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Editorial

Ideb: é hora de entender os números

Confira o editorial do Agora RN deste sábado 8
Redação
11/08/2026 | 07:51

Passada a repercussão inicial em torno dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, chega o momento mais importante: transformar os números em conhecimento e o conhecimento em políticas públicas.

Mais do que celebrar avanços ou lamentar posições nos rankings, gestores, professores e especialistas precisam examinar as causas dos resultados, identificar as experiências bem-sucedidas e corrigir os pontos em que a aprendizagem continua abaixo do esperado.

Imagem mostra alunos andando no corredor de uma escola
RN alcançou em 2025 os melhores resultados do Ideb de sua série histórica nas três etapas da educação básica Foto: José Aldenir

O Ideb não deve ser tratado apenas como uma nota, mas como um instrumento para orientar decisões.
O Rio Grande do Norte alcançou os melhores índices de sua série histórica nas três etapas da educação básica.

Considerando conjuntamente as redes pública e privada, a nota estadual passou de 5,3 para 5,7 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 4,1 para 4,6 nos anos finais e de 3,7 para 4,2 no ensino médio.

Os avanços são relevantes e demonstram que houve uma evolução concreta. Ainda assim, o Estado permanece abaixo das médias brasileiras, que chegaram a 6,3, 5,3 e 4,5, respectivamente.


A diferença para o desempenho nacional é maior justamente no ensino fundamental. O RN está 0,6 ponto abaixo do Brasil nos anos iniciais e 0,7 ponto atrás nos anos finais. No ensino médio, a distância diminui para 0,3.

Os dados indicam que o Estado avançou, mas também mostram onde deverá concentrar esforços para reduzir as defasagens acumuladas. Um diagnóstico responsável precisa partir dessas duas constatações simultâneas: há progresso a reconhecer e problemas que continuam exigindo atenção.


O resultado do ensino médio estadual é um bom exemplo da necessidade de aprofundar a leitura. O Ideb da rede avançou de 3,2, em 2023, para 4,0 em 2025.

A alta proporcional de 25% foi a maior do País, permitiu ao Rio Grande do Norte subir seis posições no ranking nacional e retirar o Estado da última colocação, ocupada nos dois levantamentos anteriores.

É um movimento expressivo, sobretudo depois dos efeitos provocados pela pandemia sobre o aprendizado e a permanência dos estudantes na escola.


Uma análise dos componentes do índice, entretanto, revela que a melhora foi impulsionada principalmente pelo fluxo escolar. A taxa de aprovação no ensino médio estadual saltou de aproximadamente 77% para 93%.

As notas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), por sua vez, cresceram em proporção bem menor. Em matemática, a média passou de 253,69 para 254,60 pontos. Em língua portuguesa, avançou de 257,71 para 260,73.


Isso não invalida o crescimento do Ideb. Reduzir a repetência pode evitar a distorção entre idade e série, diminuir o abandono e manter mais jovens nas escolas.

O alerta é outro: o aumento da aprovação precisa ser acompanhado da recuperação dos conteúdos. O próximo passo deverá ser fazer com que o avanço no fluxo escolar se traduza em crescimento mais intenso nas habilidades de leitura, interpretação, escrita e matemática. Aprovar mais é importante; assegurar aprendizagem efetiva é indispensável.


Na outra ponta, Mossoró oferece um caso que merece ser estudado com atenção. Nos anos iniciais da rede municipal, o Ideb avançou de 5,6 para 6,1, o melhor resultado de sua série histórica.

O município passou a liderar entre as 15 cidades mais populosas do Rio Grande do Norte, superou a média das escolas estaduais que oferecem essa etapa, de 5,5, e igualou a média nacional da rede pública.

Entre os 167 municípios potiguares, ficou na 26ª posição, atrás apenas de cidades de pequeno porte, que enfrentam realidades administrativas e educacionais distintas.


A evolução de Mossoró não ocorreu somente no índice geral. Em matemática, a pontuação média no Saeb subiu de 215,44 para 225,79, um crescimento de 10,35 pontos.

Em língua portuguesa, passou de 210,31 para 216,49, uma alta de 6,18 pontos. Nos anos finais do ensino fundamental, o Ideb municipal avançou de 4,3 para 5,0. Os resultados sugerem que houve melhoria tanto no fluxo quanto no desempenho dos estudantes, aspecto que torna a experiência ainda mais relevante para avaliação.


A rede mossoroense atende mais de 22 mil alunos em 99 escolas e unidades de educação infantil. Nos últimos anos, o município concentrou investimentos no programa “Mossoró Cidade Educação”, com reformas, climatização, formação profissional, transporte escolar, alimentação, tecnologia e inclusão.

A Prefeitura contabiliza mais de 2,2 mil aparelhos de ar-condicionado instalados, 6 mil equipamentos de informática, 10 mil carteiras e 14 mil equipamentos destinados às unidades de ensino, além de R$ 1 milhão do programa “Investe Escola” para manutenção.


Não se pode concluir automaticamente que cada uma dessas medidas produziu, isoladamente, a elevação do Ideb. É justamente por isso que a experiência precisa ser examinada por especialistas.

Cabe verificar quais políticas tiveram maior influência, como ocorreu o acompanhamento pedagógico, que papel desempenharam os professores, de que forma foram enfrentadas as defasagens e quanto pesaram a infraestrutura, a gestão e a participação das famílias. Identificar os fatores decisivos permitirá adaptar as práticas bem-sucedidas a outras redes, respeitando as particularidades locais.


Natal representa o desafio oposto. A rede municipal alcançou 4,8 nos anos iniciais, acima dos 4,5 registrados em 2023, mas ainda ficou com o pior resultado entre as capitais brasileiras e abaixo da média nacional de 6,1 para as redes municipais.

Nos anos finais, houve avanço de 3,3 para 3,7. A evolução deve ser reconhecida, mas a distância existente exige um diagnóstico detalhado das causas e uma estratégia de médio e longo prazo.


O maior aprendizado oferecido pelo Ideb é que nenhum resultado deve ser analisado superficialmente. O índice combina aprendizagem e aprovação, realidades que precisam caminhar juntas.

A tarefa agora é entender por que Mossoró avançou mais, por que Natal permanece distante das demais capitais e como o Estado poderá converter a redução da repetência em aprendizado.

Os números já cumpriram sua primeira função ao revelar onde estamos. Cabe ao poder público utilizá-los para decidir aonde queremos chegar e quais caminhos poderão nos levar até lá.

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