Um carro novo pode chamar atenção pela tela, pela autonomia, pelo design e pelo pacote tecnológico. Mas, para uma marca nova crescer no Rio Grande do Norte, a GAC aposta que o fator decisivo vem depois do encantamento inicial: confiança. No mercado dos eletrificados, em que bateria, software, garantia e pós-venda pesam tanto quanto desempenho, a concessionária vê o relacionamento com o cliente como parte central da venda.
Representada em Natal pelo Grupo A. Cândido, a GAC integra a nova leva de marcas chinesas que ampliam presença no Brasil com forte apelo em tecnologia, conectividade e custo-benefício. Para Marcelo Vadalá, diretor no Grupo A. Cândido e responsável pelas operações das marcas Mercedes-Benz e GAC Motors nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas, o avanço dos híbridos, plug-in e elétricos deixou de ser apenas uma tendência e passou a representar uma transformação efetiva do mercado.

A avaliação de Vadalá acompanha o movimento nacional dos eletrificados. O Brasil fechou 2025 com mais de 223 mil veículos eletrificados vendidos, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, crescimento muito superior ao do mercado convencional. Para o executivo, esse avanço mostra que o consumidor passou a considerar híbridos e elétricos dentro de uma nova lógica de compra, mais orientada por tecnologia, economia e experiência de uso.
No Nordeste, o movimento também ganha corpo. Vadalá afirma que a região já representa fatia relevante das vendas nacionais de eletrificados e que Natal começa a entrar nesse processo de forma consistente. No RN, segundo ele, o consumidor está cada vez mais aberto à tecnologia, impulsionado pelo custo do combustível, pela busca de economia no uso diário e pelo desejo de inovação.
O perfil de quem chega à concessionária também mudou. Antes, diz o diretor, a pergunta mais comum era sobre o que era um carro elétrico. Agora, o consumidor quer saber qual modelo faz mais sentido para a própria rotina.
“O consumidor potiguar hoje já chega à concessionária querendo entender o produto”, afirma Vadalá.
Essa mudança mostra que o interesse já ultrapassou a curiosidade inicial. O cliente não está apenas admirando a tecnologia. Está avaliando se ela cabe no orçamento, na garagem, nas viagens, nos deslocamentos urbanos e na rotina familiar. Para Vadalá, esse processo lembra outras viradas de consumo no Brasil, como a chegada do smartphone, do internet banking e dos serviços de streaming. Primeiro, vem a curiosidade. Depois, a experimentação. Quando a solução passa a fazer sentido no dia a dia, deixa de ser novidade e vira hábito.
No caso dos eletrificados, esse caminho obriga a concessionária a assumir uma função mais consultiva. A venda deixa de ser centrada apenas em motor, performance e condição comercial. Passa a incluir explicações sobre tecnologia, conectividade, recarga, autonomia, experiência embarcada e custo de uso. Para a GAC, esse é um dos pontos que mais diferenciam a nova fase do mercado.
“Mudou praticamente tudo. O carro eletrificado não transforma apenas o produto. Ele transforma o modelo da concessionária”, afirma.

A transformação aparece em várias frentes. A equipe precisa receber capacitação técnica, dominar softwares, entender diagnóstico eletrônico, adotar protocolos de segurança na oficina, estruturar carregamento e treinar vendedores para um atendimento mais consultivo. O cliente de um eletrificado quer entender o carro antes de comprar, mas também quer saber como será atendido depois.
É por isso que o pós-venda ganha peso maior na decisão. Segundo Vadalá, o comprador busca segurança de longo prazo. Em uma marca nova, essa preocupação é ainda mais forte, porque envolve não apenas a confiança no produto, mas também na operação local, na disponibilidade de peças, na garantia e na capacidade de atendimento.
“Confiança não se constrói no discurso. Se constrói na experiência”, afirma o diretor.
Para ele, o consumidor aceita conhecer uma marca nova quando percebe estrutura, transparência, pós-venda forte, garantia clara, peças, oficina preparada e atendimento. A tecnologia pode chamar atenção, mas não basta para sustentar relacionamento com o cliente. “Hoje o cliente não compra apenas o carro. Ele compra segurança. Por isso, o papel da concessionária ficou ainda mais importante. Tecnologia impressiona, mas relacionamento fideliza”, diz.
A GAC chega ao mercado potiguar em um momento em que as marcas chinesas elevaram a competitividade no setor automotivo brasileiro. A disputa passou a envolver mais conectividade, acabamento, equipamentos de série, autonomia, design e custo-benefício. Isso também mudou a régua para marcas tradicionais, que agora precisam responder com mais tecnologia, novos produtos e melhor experiência de atendimento.
Vadalá avalia que os híbridos plug-in devem continuar liderando o crescimento por entregarem o que chama de “melhor dos dois mundos”: eletrificação e segurança de autonomia. O consumidor que ainda tem receio de migrar diretamente para um 100% elétrico encontra nesse tipo de veículo uma transição mais confortável, especialmente em mercados onde a infraestrutura de recarga ainda está em expansão.
Os SUVs eletrificados também devem puxar a demanda. Segundo o executivo, o carro está se transformando em uma plataforma tecnológica sobre rodas. Isso significa que a decisão de compra passa a considerar não apenas motorização, mas conectividade, assistência à condução, experiência digital e integração com a rotina do usuário.
No RN, a concessionária vê condições para que o Estado funcione como praça estratégica de aceitação dos eletrificados no Nordeste. Vadalá cita crescimento urbano organizado, distâncias urbanas relativamente favoráveis, perfil turístico, presença da energia solar e consumidor aberto a novidades. Para ele, o Nordeste cresce em interesse por eletrificados e o RN pode servir como laboratório para expansão regional.
A capital potiguar reúne características que favorecem esse teste: deslocamentos urbanos mais curtos, uso frequente do carro em trajetos de lazer e turismo, condomínios residenciais, consumidores interessados em economia e um mercado ainda em fase de amadurecimento. Nesse ambiente, marcas novas podem medir com mais clareza como o cliente reage à combinação entre tecnologia, preço, autonomia e suporte local.
O desafio da GAC, portanto, não é apenas apresentar novos modelos. É construir reputação em um mercado onde o consumidor valoriza inovação, mas cobra segurança. A marca entra na disputa com tecnologia, design e eletrificação, mas sabe que o crescimento dependerá da capacidade de transformar curiosidade em experiência e experiência em confiança.
Para Vadalá, o futuro dos eletrificados no RN será definido por quem conseguir unir produto competitivo, estrutura local e relacionamento duradouro. A tecnologia pode abrir a porta da concessionária. Mas, na nova fase do mercado automotivo, é o atendimento antes, durante e depois da venda que tende a decidir quem permanece na garagem do consumidor.