As novas informações reunidas pela Polícia Federal sobre a proximidade entre o senador Ciro Nogueira, do Piauí, presidente do Progressistas, e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e apontado como responsável por fraudes bilionárias, são graves a ponto de não permitirem acomodação institucional. A cada avanço da investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro, cresce o peso das evidências contra Nogueira. A permanência do senador no mandato se torna, dia após dia, mais difícil de sustentar.
O que já veio a público basta para que o Senado abra processo de cassação por quebra de decoro parlamentar. Essa providência não precisa aguardar eventual denúncia da Procuradoria-Geral da República. A suspeita de promiscuidade entre lideranças do Congresso e um operador acusado de fraudes em escala multibilionária exige resposta política imediata, além da responsabilização criminal que caberá às autoridades competentes.

As mensagens encontradas pelos investigadores mostram que Vorcaro pagou hospedagens para Ciro Nogueira e para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, no hotel cinco estrelas Four Seasons, em Lisboa. Segundo a Polícia Federal, relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras reforça “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”. Em maio, a própria PF já havia revelado mensagens indicando que Vorcaro pagava a Nogueira uma mesada de R$ 300 mil, posteriormente elevada para R$ 500 mil. A investigação mais recente aponta ainda que o senador teria estruturado uma rede para ocultar os valores ilícitos.
No caso de Hugo Motta, os elementos conhecidos até agora são menos contundentes do que os que pesam contra Nogueira, mas continuam politicamente embaraçosos. O presidente da Câmara tratou a viagem a Lisboa como fato normal e afirmou não ver irregularidade nas diárias pagas por Vorcaro. O jornal O Estado de S. Paulo revelou também a existência, no celular do banqueiro, de pedido de Motta para liberação de empréstimo a uma empresa de sua cunhada. O deputado declarou que a operação “está dentro da legalidade”.
As explicações de Motta não bastam. O presidente da Câmara não pode aceitar vantagem alguma de alguém com interesses diretos em matérias sob análise do Congresso, muito menos de uma figura como Vorcaro. É indispensável que preste esclarecimentos sobre suas conversas, viagens e interações com o ex-controlador do Master e seus intermediários. Também deveria tornar públicas todas as hospedagens e caronas em jatinhos recebidas enquanto exercia mandato.
No caso de Ciro Nogueira, a situação é ainda mais comprometedora. O Banco Master, antes de ser liquidado pelo Banco Central, oferecia papéis com rentabilidade muito acima da média do mercado, usando como atrativo a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para aplicações de até R$ 250 mil. Em junho de 2024, Nogueira viajou a Lisboa às custas de Vorcaro. Dois meses depois, quando os problemas do banco já eram conhecidos, apresentou proposta redigida pelo próprio Master para ampliar a garantia do FGC para R$ 1 milhão.
Em janeiro de 2025, o senador esteve em Courchevel, nos Alpes Franceses, onde foi fotografado abraçado a Vorcaro. Em setembro do mesmo ano, enquanto o Banco Central apertava o cerco sobre as fraudes e depois do veto à venda do Master ao Banco de Brasília, aliados de Nogueira na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto que previa a possibilidade de exoneração de diretores do Banco Central pelo Congresso.
A sequência é reveladora. Enquanto interesses do Master avançavam no Legislativo, Nogueira desfrutava da estrutura proporcionada por Vorcaro. Aceitou caronas em jatinhos, hospedagens e viagens luxuosas. Circulou com o banqueiro em Nova York, Lisboa, Paris e nos Alpes. Deixou-se fotografar ao lado dele em momentos de intimidade incompatíveis com a prudência mínima exigida de um senador da República.
A naturalidade com que tudo isso ocorreu expõe algo ainda mais grave do que o favorecimento pessoal. Mostra a confiança na impunidade. Um parlamentar no posto de Ciro Nogueira não poderia ignorar o conflito ético de se aproximar dessa forma de um empresário com interesses regulatórios e legislativos tão sensíveis. Ao fazê-lo, comprometeu não apenas sua imagem pessoal, mas a credibilidade do próprio Senado.
O Congresso não pode fingir que se trata de assunto exclusivamente policial. Se deputados e senadores se omitirem diante de evidências tão sérias, assumirão parcela da responsabilidade política por qualquer crime que venha a ser comprovado. A investigação seguirá seu curso. Mas o Senado tem dever próprio, independente e imediato. Precisa decidir se ainda admite, em seus quadros, um parlamentar cercado por indícios tão robustos de favorecimento, ocultação de valores e atuação em benefício de interesses privados suspeitos.
A omissão, neste caso, não será neutralidade. Será cumplicidade institucional.