O Festival DoSol comemorou, em 2021, 20 anos de existência na capital potiguar. Forte em todo o Nordeste, o DoSol atrai centenas de ouvintes apaixonados pelos diferentes ritmos apresentados durante os dias de festival. As duas décadas de música compõem a tradicionalidade do evento que, mesmo consolidado, soube se reinventar ao longo do tempo para continuar no gosto dos potiguares e turistas.
Reinvenção essa que foi extremamente necessária durante os meses de pandemia. Sem aglomerações possíveis, o DoSol migrou para o ambiente virtual e focou em lives, além de promover o lançamento de diversos novos artistas através do selo musical dentro do combo cultural.

Em dezembro do ano passado, houve o “aquecimento” do festival na Casa da Ribeira, reunindo 12 atrações que gravaram apresentações para serem exibidas de forma online – exibição essa que começou na última quinta- -feira 6 e segue até domingo 9. As transmissões dos shows são feitas no canal do YouTube do DoSol (youtube.com/dosoltv). Nos próximos sábados 15, 22 e 29 acontece o Jardim DoSol, com shows presenciais no pátio da Capitania das Artes, na Cidade Alta. Os ingressos, aliás, já estão esgotados.
O DoSol é fruto da visão e do trabalho dos produtores Anderson Foca e Ana Morena, que também integram projetos musicais na capital potiguar. “Em 2001, éramos um selo. Em 2005, tivemos nossa grande edição ocupando o largo da rua Chile. O ‘Circuito Cultural Ribeira’ também foi emblemático, muitos momentos emocionantes nesses 20 anos da nossa história”, relembrou Foca. Ele conversou com a Cultue e falou sobre os próximos eventos. Confira:
Cultue – Depois de uns anos, o festival acabou saindo da Ribeira. Como foi esse processo?
Anderson Foca – A gente saiu de lá porque estruturalmente a Ribeira não aguentava o festival, o espaço era pequeno e havia alguns problemas. São fases, o DoSol ocupou o Centro Histórico enquanto era para ocupar. Mas agora, nessa ação de janeiro, estamos voltando para a Ribeira [Capitania das Artes] e vai ser massa!
Cultue – O festival tem a marca de levar artistas estreantes para as apresentações. É importante abrir esse espaço?
Anderson Foca – O DoSol se alimenta dessas novidades e transformações. Desde 2011, além do selo, temos uma incubadora de artistas e eles usam o template do festival para se lançar. É uma plataforma. A música nova nos interessa e é para isso que existimos, para não deixar que a música morra, apostando na renovação e na memória. 2021, inclusive, foi nosso melhor ano de lançamentos: mais de 60. O disco de Eliano, por exemplo, foi feito de forma completamente remota.
Cultue – Em 2020 e 2021, não houve festival com a presença do grande público. Como foi migrar para o ambiente online? Acredita que o festival conseguiu crescer ainda mais nas redes sociais, por exemplo?
Anderson Foca – Quando veio a pandemia, a gente já tinha uma ação digital grande.
Nosso canal no YouTube é de 2008. Em todas as redes sociais, temos quase 100 mil pessoas inscritas. Eu, pessoalmente, não gostei de fazer lives. Acho que o público é parte principal das nossas ações. Não via a hora de reunir o público de novo, mesmo sabendo que ainda vivemos uma pandemia. A Covid não vai embora e precisaremos conviver, sabendo como lidar em cada momento. Não foi uma adaptação fácil ficar no digital, mas necessária. Foi legal, foram 4 DoSol online. Ficou conteúdo e história desse período.
Cultue – Como produtor cultural, qual foi o impacto da pandemia para você? Você acredita que a arte se provou primordial para a sociedade?
Anderson Foca – A cultura foi primordial para a população enfrentar o isolamento. Tem um papel social grande e, nos últimos tempos, percebemos o valor econômico da cultura. Foi um baque econômico ficar sem show, sem teatro, sem cinema e sem ter o convívio social, o que gera muito emprego e renda. Foi um impacto ruim mas que serviu para fortalecimento, e para entendermos a nossa importância. Ainda bem que conseguimos ficar de pé depois de tanto tempo sem atuar presencialmente.
Cultue – No fim de 2021, houve uma programação de aquecimento. Agora, até o dia 9 de janeiro, os shows gravados serão exibidos no canal do YouTube do DoSol. O que podemos esperar do repertório?
Anderson Foca – Os shows da Casa da Ribeira foram bonitos. Tivemos 12 shows, como o primeiro show do grupo Retrovisor em 15 anos, show de 10 anos do Talma e Gadelha, bandas e artistas de estreia.
Cultue – Em janeiro, teremos programação presencial no Jardim DoSol, no pátio externo da Capitania das Artes. Serão shows de artistas locais e artistas de fora, como Marina Sena, que está fazendo enorme sucesso online. Como foi definida a programação?
Anderson Foca – Essa foi uma das decisões mais difíceis da história do DoSol. Em outubro passado, definimos que teríamos que começar ali a pensar em algo presencial. Recortamos com a Funcarte um espaço completamente amplo, que é a coisa mais prudente a se fazer agora. Queríamos um line-up festivo, porque as pessoas ficaram sem essa experiência por muito tempo. Diminuir o número de pessoas por dia e fazer mais dias de shows foi uma solução. Só temos Marina Sena de fora do Nordeste, para que nós possamos recuperar esse impacto econômico.
Cultue – O coletivo Ferve, aliás, também se apresentará no DoSol e você faz parte do grupo. Como você define o som?
Anderson Foca – Ferve é um coletivo de produtores de Natal e João Pessoa. Temos uma pesquisa da música do Nordeste misturada com a latina, como o merengue e a cúmbia. Já temos mais de 10 músicas disponíveis nas plataformas digitais e já começamos a fazer shows no RN, PI, PB e CE. Nosso show no DoSol será com participação da Bixarte, artista paraibana. É um projeto novo que já nasce com a experiência dos participantes.
Cultue – Como o DoSol lança artistas potiguares, você considera que o trabalho auxilia na formação de uma identidade local?
Anderson Foca – O DoSol ajuda na construção dessa identidade, que é formada pelo nosso dia a dia. Estamos nos entendendo, somos uma cena há muito tempo porque a música potiguar não vive de outros estados. Temos artistas próprios para exportar, então estamos em um ótimo momento. Estávamos bombando antes da pandemia e acho que vamos bombar ainda mais agora.
Cultue – Ana Morena, também fundadora e produtora do DoSol, foi eleita pela WME Awards como profissional do ano de 2021. Como é ver uma parceira, artista mulher da cena do RN, sendo reconhecida nacionalmente?
Anderson Foca – Alegria demais. Ela também foi eleita presidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN) em maio e agora ganhou esse prêmio, que é importante demais para as mulheres. É uma espécie de ‘eu já sabia’. Orgulho em saber que nossa produção tem condição de ser tão boa quanto qualquer uma do mundo. Somos locais, mas somos do mundo: o que é bom aqui, é bom em Nova Iorque, em Barcelona, em São Paulo… Ana Morena está há 20 anos à frente do DoSol, merece isso e muito mais!
Cultue – Quais são os planos para o futuro breve e a longo prazo do DoSol?
Anderson Foca – Queremos manter o lançamento de artistas no selo. O DoSol 2022 está previsto para acontecer em novembro. O ‘Bloco da Greiosa’ acontecerá nos domingos de fevereiro.