O ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL) voltou a negar que tenha deixado uma dívida próxima de R$ 1 bilhão para a gestão do prefeito Paulinho Freire (União). Em entrevista ao Meio Dia RN, da 96 FM, Álvaro afirmou que a Prefeitura não foi entregue em situação de desequilíbrio financeiro e sustentou que deixou dinheiro em caixa superior ao passivo existente.
A declaração reacende uma controvérsia que acompanha a transição entre as duas gestões, entre o fim de 2024 e o início de 2025. Relatório Técnico Conclusivo da Comissão de Transição registrou R$ 862,9 milhões em restos a pagar, além de 46 obras paralisadas ou inacabadas. O documento serviu de base para as primeiras avaliações da gestão Paulinho sobre a herança administrativa deixada pela gestão anterior.

A comissão de transição foi coordenada pela ex-secretária de Planejamento da gestão anterior e atual vice-prefeita Joanna Guerra (PL). É ela quem assina o documento final, que foi encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN).
Na entrevista, Álvaro foi questionado sobre as informações que se tornaram públicas logo após sua saída da Prefeitura, segundo as quais a nova administração teria herdado um passivo próximo de R$ 1 bilhão. O repórter lembrou que a própria gestão Paulinho adotou medidas de contenção de despesas para reduzir o déficit, com cortes e reorganização da máquina. O ex-prefeito negou que a situação fosse essa.
“Não havia esse passivo não”, afirmou Álvaro. Em seguida, disse que a equipe dele fez um levantamento antes da saída da Prefeitura. “Nós fizemos o levantamento, nós nos reunimos com os contadores do Município, nos reunimos com a secretária de Planejamento, Joanna Guerra, que está aqui. Nós fizemos o levantamento”, declarou.
Álvaro admitiu a existência de obrigações deixadas pela sua gestão, mas negou que elas superassem a disponibilidade financeira do Município. “Nós deixamos dinheiro em caixa e deixamos também um passivo que houve, que existiu realmente, mas o dinheiro em caixa que a gente deixou era maior do que esse passivo”, disse.
O ex-prefeito também citou Joanna Guerra como alguém que poderia confirmar sua versão. “Está aí Joanna Guerra, que pode comprovar”, afirmou. Segundo ele, a Prefeitura ficou em situação “razoavelmente confortável”, inclusive por causa de convênios já firmados e recursos garantidos.
Transição
A fala, porém, contrasta com o relatório da transição encaminhado ao TCE. O documento apontou R$ 862,9 milhões em restos a pagar, sendo R$ 349,8 milhões em despesas processadas e não pagas e R$ 513,1 milhões em despesas não processadas. Restos a pagar são despesas empenhadas pela administração pública, mas não quitadas até o encerramento do exercício financeiro.
O relatório também registrou 46 obras paralisadas ou inacabadas. Entre os pontos levantados pela transição, estavam pendências em áreas como Educação, Serviços Urbanos, infraestrutura e equipamentos públicos. O documento também tratou de dívida fundada, precatórios e obrigações previdenciárias.
A transição entre Álvaro e Paulinho começou formalmente em novembro de 2024. À época, a própria Prefeitura de Natal informou que a comissão teria 55 integrantes, sendo 30 indicados pela gestão Álvaro e 25 pelo prefeito eleito Paulinho Freire. A coordenação ficou com Joanna Guerra, que havia sido auxiliar de Álvaro e, depois, assumiria a vice-prefeitura na gestão Paulinho. O deputado estadual licenciado Adjuto Dias também participou da coordenação dos trabalhos.
Na abertura da transição, Álvaro se colocou à disposição para fornecer os dados solicitados. Paulinho pediu empenho da equipe para produzir um “retrato fiel da administração”. Joanna ficou como porta-voz da comissão e informou que os trabalhos seguiriam as regras do TCE e o decreto editado ainda na gestão Álvaro.
Após assumir a Prefeitura, Paulinho Freire anunciou medidas de contenção de despesas. Na posse, em 1º de janeiro de 2025, ele afirmou que cortaria jetons, gratificações e diárias, além de limitar viagens apenas ao necessário. A justificativa foi abrir espaço no orçamento para investir na cidade.
“Vamos tomar decisões que impactarão na economia da Prefeitura, cortando jetons, gratificações, diárias e limitando viagens apenas às necessárias. Isso permitirá economizar recursos para investir na cidade”, disse Paulinho, na ocasião.
As medidas iniciais de ajuste reforçaram a leitura de que a nova gestão encontrou uma situação financeira apertada. Depois, quando os dados do relatório vieram a público, Paulinho evitou transformar o passivo em justificativa para paralisar a administração, mas reconheceu o problema. Disse que “toda gestão, quando assume, pega dívidas e obras paradas” e afirmou que sua equipe buscava “organizar”, “dar continuidade” e “diminuir essas dívidas”.
Orçamento
O relatório de transição também foi seguido por dados fiscais posteriores. Os Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária (RREOs) de 2025 mostram que a gestão Paulinho pagou R$ 627,5 milhões e cancelou R$ 68,17 milhões do estoque bruto de restos a pagar que entrou no exercício. Ao fim de 2025, ainda restavam R$ 429,57 milhões em saldo. O dado indica redução relevante do passivo, embora não permita afirmar, sem planilha de conciliação item a item, quanto desse total corresponde exatamente ao número político de R$ 862,9 milhões divulgado a partir da transição.
Outro dado importante está no demonstrativo de disponibilidade de caixa da transição. O documento apontou R$ 1,424 bilhão em saldos bancários em 31 de dezembro de 2024. Mas a maior parte desse total, R$ 1,160 bilhão, estava vinculada ao NatalPrev, o regime próprio de previdência municipal. A Prefeitura propriamente dita tinha R$ 259,6 milhões. Isso relativiza a tese de caixa amplo e livre para cobrir todo o passivo, porque parte expressiva dos recursos estava vinculada a finalidades específicas.
Álvaro, por sua vez, tem contestado os números desde que o relatório se tornou público. Em entrevistas anteriores, afirmou que os valores estavam “inflados” ou “superfaturados” e que não correspondiam à realidade. Agora, voltou a sustentar que deixou a Prefeitura em situação confortável. Na fala à 96 FM, porém, não apresentou o valor que considera correto nem detalhou o montante exato de caixa livre que teria deixado disponível.
A divergência central está justamente nesse ponto: Álvaro reconhece que havia passivo, mas afirma que ele era menor que o dinheiro disponível. O relatório da transição, assinado por Joanna Guerra e enviado ao TCE, aponta um quadro mais pesado, com R$ 862,9 milhões em restos a pagar e dezenas de obras pendentes. As medidas iniciais de contenção adotadas por Paulinho também caminharam no sentido de reorganizar uma máquina recebida com obrigações relevantes.
Contexto
O caso ganhou peso político porque Álvaro tenta usar sua passagem pela Prefeitura do Natal como uma das principais credenciais de sua pré-candidatura ao Governo do Rio Grande do Norte. A discussão sobre o caixa deixado, os restos a pagar, as obras paradas e os ajustes feitos pela gestão Paulinho passou a integrar o debate sobre o legado administrativo do ex-prefeito.
A situação também coloca Joanna Guerra no centro da controvérsia. Álvaro a citou como testemunha de que a Prefeitura teria ficado confortável. Mas o relatório da transição coordenado e assinado por ela é justamente o documento que embasa os números contestados pelo ex-prefeito. Assim, a nova declaração de Álvaro não apenas nega a versão da atual gestão, mas também contraria o documento técnico que formalizou a passagem de comando entre as duas administrações.