprodução/Youtube
Felca fura o tapete - Foto:

Por muitos anos, a televisão se impôs como a principal fonte de conteúdo, oferecendo canais abertos e por assinatura com programações específicas. Contudo, essa era acabou. As TVs se transformaram em portais de internet, com conteúdos cada vez mais interativos e personalizados. Da inocente Galinha Pintadinha a vídeos de adolescentes que ensinam outros adolescentes sobre temas complexos como empreendedorismo, a fronteira entre o que é lúdico e o que é nocivo se dissolveu por completo.

Felca surpreendeu a muitos que enxergavam ou aceitavam com naturalidade as bizarrices que circulam nas redes, um ambiente que serve como porta de entrada para predadores. O alerta, no entanto, não é novo. O psicólogo social americano Jonathan Haidt, em seu livro “A Geração Ansiosa”, defende a tese de que a exposição precoce à internet, combinada com a diminuição de brincadeiras ao ar livre e do contato social direto, está por trás de um aumento preocupante de problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes. Ele esteve no Brasil e, em sintonia com a legislação local, defendeu a importância de restrições de uso da tecnologia em ambientes escolares. No entanto, é um consenso que a lei brasileira, embora seja um avanço no ambiente escolar, não é suficiente para abordar a amplitude do problema.

A discussão sobre a idade de acesso é uma tendência global de resposta a um problema urgente. Nos Estados Unidos, a Flórida proibiu o uso de redes sociais para menores de 14 anos. Na França, exige-se o consentimento parental para menores de 15. Já a Austrália, em uma das medidas mais rigorosas do mundo, proíbe o acesso de menores de 16 anos a essas plataformas.

Diante deste cenário global, o debate chega agora ao nosso Congresso. É o momento de deixar de lado as divergências políticas e ideológicas. É preciso agir com racionalidade e maturidade para aprovar uma lei que, de fato, proteja nossas crianças, nossos adolescentes e, por fim, as famílias brasileiras. Chega de jogar o futuro da nossa juventude para debaixo do tapete.