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Saúde

Doenças cardíacas seguem como principal causa de morte entre mulheres

Especialistas alertam para sintomas frequentemente ignorados e desafios no diagnóstico
Por O Correio de Hoje
05/06/2026 | 12:32

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte entre mulheres, superando todos os tipos de câncer somados. Apesar disso, muitas ainda acreditam que o câncer, especialmente o câncer de mama, representa a maior ameaça à própria saúde. A percepção equivocada é apontada por especialistas como consequência de décadas de pouca atenção dedicada à saúde cardiovascular feminina.

Durante muitos anos, estudos científicos concentraram-se predominantemente em homens, deixando lacunas importantes sobre como doenças cardíacas se manifestam nas mulheres. Como consequência, parte dos problemas cardiovasculares femininos ainda enfrenta dificuldades de diagnóstico, prevenção e tratamento. Além disso, muitas pacientes desconhecem que os sintomas de um infarto podem se apresentar de maneira diferente da observada nos homens, o que pode atrasar a procura por atendimento médico.

menopausa
Doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte entre mulheres - Foto: Freepik

Especialistas ressaltam que medidas clássicas de prevenção continuam sendo fundamentais para ambos os sexos, incluindo alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle da pressão arterial, do colesterol e dos níveis de glicose. Entretanto, destacam que as mulheres também precisam observar fatores exclusivos ou mais frequentes no sexo feminino.

Fatores tradicionais como hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e histórico familiar continuam sendo importantes indicadores de risco. No entanto, especialistas afirmam que a avaliação da saúde cardiovascular feminina exige atenção a outras condições.

Complicações durante a gravidez estão entre elas. Mulheres que desenvolveram pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional apresentam maior probabilidade de sofrer problemas cardíacos futuramente. Segundo Anais Hausvater, codiretora do Programa de Cardio-Obstetrícia da NYU Langone Health, nos Estados Unidos, essas informações nem sempre chegam aos médicos.

“Não necessariamente pensam em dizer ao médico que tiveram uma gravidez, há 20 anos, afetada por pré-eclâmpsia, e muitos médicos não perguntam”, afirma.

Outras condições associadas ao aumento do risco cardiovascular incluem a síndrome dos ovários policísticos (SOP), o lúpus e a artrite reumatoide. Essas doenças são mais frequentes entre mulheres e podem contribuir para alterações cardiovasculares ao longo da vida.

A menopausa precoce, especialmente antes dos 45 anos, também é considerada um fator relevante para o desenvolvimento de doenças do coração. Especialistas apontam a menopausa como um dos momentos mais importantes para a saúde cardiovascular feminina. Isso ocorre porque o estrogênio exerce efeito protetor sobre o sistema cardiovascular.

Com a redução hormonal, tornam-se mais frequentes alterações na pressão arterial, elevação do colesterol e perda da elasticidade dos vasos sanguíneos. Muitas mulheres se surpreendem ao perceber mudanças repentinas em exames que anteriormente apresentavam resultados normais.

“Elas dizem: ‘Meu colesterol não era tão ruim aos 30 anos. Por que de repente está tão ruim?’”, relata Tala Al Talib, diretora médica da clínica cardiovascular Green Spring Station, da Johns Hopkins.

Segundo especialistas, o acompanhamento médico durante essa fase é fundamental para definir estratégias que podem incluir mudanças nos hábitos de vida, uso de medicamentos ou associação das duas abordagens.

Um dos principais desafios no atendimento cardiovascular feminino está relacionado ao reconhecimento dos sintomas de infarto. Embora a dor no peito continue sendo o sinal mais comum, muitas mulheres descrevem a sensação de forma diferente da observada nos homens.

“Como uma pressão ou um peso”, afirma Natalie Bello, professora associada de Cardiologia no Cedars-Sinai e diretora de saúde cardiovascular feminina e cardiologia no Atria Health and Research Institute.

Além da dor torácica, mulheres costumam apresentar simultaneamente outros sintomas, como falta de ar, náuseas, tontura, dores na mandíbula, desconforto na parte superior das costas, suor frio e fadiga incomum.

Outro problema apontado pelos especialistas é a tendência de muitas pacientes minimizarem os sinais de alerta. Segundo Erica Spatz, diretora do Programa de Saúde Cardiovascular Preventiva da Faculdade de Medicina de Yale, mulheres frequentemente priorizam responsabilidades familiares e acabam adiando a busca por atendimento.

Muitas delas “colocam sua própria saúde em segundo plano ou encontram outras explicações para os sintomas”, observa.

Os especialistas destacam que os mecanismos responsáveis pelos infartos podem ser diferentes entre homens e mulheres.

Nos homens, os episódios costumam estar associados à obstrução de grandes artérias coronárias por placas de gordura e formação de coágulos. Já entre as mulheres, embora esse quadro também seja frequente, existem outras causas que aparecem com maior incidência.

Segundo Nupoor Narula, diretora do Programa de Saúde Cardíaca da Mulher da Weill Cornell Medicine, as mulheres apresentam maior probabilidade de desenvolver doença microvascular coronariana, que compromete vasos sanguíneos menores.

Elas também são mais suscetíveis a espasmos das artérias coronárias, situação em que ocorre contração temporária dos vasos, reduzindo o fluxo sanguíneo para o coração. Outra condição observada com maior frequência no público feminino é a dissecção espontânea da artéria coronária, caracterizada por uma ruptura na parede da artéria. O problema é particularmente comum após o parto e pode desencadear infartos.

Também merece atenção a cardiomiopatia de takotsubo, conhecida popularmente como síndrome do coração partido. A condição provoca insuficiência cardíaca temporária associada a situações de intenso estresse emocional e afeta principalmente mulheres após a menopausa.

O diagnóstico de doenças cardiovasculares em mulheres também pode ser mais complexo. Especialistas afirmam que exames considerados padrão nem sempre conseguem detectar algumas condições que afetam com maior frequência o sexo feminino. Uma angiografia convencional, por exemplo, pode não revelar espasmos arteriais ou alterações em pequenos vasos sanguíneos.

Por isso, mulheres que procuram atendimento de emergência com sintomas semelhantes aos de um infarto, mas recebem resultados normais em exames iniciais, devem manter acompanhamento médico para investigação complementar e definição do diagnóstico adequado.