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Artigo

Bolsonaro e a Hungria

Confira o artigo de Sávio Hackradt desta quarta-feira 27
Sávio Hackradt
27/03/2024 | 08:00

O jornal New York Times (NYT) abriu a semana política e jurídica no Brasil, com uma matéria em que mostra o ex-presidente Jair Bolsonaro na embaixada da Hungria, em Brasília. Após ter o passaporte apreendido pela Polícia Federal (PF), no dia 8 de fevereiro deste ano de 2024, Jair Bolsonaro dormiu na embaixada nos dias 12 e 13 de fevereiro, em pleno carnaval. O jornal NYT mostrou vídeos de Bolsonaro no prédio da embaixada da Hungria e disse que a estadia do ex-presidente seria uma estratégia para tentar escapar de possíveis punições da Justiça brasileira.

Em nota, a defesa do ex-presidente disse que ele passou dois dias hospedado no prédio, mas negou que a estadia tenha se dado por busca de asilo político. Segundo os representantes de Bolsonaro, a presença na embaixada se destinou a “manter contatos com autoridades da Hungria” e atualizar os representantes húngaros sobre o “cenário político das duas nações”.

Jair Bolsonaro na embaixada da Hungria — Foto: Reprodução/NYT
Jair Bolsonaro na embaixada da Hungria. Foto: Reprodução/NYT

Tanto a visita de Bolsonaro à embaixada da Hungria como a nota justificando o fato são inusitadas. Em pleno carnaval, o ex-presidente visitou o embaixador e as autoridades da Hungria, para discutir o ¨cenário político das nações¨, dormindo no quarto de hóspedes da embaixada durante dois dias: parece piada. Vamos admitir que Bolsonaro tenha ido discutir ¨cenários políticos¨ na embaixada da Hungria, mas qual a necessidade de dormir lá, se a casa do ex-presidente fica a 18 km da embaixada? Não seria mais lógico se reunir durante o dia e voltar para casa no início da noite? Que papel fundamental a Hungria tem na geopolítica mundial, para que haja reuniões desse tipo em pleno carnaval, conforme explica a nota da defesa de Bolsonaro?

Viktor Orbán é um dos principais líderes da extrema direita na Europa e está no poder na Hungria desde 2010. Amigo de Bolsonaro desde 2019 e chamado de herói pelo ex-presidente, Orbán disse em julho de 2022, falando sobre imigração: “Estamos dispostos a nos misturar, mas não queremos nos tornar mestiços”. O que Bolsonaro fez, de fato, na embaixada da Hungria? Temia a prisão? Pediu asilo? Foi se refugiar?

As embaixadas têm sido um lugar de refúgio para aqueles que se sentem acossados, garantido pelo acordo de Viena de 1961, segundo o qual qualquer pessoa tem o direito de buscar asilo na embaixada de outro país. Bolsonaro, que alimenta teorias conspiratórias, deve ter ficado com medo de ser preso e foi para a embaixada da Hungria, levando até o seu travesseiro.

A PF já disse que vai apurar essa movimentação de Bolsonaro na embaixada e o governo brasileiro já chamou o embaixador hungaro para explicações. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, deu 48 horas para o ex-presidente explicar porque ficou dois dias “hospedado” na embaixada. Essa presença de Bolsonaro na embaixada da Hungria pode apressar a prisão dele? As Torcidas contra e a favor já se manifestaram nas redes sociais.

O fato é que ainda não terminaram as investigações sobre a tentativa de golpe no dia 8 de janeiro de 2023. E só depois de concluídas pela PF é que serão encaminhadas à Procuradoria Geral da República (PGR), que irá analisar e definir se aceita ou não a denúncia, para encaminhar ao Supremo Tribunal Federal (STF). Muita água ainda vai rolar debaixo dessas pontes.

Por enquanto, Bolsonaro vai amargar o desgaste político pela permanência de dois dias, no carnaval, na embaixada da Hungria. Passou a imagem de que não confia na própria história, demonstra admitir culpa na tentativa de golpe e temer as consequências dos seus atos.