A toxina botulínica, popularmente conhecida pelo nome comercial Botox, tem aplicações que vão além dos procedimentos estéticos e pode ser utilizada no tratamento de diversas doenças neurológicas, dores crônicas e distúrbios musculares. A informação foi destacada pela neurologista Cíntia Melo durante entrevista à Jovem Pan News Natal (93,5 FM). Segundo a médica, apesar de o produto ser amplamente associado à redução de rugas, seu desenvolvimento teve origem em aplicações médicas voltadas para a neurologia e a oftalmologia.
“É interessante que todo mundo liga muito o tema à questão estética. Mas, de fato, o produto foi feito para a Neurologia. Ele foi criado para tratar a dor e contraturas musculares. Então, a partir dos pacientes que eram tratados para dor, começou a perceber que iam desaparecendo as ruguinhas do rosto das pessoas”, explicou.

Ela acrescentou que o principal uso inicial da toxina estava relacionado à neurologia e à oftalmologia. “É um produto da oftalmologia que você pode usar em algumas cirurgias corretivas de desvio ocular”, afirmou. Cíntia Melo destacou que a falta de informação ainda faz com que muitas pessoas desconheçam as aplicações terapêuticas da toxina. “Eu vejo no dia a dia pacientes que, às vezes, têm uma certa relutância em usar a toxina para tratar a dor, mas quando se fala em estética, eles não têm a mesma relutância”.
Entre os usos citados pela neurologista está o tratamento da hiperidrose, condição caracterizada pela sudorese excessiva. Segundo ela, a toxina pode ser aplicada em axilas, mãos e pés para reduzir a produção de suor. “O Botox também pode atuar paralisando algumas glândulas e você poderia ir tanto para a axila, que aí você diminuiria a sudorese do paciente, e para mãos e pés”, explicou.
A médica relatou o caso de uma paciente que apresentava suor excessivo nas extremidades. “A minha paciente ficava com a mão totalmente enrugada, de tão suada, e só podia andar de tênis com meia. Não usava outro sapato. Então, o procedimento que ele faz em consultório é simples, leva em torno de uma hora, nesse caso dela, e realmente teve uma resposta bem satisfatória.” Segundo ela, a melhora impacta diretamente a qualidade de vida dos pacientes.
Outra aplicação mencionada durante a entrevista é o tratamento da sialorreia, condição marcada pelo excesso de saliva, comum em alguns pacientes com doenças neurológicas. A neurologista relatou ter realizado recentemente o procedimento em um paciente com Parkinson.
De acordo com a médica, os resultados costumam aparecer rapidamente. “Você já começa a ver uma resposta com sete dias e o paciente realmente tem uma diminuição considerável da salivação e dos riscos da broncoaspiração que ele terminaria tendo pelo excesso de saliva, pela dificuldade de deglutição.”
Na Neurologia, um dos principais usos da toxina é no tratamento da enxaqueca crônica. Conforme explicou Cíntia Melo, o procedimento é indicado para pacientes que apresentam mais de 15 dias de dor de cabeça por mês.
“Enxaqueca, ou migrânea crônica, paciente que tem mais de 15 dias de dor por mês, é feito um protocolo chamado protocolo PREEMPT, que utiliza 31 pontos de dor e o paciente tem uma melhora considerável”.
A médica destacou ainda a utilização em casos de contraturas musculares, distonias, torcicolos e sequelas de acidente vascular cerebral (AVC).
“A gente pode utilizar para contraturas. O paciente tem muita contratura em região dorsal, em cervical, o que a gente chama de distonias, alguns torcicolos, sequelas de AVCs. O paciente tem AVC e está com o braço contraído, a gente consegue liberar aquele braço dele para que a fisioterapia possa atuar melhor.”
Segundo ela, o tratamento auxilia tanto no relaxamento muscular quanto no controle da dor.
“Você consegue trazer o uso da toxina para facilitar a liberação daquele músculo e diminuir também a dor.”
O tratamento também pode ser utilizado em pacientes com bruxismo e disfunções da articulação temporomandibular (ATM).
Questionada sobre o mecanismo de ação do medicamento, a neurologista explicou que a toxina interfere na transmissão dos impulsos nervosos responsáveis pela contração muscular e pela percepção da dor.
Ela acrescentou que, em algumas aplicações voltadas para o controle da dor, a substância atua reduzindo a ativação de neurotransmissores relacionados à percepção dolorosa.
Durante a entrevista, Cíntia Melo destacou que algumas indicações médicas contam com fornecimento do medicamento pelo SUS e planos de saúde. Segundo ela, sequelas neurológicas como espasticidade pós-AVC, sialorreia e distonias estão entre as condições contempladas.