A sustentabilidade deixou de ocupar um papel secundário na estratégia das indústrias do Rio Grande do Norte e passou a integrar decisões relacionadas à competitividade, inovação e expansão de mercados. Os avanços dessa transformação aparecem em levantamento realizado pelo Observatório da Indústria Mais RN, que aponta uma crescente incorporação de práticas de economia circular e de iniciativas voltadas à redução dos impactos ambientais no setor produtivo potiguar.
Divulgada por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a Sondagem Especial “Economia Circular e a Indústria Potiguar” mostra que 67% das empresas do Estado que adotaram práticas de economia circular associam essas iniciativas à redução das emissões de gases de efeito estufa. O percentual supera a média nacional registrada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que alcançou 58% em levantamento realizado em 2025.

A pesquisa teve como objetivo identificar práticas adotadas, desafios enfrentados e oportunidades percebidas por empresas dos setores extrativo, de transformação e da construção civil em relação à economia circular, modelo que busca reduzir desperdícios e ampliar o reaproveitamento de recursos ao longo das cadeias produtivas.

Os resultados indicam uma mudança gradual na percepção empresarial sobre a agenda ambiental. Além da contribuição para a redução de emissões, as empresas passaram a relacionar sustentabilidade com ganhos de produtividade, inovação e fortalecimento da posição competitiva no mercado.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, a pauta ambiental tornou-se parte integrante da estratégia industrial.
“A indústria potiguar está cada vez mais conectada às demandas globais de sustentabilidade e aos princípios ESG, compreendendo que a competitividade do futuro passa pela inovação, pela eficiência no uso dos recursos e pelo compromisso com o meio ambiente”, afirma.
Segundo ele, o papel da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte tem sido apoiar essa transição por meio de ações voltadas à disseminação de conhecimento, capacitação profissional e fortalecimento da competitividade empresarial.
O amadurecimento do setor também é observado pelo presidente da Comissão Temática de Meio Ambiente da Fiern, Marcelo Rosado. Na avaliação dele, as transformações ocorridas no mercado vêm exigindo das empresas uma postura mais ativa em relação aos temas ambientais e sociais.
“Existe uma sensibilidade, um amadurecimento e uma evolução nesse sentido. Hoje não basta apenas oferecer um preço competitivo. As empresas precisam demonstrar que possuem políticas ambientais e socioeconômicas e que contribuem para o desenvolvimento das regiões onde atuam”, afirma.
Rosado destaca que as práticas ESG deixaram de ser um diferencial para se tornarem requisito cada vez mais presente na avaliação de investidores, consumidores e parceiros comerciais.
“O mercado está atento a esse trabalho. Para sobreviver e construir um futuro melhor, as empresas precisam estar conectadas a essas pautas. E vão se destacar aquelas que estiverem mais atualizadas e comprometidas com soluções sustentáveis”, ressalta.
Os dados da sondagem reforçam a associação entre sustentabilidade e inovação. Entre os benefícios identificados pelas indústrias participantes, 42% apontaram o estímulo ao desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços. Outros 28% destacaram a melhoria da imagem institucional das empresas, enquanto 25% relacionaram as práticas sustentáveis à conquista de novos mercados e clientes.
A pesquisa também revelou desafios que ainda limitam a velocidade dessa transformação. A principal barreira apontada pelas empresas é a falta de qualificação técnica dos colaboradores, mencionada por 33% dos entrevistados. Também aparecem entre os obstáculos a necessidade de ampliar a conscientização dos consumidores e questões econômicas e tributárias que dificultam a adoção de modelos produtivos mais circulares.
Nesse contexto, o Sistema Fiern busca ampliar sua atuação por meio de iniciativas voltadas à inovação tecnológica, pesquisa aplicada e formação profissional. O objetivo é preparar as empresas para uma economia cada vez mais orientada pela redução de emissões de carbono e pela eficiência no uso de recursos naturais.
Uma das principais frentes dessa atuação é conduzida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Norte (Senai-RN), que vem consolidando projetos ligados à transição energética e à formação de profissionais especializados para atuar em setores relacionados à economia verde.
O destaque é o Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), sediado no Estado e considerado uma referência nacional em pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico voltado para energia eólica, solar, hidrogênio verde e combustíveis avançados.
O instituto ganhou projeção nacional em 2025 ao receber do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a primeira licença concedida no país para um projeto experimental de energia eólica offshore.
O empreendimento será instalado na costa de Areia Branca, município localizado na região Oeste potiguar, e funcionará como um sítio de testes para estudos e validação de tecnologias destinadas ao desenvolvimento da cadeia produtiva da energia eólica em alto-mar.
O projeto foi concebido para operar em condições reais de funcionamento e deverá fornecer informações técnicas que poderão orientar futuros investimentos do setor, além de estimular a formação de fornecedores nacionais e ampliar o conteúdo tecnológico brasileiro em uma indústria considerada estratégica para a transição energética.
Paralelamente, o Senai-RN vem ampliando sua oferta de formação profissional para atender à crescente demanda por mão de obra especializada. A criação da Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais (Faeti) integra essa estratégia e busca preparar profissionais para áreas ligadas às novas tecnologias energéticas e à indústria de baixo carbono.
Outra frente considerada prioritária é o desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao hidrogênio verde, apontado por especialistas e organismos internacionais como um dos principais vetores para a descarbonização da economia mundial.
O tema integra as áreas estratégicas de atuação do ISI-ER, que conduz estudos voltados à produção, armazenamento e utilização de combustíveis limpos, buscando posicionar o Rio Grande do Norte entre os polos brasileiros de inovação em energias renováveis.
Os resultados da sondagem indicam que a agenda ambiental já não é tratada apenas como uma exigência regulatória ou uma resposta a pressões externas. No setor industrial potiguar, a sustentabilidade passa a ser incorporada como elemento de competitividade, inovação e geração de oportunidades em um cenário econômico cada vez mais orientado pela transição para uma economia de baixo carbono.