BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Remédio quase dobra sobrevida em câncer de pâncreas avançado

Estudo apresentado na Asco 2026 mostra que medicamento-alvo quase dobrou a sobrevida de pacientes com doença avançada e reacende expectativas na oncologia
Por O Correio de Hoje
08/06/2026 | 13:06

Durante décadas, o câncer de pâncreas foi considerado um dos maiores desafios da oncologia. Conhecido pela elevada agressividade, pela tendência a ser diagnosticado em estágios avançados e pela capacidade de desenvolver metástases precocemente, o tumor acumulou índices de mortalidade elevados e poucos avanços terapêuticos relevantes ao longo dos anos.

Esse cenário, porém, começou a mudar com a divulgação dos resultados de um estudo internacional apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica de 2026, realizada na Chicago. Os dados do ensaio clínico de fase 3 RASolute 302 colocaram sob os holofotes o daraxonrasib, uma terapia-alvo oral que atua diretamente na proteína RAS, considerada o principal motor biológico da maioria dos casos de câncer pancreático.

woman s hand pours medicine pills out bottle
Foto: Magnific

Os resultados chamaram a atenção da comunidade científica ao demonstrar uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte entre pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratado. Além disso, o medicamento praticamente dobrou a sobrevida global quando comparado à quimioterapia convencional.

A repercussão foi imediata. Ao término da apresentação dos dados, milhares de especialistas presentes no congresso reagiram com aplausos de pé, em uma demonstração incomum mesmo para os padrões dos principais eventos científicos da área médica. Para oncologistas, o estudo representa a concretização de uma busca que atravessou décadas. A proteína RAS, alterada em mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos, sempre foi vista como um alvo estratégico para o desenvolvimento de medicamentos. No entanto, sua estrutura molecular dificultava a criação de tratamentos capazes de bloqueá-la de forma eficaz.

O daraxonrasib surge justamente como a primeira terapia a demonstrar, em um estudo de fase 3, benefícios clínicos expressivos ao atuar diretamente nessa via molecular. Os resultados mostraram que pacientes tratados com o medicamento alcançaram mediana de sobrevida global de 13,2 meses, contra 6,6 meses observados no grupo que recebeu quimioterapia padrão. Já a sobrevida livre de progressão da doença foi de 7,3 meses, mais que o dobro dos 3,5 meses registrados no tratamento convencional.

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Clarissa Baldotto, não há registro anterior de resultados tão consistentes e impactantes no tratamento do câncer de pâncreas metastático.

Na avaliação da especialista, os dados já representam uma mudança concreta no prognóstico de pacientes com doença avançada. Como o estudo está na fase 3 — etapa considerada suficiente para embasar pedidos de aprovação regulatória —, os resultados podem acelerar o processo de análise por órgãos reguladores e futuramente levar à incorporação do medicamento na prática clínica.

O daraxonrasib pertence à categoria das terapias-alvo, desenvolvidas para agir sobre alterações moleculares específicas presentes nas células tumorais. Diferentemente da quimioterapia tradicional, que afeta tanto células cancerígenas quanto tecidos saudáveis, a nova droga foi projetada para bloquear a atividade anormal da proteína RAS.

Em condições normais, a proteína funciona como um interruptor molecular responsável por controlar o crescimento, a divisão e a sobrevivência celular. Ela é ativada quando o organismo necessita produzir novas células e desligada em seguida. No câncer, porém, mutações genéticas fazem com que essa proteína permaneça ligada continuamente, estimulando uma multiplicação celular descontrolada.

De acordo com Maria Inez Braghiroli, coordenadora do Comitê de Tumores Gastrointestinais Altos da SBOC, as alterações na via RAS mantêm ativos os sinais que promovem a proliferação celular. O daraxonrasib atua justamente interrompendo esse processo e bloqueando um dos principais mecanismos responsáveis pela progressão da doença.

A relevância da proteína KRAS para o câncer de pâncreas ajuda a explicar a importância do avanço. O tumor é considerado um dos principais exemplos de câncer impulsionado por mutações nesse gene e em outros integrantes da família RAS. Mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos apresentam alterações nessa via molecular.

Apesar disso, desenvolver medicamentos capazes de bloquear essa proteína sempre foi considerado um dos maiores desafios da oncologia moderna. Durante anos, a RAS chegou a ser classificada pelos pesquisadores como um alvo “indrogável”, expressão utilizada para descrever estruturas moleculares praticamente inacessíveis à ação de medicamentos.

Além das alterações genéticas agressivas, o câncer de pâncreas apresenta outras características que dificultam seu tratamento. O tumor costuma desenvolver uma intensa camada de tecido fibroso ao seu redor, criando uma barreira física que reduz a penetração de medicamentos. Soma-se a isso a elevada capacidade de produzir metástases precoces e as frequentes recidivas da doença.

O daraxonrasib também se diferencia de outros medicamentos que atuam sobre a proteína KRAS. Atualmente, os inibidores aprovados, como Sotorasib e Adagrasib, são eficazes apenas contra uma mutação específica chamada KRAS G12C, relativamente rara nos tumores pancreáticos. Já a nova terapia apresenta potencial de atuação mais amplo dentro da família de alterações da via RAS.

Embora os dados completos sobre qualidade de vida ainda não tenham sido divulgados, os pesquisadores observaram redução do volume tumoral e boa tolerabilidade ao tratamento. Existe expectativa de que análises futuras demonstrem também melhora dos sintomas e do bem-estar dos pacientes. O benefício mais robusto foi observado em pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático que já haviam recebido tratamentos anteriores. Serão necessários estudos complementares.