O ouro extraído em Currais Novos já responde por 24,6% de tudo o que o Rio Grande do Norte exporta. Entre janeiro e junho de 2026, o Estado embarcou US$ 157,5 milhões do metal — valor quase 29 vezes superior aos US$ 5,5 milhões exportados ao longo dos cinco anos entre 2020 e 2024.
O avanço levou o Estado à sexta posição entre os maiores exportadores brasileiros de ouro, com participação de 3,4% nas vendas atribuídas às unidades da Federação. O RN ainda está distante de Minas Gerais, responsável por 49,7% do total nacional, e da Bahia, com 15% — mas ingressou em um mercado no qual sua participação era residual até 2024.

Os números constam da Análise da Balança Comercial do RN — 2020 a 2026, elaborada pelo Sebrae-RN, que relaciona a mudança ao Projeto Borborema, da Aura Minerals.
A escala da virada
Em 2025, primeiro ano de funcionamento do empreendimento, as exportações potiguares de ouro alcançaram US$ 248,7 milhões. A média mensal, que era de US$ 120 mil entre 2020 e 2024, subiu para US$ 13,8 milhões a partir da entrada da mineradora. Somados 2025 e o primeiro semestre de 2026, os embarques chegaram a US$ 406,2 milhões.
A mudança também aparece no volume físico. Em cinco anos, entre 2020 e 2024, o Rio Grande do Norte exportou pouco mais de 99 quilos de ouro. Nos 18 meses seguintes, o volume superou 3 toneladas. Currais Novos respondeu por US$ 157,4 milhões no primeiro semestre deste ano — praticamente a totalidade das vendas estaduais.
Em produção física, a Mina Borborema entregou 31.352 onças equivalentes de ouro no primeiro semestre de 2026, e a estimativa da companhia para o ano fica entre 65 mil e 77 mil onças.
O acordo que muda o horizonte
O dado mais relevante para o futuro da pauta exportadora potiguar não está no balanço, mas em um acordo assinado neste mês. A Aura Minerals firmou entendimento com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes para desviar o traçado da BR-226, que corta a área da jazida.
A realocação da rodovia libera acesso a reservas adicionais e amplia em 670 mil onças a base de reservas minerais — aumento de 82% sobre o potencial estimado anteriormente. Com isso, a vida útil do empreendimento passa de 11,3 anos para 20 anos e 5 meses, e a produção total projetada alcança cerca de 1,5 milhão de onças, o equivalente a aproximadamente 20,8 toneladas de ouro.
Na prática, o salto exportador registrado no primeiro semestre deixa de ser um pico e passa a ser o início de um ciclo de duas décadas.
Para onde vai o metal
Desde 2025, o Canadá recebeu US$ 204,1 milhões do ouro exportado pelo Rio Grande do Norte. A Suíça aparece em seguida, com US$ 44,6 milhões. Os dois países funcionam como centros internacionais de refino, comercialização, armazenamento e negociação do metal.
Uma ressalva importante: embora a mina fique no interior potiguar, o valor contabilizado nas exportações não significa que todo o processamento e a comercialização final ocorram no Estado. O ouro produzido em Currais Novos é encaminhado a mercados especializados, onde pode passar por etapas adicionais de refino antes de ser negociado.
A concentração das vendas em poucos destinos também expõe a pauta a mudanças na demanda internacional, nas condições logísticas e nas regras aplicadas ao comércio de metais preciosos. E o resultado em dólares depende da cotação do ouro, que pode ampliar ou reduzir o valor das exportações mesmo sem alteração equivalente no volume produzido.
A operação
A Mina Borborema fica na Fazenda São Francisco, a cerca de 28 quilômetros da área urbana de Currais Novos. A operação pertence à Cascar Brasil Mineração, subsidiária da Aura Minerals, e utiliza lavra a céu aberto com processamento do minério pelo sistema de carbono em lixiviação. O projeto foi construído em 19 meses, com orçamento de US$ 188 milhões, e reúne três concessões de lavra em área de 29 quilômetros quadrados.
A jazida é a maior ocorrência conhecida de ouro no Cinturão Seridó, segundo informações geológicas divulgadas pela companhia. A mineralização está associada a uma zona de cisalhamento, estrutura formada pela movimentação de blocos rochosos que facilitou a circulação dos fluidos responsáveis pela concentração do metal.
O levantamento foi noticiado originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre a mudança na pauta exportadora do Estado.