O Rio Grande do Norte será um dos pontos centrais de um levantamento que busca transformar as vantagens ambientais do Nordeste em atividades econômicas, empregos e cadeias produtivas de baixo carbono. Chamado Futuros Verdes no Nordeste, o projeto percorrerá os nove estados da região para identificar setores capazes de crescer durante a transição energética e as competências profissionais exigidas pelos novos investimentos.
A iniciativa reúne o Instituto Clima e Sociedade e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife. Especialistas, empresas, instituições de ensino e representantes de setores produtivos serão ouvidos para que as características de cada território entrem no mapeamento — proposta que busca evitar diagnósticos genéricos sobre sustentabilidade, que ignoram diferenças econômicas, sociais e ambientais entre os estados.

“As oportunidades não se distribuem automaticamente e também não vai ter uma transformação de forma tão natural e tão automática. Então é por isso que o Futuros Verdes no Nordeste nasce. Para compreender essa complexidade”, afirma Diogo Araújo, biólogo, analista do Cesar e um dos coordenadores do projeto.
A liderança já existe
No Rio Grande do Norte, o estudo encontra uma economia que já convive com os efeitos da transição. O Estado lidera a capacidade eólica instalada no país, com mais de 10 gigawatts em operação, distribuídos por centenas de empreendimentos, sobretudo nas regiões Central, Mato Grande, Oeste e Costa Branca.
O Nordeste concentra 92% da energia eólica produzida no Brasil e abriga cinco das dez maiores usinas solares do país. Dados setoriais colocam Rio Grande do Norte e Bahia na liderança da geração eólica brasileira: juntos, os dois estados responderam por 65% da energia produzida pela fonte em período analisado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, enquanto o Nordeste isoladamente respondeu por aproximadamente 95% da geração nacional.
A liderança potiguar foi construída a partir de ventos constantes e de empreendimentos instalados principalmente em municípios de menor porte. João Câmara, Parazinho, Serra do Mel, Lagoa Nova, São Bento do Norte, Pedra Grande e Bodó estão entre os territórios que passaram a receber parques, linhas internas de transmissão, prestadores de serviços e trabalhadores ligados à atividade.
Onde a conta não fecha sozinha
A presença das torres aumentou a arrecadação e criou fontes de renda, como o arrendamento de terras. O efeito econômico, porém, varia entre os municípios — e é justamente esse contraste que o projeto quer medir.
Parte dos equipamentos usados nos parques continua sendo produzida fora do Estado. E a etapa de construção, que exige mais trabalhadores, é temporária: depois da entrada em operação, as usinas passam a funcionar com equipes menores. Ou seja, gerar energia não é o mesmo que gerar emprego duradouro.
O Estado também prepara projetos de geração no mar, energia solar, hidrogênio verde e a instalação de um complexo portuário-industrial em Caiçara do Norte. Ao mesmo tempo, enfrenta limitações na rede de transmissão, necessidade de qualificação profissional e riscos ambientais associados à desertificação e à ocupação do litoral.
O diagnóstico converge com o que empresários e pesquisadores potiguares vêm apontando: a energia limpa precisa virar indústria para alavancar mais empregos no RN, e o potencial em renováveis abre uma nova fronteira econômica para o Estado — desde que a cadeia produtiva se instale aqui.
O projeto foi noticiado originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre o mapeamento da economia de baixo carbono no Nordeste.