BUSCAR
BUSCAR
Editorial

A hora da virada no transporte público

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 29
Editorial
29/10/2025 | 05:38

Natal vive um momento histórico em seu sistema de transporte público. Depois de muitas promessas não cumpridas ao longo dos anos, parece que agora finalmente a tão esperada licitação do serviço de ônibus vai virar realidade na capital potiguar.

As leis que viabilizam o novo momento do transporte já passaram pela Câmara Municipal, entre elas a que autoriza o pagamento de um subsídio financeiro. Agora é avançar para os próximos passos: a divulgação das regras de concessão, a abertura da concorrência e a efetiva seleção das empresas que passarão a operar as linhas de ônibus na cidade.

Onibús Novos (4)
A hora da virada no transporte - Foto: José Aldenir / AgoraRN

Essa é de fato uma conquista relevante para Natal. A licitação significa a transição de um modelo fragmentado e pouco transparente para um contrato que permita previsão de responsabilidades, metas de qualidade e planejamento de investimentos futuros. Para as empresas, é mais previsibilidade de equilíbrio econômico-financeiro. Esse salto permite ao cidadão vislumbrar ônibus mais confortáveis, horários definidos, frota renovada e integração de modais.

Natal deve comemorar o avanço dessa etapa, mas cuidar de aspectos que garantam de fato um progresso nessa área.

Nesse contexto, o tema do subsídio merece destaque. Natal finalmente caminha para estar sintonizada com o que já é realidade em dezenas de outras capitais. O histórico recente já deixou claro que os custos do sistema de transporte precisam ser melhor rateados, com aporte de verba pública. É insustentável a manutenção apenas com o valor da tarifa paga pelos usuários. Na prática, o recurso é insuficiente e, por causa disso, as empresas acabam não prestando serviço o adequadamente.

É essencial que o novo contrato contenha prazos claros, mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro, garantias contratuais e parâmetros de performance. Sem isso, corre-se o risco de que o vencedor da licitação venha a debandar ou a reclamar desequilíbrios que prejudiquem o sistema. É necessário construir um sistema que dê às empresas vencedoras a certeza de que o repasse será efetivado. Só assim a gestora do sistema, que é a Prefeitura do Natal, terá condições de cobrar o que estará em contrato.

A gestão municipal precisa garantir fluxo de recursos, forma de controle, cláusulas de penalidade e supervisão real — de modo que a iniciativa privada não atue sem respaldo ou risco excessivo. Esse equilíbrio é chave para atrair investimentos e garantir frota moderna e manutenção contínua.

É preciso lidar, por exemplo, com o previsível aumento da demanda pelo transporte no pós-licitação. Se o transporte de fato melhorar e a tarifa for justa, mais natalenses vão querer andar de ônibus. O que é ótimo, mas isso precisa estar colocado desde já na equação.

A licitação do transporte também é uma oportunidade para que Natal avance na eletromobilidade. O Rio Grande do Norte tem se destacado como um dos estados de vanguarda na matriz de energia limpa — com forte aposta em eólica e solar e no hidrogênoi verde. Por isso, é imperioso que Natal aproveite essa vantagem e inclua no edital a exigência de frota elétrica ou híbrida, criando um eixo piloto que possa ser referência nacional de transporte limpo. Isso representa menos poluição, menor custo operacional no médio prazo e alinhamento com metas climáticas globais, dando mais um argumento competitivo para a capital potiguar na busca por investimentos.

E não para por aí. A licitação do transporte público deve estar acompanhada de uma reestruturação da própria cidade para favorecer o coletivo. Isso significa faixas exclusivas bem conservadas em corredores troncais, que garantam prioridade real aos ônibus; terminais e pontos de embarque/desembarque dignos, abrigados, acessíveis, com informação em tempo real; integração modal — ônibus, bicicletas, VLT ou trem leve (à medida que Natal avance); e reordenamento viário para que a cidade “funcione para o transporte público”, e não apenas para o fluxo de automóveis.

Para Natal, a licitação apenas inicia o ciclo. A política pública requer acompanhamento permanente. É preciso que a Câmara, os conselhos municipais de transporte, a sociedade civil e a imprensa fiscalizem prazos, metas de qualidade, transparência no contrato e desempenho real.

A Prefeitura acertou ao colocar o edital em movimento, e agora tem a missão de consolidar o modelo.

Natal está diante de uma virada estrutural. O edital da nova licitação do transporte público representa uma oportunidade muito rara — décadas de promessa se convertem agora em chance real de transformação. Entretanto, para que essa chance se converta em resultado concreto, é necessário que a licitação contenha segurança jurídica, modelo de subsídio inteligente, compromisso com eletromobilidade e investimentos integrados em mobilidade urbana. Em paralelo, a cidade deve estruturar-se para que o coletivo seja protagonista.

Se bem conduzido, este momento não será apenas um “novo contrato de ônibus” — será um marco de cidade moderna, inclusiva e sustentável. Caso contrário, Natal corre o risco de ver mais uma promessa frustrada.

É hora de avançar com firmeza. A mobilidade urbana de Natal exige — e a população merece.