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Política

Marcha para Jesus vira palanque eleitoral

Evento reuniu lideranças religiosas e autoridades; Flávio Bolsonaro fez discurso político e Lula justificou ausência por telefone
Por O Correio de Hoje
05/06/2026 | 13:47

A edição deste ano da Marcha para Jesus, maior evento evangélico do País, acabou marcada por manifestações políticas, apesar do compromisso assumido pelos organizadores de evitar discursos eleitorais. Em São Paulo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Palácio do Planalto, utilizou o evento para atacar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto Lula justificou sua ausência por telefone, afirmando que evita participar de celebrações religiosas em períodos eleitorais.

Durante discurso em um trio elétrico, Flávio associou a disputa política a uma batalha espiritual e declarou que o País precisa se livrar das forças que, segundo ele, representam o mal.

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Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro com Estevam Hernandes - Foto: Reprodução

“Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano. Em nome do senhor Jesus, amém”, afirmou.

A fala ocorreu na presença do advogado-geral da União, Jorge Messias, que representava Lula no evento. O presidente não compareceu à Marcha, mas telefonou para Messias e para o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e organizador da celebração.

Na conversa, reproduzida em viva-voz e divulgada nas redes sociais, Lula afirmou que evita participar de atos religiosos em períodos eleitorais.

“Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada”, declarou.

O presidente também disse estar satisfeito com a realização da Marcha e lembrou ter sancionado, em 2009, a lei que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus.

O distanciamento de Lula do evento ocorre em um contexto de baixa identificação do eleitorado evangélico com o petismo. Em edições anteriores, Jorge Messias chegou a ser vaiado ao representar o governo federal.

Na véspera da Marcha, Estevam Hernandes havia afirmado que não haveria espaço para discursos políticos. Apesar disso, admitiu que tende a apoiar Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.

“Não tenho ainda uma definição de apoio, mas é uma tendência natural, até em função do quadro polarizado que temos hoje”, disse.

A caminhada começou pela manhã na região da Estação da Luz, no Centro de São Paulo, e percorreu cerca de 3,5 quilômetros até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Zona Norte. O percurso contou com oito trios elétricos e foi encerrado com apresentações de artistas da música gospel.

A estimativa de público gerou divergências. Levantamento do Monitor do Debate Político da USP em parceria com a organização More in Common apontou a presença de 33,8 mil pessoas no horário de pico, com margem de erro de 12%. Os organizadores, por sua vez, divulgaram um público estimado de 2 milhões de participantes.

Já na área de shows, Flávio voltou a discursar diante de apoiadores que entoavam gritos de “Bolsonaro”. Carregando uma bandeira de Israel, o senador pediu orações para o ex-presidente Jair Bolsonaro e voltou a associar o futuro do país ao fortalecimento da relação com Israel.

“Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.”

A participação do senador surpreendeu porque, segundo os organizadores, não havia previsão de discurso de Flávio. As únicas autoridades anunciadas para fala eram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito da capital, Ricardo Nunes, em razão do apoio institucional à realização do evento.

Após os discursos, Jorge Messias criticou o tom adotado pelo senador.

“Hoje é o dia de louvar e adorar a Deus, não é dia de comício. Eu vim aqui com esse espírito. As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui. Não sou eu que vou julgar. Jesus nos ensina a não julgar”, afirmou.

Questionado sobre a possibilidade de Lula reapresentar seu nome para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, após rejeição anterior pelo Senado, o ministro disse apenas que o tema está “nas mãos de Deus”. O ministro do STF André Mendonça, apoiador de sua indicação, também participou da Marcha.

No trio principal, Messias manteve-se distante de Flávio e de Tarcísio. Já o governador paulista participou de momentos musicais com o público, enquanto Ricardo Nunes destacou pautas como defesa da família, combate às drogas e proteção à vida. Ao final, autoridades e líderes religiosos se ajoelharam para uma oração conjunta.

O evento também marcou o primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas após a operação da Polícia Civil paulista que investiga supostas irregularidades envolvendo uma ONG ligada à produtora do filme Dark Horse. A investigação apura possível desvio de recursos municipais destinados à instalação de pontos de wi-fi. A Prefeitura de São Paulo nega qualquer irregularidade.