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Opinião

A exploração eleitoral da tragédia

O atentado contra Cabo Deyvison e a morte de Alyson Dyego exigem investigação e responsabilidade, não a transformação da dor em instrumento de disputa eleitoral
Por O Correio de Hoje
17/06/2026 | 16:24

O atentado contra o vereador mossoroense Cabo Deyvison (PL), pré-candidato a deputado federal, e a morte de seu assessor Alyson Dyego de Oliveira Morais deveriam ter imposto à classe política potiguar um mínimo de compostura. Diante de um crime grave, praticado em via pública, com uso de armas pesadas e evidente potencial de intimidação, esperava-se solidariedade às vítimas, cobrança firme por investigação e respeito ao trabalho das autoridades policiais. Parte dos políticos fez isso. Outra parte, infelizmente, preferiu o caminho da exploração eleitoral.

A tragédia mal havia sido assimilada pela sociedade quando alguns líderes já tentavam convertê-la em peça de campanha. Antes de se saber com segurança quem mandou matar, quem executou, qual foi a motivação e que interesses estavam por trás do ataque, já havia discursos prontos, vídeos gravados, frases de efeito e conclusões convenientes. O crime, ainda cercado de dúvidas investigativas, virou argumento. A dor virou conteúdo. A morte virou palanque.

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O ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL), pré-candidato ao Governo do Estado, foi o exemplo mais visível desse comportamento. Ao visitar Cabo Deyvison no hospital e gravar manifestação ao lado do vereador ferido, Álvaro até poderia alegar solidariedade partidária e humana. Mas a forma, o tempo e o tom traíram a intenção política. A cobrança por rigor é legítima. A transformação do leito hospitalar em cenário de vídeo político, não. Ao associar imediatamente o caso à crise de segurança pública e ao avanço do crime organizado, Álvaro buscou reforçar sua narrativa eleitoral antes mesmo de a investigação oferecer respostas definitivas.

O líder da direita potiguar, senador Rogério Marinho PL, também ultrapassou a fronteira da prudência. Como dirigente da legenda de Cabo Deyvison, tinha o dever de exigir proteção, apuração célere e punição exemplar. Mas, ao afirmar que o vereador, “ao que parece”, teria sido atacado por denunciar facções criminosas, Rogério ofereceu ao público uma conclusão embrulhada em cautela retórica. A expressão parece prudente, mas funciona politicamente como sentença antecipada. Um senador não é comentarista de rede social. Suas palavras têm peso institucional. Quando as usa para antecipar interpretações, contribui menos para a Justiça do que para a disputa de narrativas.

O senador Styvenson Valentim (Podemos) foi ainda mais explícito no uso político do episódio. Ao dizer que “o crime organizado está na política” e acusar adversários de hipocrisia, fez aquilo que costuma fazer: transformou um caso concreto, doloroso e ainda aberto em combustível para sua crítica genérica ao sistema político. O problema não é denunciar a infiltração do crime nas instituições. Esse é um tema real e grave. O problema é usar um atentado específico, com uma pessoa morta e outra ferida, como atalho para autopromoção moral. Há uma diferença imensa entre alertar a sociedade e posar como único homem puro em meio aos escombros.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, levou o caso a outro patamar de oportunismo ao classificá-lo como “terrorismo” e encaixá-lo de imediato no debate nacional sobre facções narcoterroristas. A pressa em nacionalizar o episódio serviu mais à agenda ideológica da direita do que à busca concreta por justiça no Rio Grande do Norte. Mais uma vez, a realidade local foi reduzida a matéria-prima de guerra política.

Presidente do PL em Natal, o ativista político Coronel Hélio (PL), pré-candidato ao Senado, ao relacionar o atentado ao crescimento das facções e ao endurecimento penal, seguiu roteiro parecido. É natural que um candidato ligado à segurança pública fale sobre crime organizado. Mas é condenável que o faça como se o caso já estivesse esclarecido. A sociedade precisa de firmeza contra criminosos, não de pré-candidatos disputando atenção com discurso antes de dados concretos sobre crimes.

Nada disso absolve o Governo do Estado de suas responsabilidades na segurança pública. A governadora Fátima Bezerra (PT) deve ser cobrada pelos índices de violência, pela presença de facções e pela capacidade de resposta das forças policiais. A cobrança responsável exige dados, investigação, plano, comando e resultado. O que se viu em parte da oposição foi outra coisa: a tentativa de transformar um crime bárbaro em prova instantânea de uma tese eleitoral.

Os pré-candidatos Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu Xavier (PT) adotaram tom mais adequado ao momento: solidariedade, repúdio, pedido de investigação e punição. Essa deveria ter sido a régua mínima de todos.

A política não precisa silenciar diante da violência. Ao contrário, deve cobrá-la com vigor. Mas há algo profundamente indecoroso quando candidatos correm para ocupar o espaço da tragédia antes que a polícia ocupe o espaço da verdade. A morte de Alyson Dyego e o atentado contra Cabo Deyvison exigem Justiça, não performance. Exigem Estado, não palanque. Exigem responsabilidade, não oportunismo eleitoral travestido de indignação.