Ao defender, em reportagem publicada por O Correio de Hoje nesta terça-feira (16), que o Rio Grande do Norte precisa recuperar a “credibilidade”, o pré-candidato ao Governo do Estado Allyson Bezerra (União Brasil) procurou sintetizar a necessidade de reorganizar as contas públicas, recuperar a capacidade de pagamento, atrair investimentos e devolver ao Estado condições de executar grandes obras. Segundo ele, o RN precisa de um “choque de gestão” para sair da nota C na Capacidade de Pagamento (Capag), recuperar a confiança financeira e administrativa e voltar a investir.
Nas palavras, a proposta parece simples. Na prática, porém, trata-se do principal desafio da administração estadual. O Rio Grande do Norte acumula anos de dificuldades fiscais e enfrenta um cenário marcado por despesas obrigatórias elevadas, baixa capacidade de poupança, liquidez negativa, investimentos reduzidos e uma máquina pública que consome quase toda a arrecadação apenas para manter seu funcionamento. A recuperação da credibilidade, portanto, depende muito mais do que um discurso eleitoral.

Nesse contexto, a experiência administrativa em Mossoró ajuda a construir a imagem de gestor eficiente, mas não responde automaticamente aos desafios estaduais. O orçamento do Rio Grande do Norte é muito superior ao de um município e está submetido a pressões permanentes nas áreas de saúde, segurança, educação, previdência, folha de pessoal, precatórios e demais obrigações constitucionais, exigindo soluções estruturais e capacidade de articulação política.
Os próprios indicadores fiscais ajudam a dimensionar o tamanho do problema. O Estado possui nota C na Capag do Tesouro Nacional, índice que mede a capacidade de pagamento de estados e municípios. Na prática, essa classificação dificulta o acesso a operações de crédito com garantia da União, limitando a possibilidade de financiar obras estruturantes em condições mais favoráveis. Uma eventual melhora para os níveis A ou B permitiria ampliar o acesso a financiamentos, reduzir juros e fortalecer a confiança de bancos e organismos financiadores, mas exigiria metas fiscais rigorosas, planejamento consistente e controle permanente das despesas.
Outro dado preocupante é a poupança corrente de 95,74%, também classificada como nota C. Isso significa que quase toda a receita corrente é consumida pelas despesas de custeio, deixando pouca margem para investimentos e modernização dos serviços públicos. O Estado arrecada praticamente apenas para manter a máquina funcionando, sem capacidade significativa de transformar receita em obras e melhorias para a população.
A situação também aparece no indicador de liquidez, atualmente negativo em 16,04%. Em termos práticos, o Estado dispõe de caixa insuficiente diante das obrigações de curto prazo, reduzindo a previsibilidade financeira, aumentando custos de contratação e diminuindo a confiança de fornecedores e investidores. Reverter esse quadro exigiria recomposição gradual do caixa, redução de restos a pagar e maior disciplina na execução orçamentária.
Outro obstáculo importante está na despesa com pessoal. O Tesouro Nacional registrou comprometimento de 55,73% da Receita Corrente Líquida ajustada no segundo quadrimestre de 2025 e de 56,41% no terceiro, acima do limite de 49% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal para o Executivo estadual. Essa realidade restringe a capacidade de expansão de políticas públicas e reduz a margem para novos investimentos e concursos.
O baixo nível de investimentos resume boa parte dessa dificuldade. Em 2025, apenas 4% da receita total do Estado foram destinados a investimentos, percentual insuficiente para impulsionar infraestrutura, logística, saúde, segurança, turismo e recursos hídricos. Paralelamente, no início de 2026, as despesas cresceram acima das receitas, obrigando o governo a promover bloqueios orçamentários e reforçando a percepção de desequilíbrio estrutural das contas públicas.
Além do ajuste fiscal, será necessário melhorar a qualidade da arrecadação e da governança pública. Isso envolve combate à sonegação, modernização da fiscalização tributária, cobrança mais eficiente da dívida ativa, revisão de renúncias fiscais e maior transparência no acompanhamento das metas fiscais e dos investimentos públicos.
Por isso, a recuperação da credibilidade defendida por Allyson é, de fato, condição indispensável para que o Rio Grande do Norte volte a investir e retome uma trajetória de crescimento. Mas ela não pode ser tratada como uma palavra de efeito. Exige planejamento, revisão de prioridades, controle permanente das despesas, fortalecimento do caixa, projetos executivos consistentes e capacidade política para enfrentar interesses contrariados. Mais do que prometer recuperar a confiança, será preciso explicar como fazê-lo, em quanto tempo e com quais medidas concretas para devolver ao Estado capacidade de investimento e sustentabilidade financeira.