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Editorial

Trump empurra a democracia americana para um teste histórico

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 7
Editorial
07/04/2026 | 06:10

Às vésperas de completar 250 anos de independência, os Estados Unidos chegam a um marco simbólico carregando um contraste. A nação que ajudou a consolidar o modelo de república democrática moderna hoje convive com sinais cada vez mais claros de desgaste institucional. O país que exportou referências de equilíbrio entre Poderes e respeito a liberdades civis passa a ser observado, agora, como um caso de alerta.

Esse processo não surgiu de forma repentina, mas ganhou velocidade e intensidade no retorno de Donald Trump à Casa Branca. O primeiro ano de seu novo mandato tem sido suficiente para acender alertas em organismos internacionais que monitoram a qualidade democrática ao redor do mundo. Levantamento da Freedom House aponta os Estados Unidos entre os países com maior queda recente em indicadores de liberdade, ao lado de nações que historicamente não figuram como referência institucional. Já o V-Dem Institute identifica um movimento acelerado de concentração de poder no Executivo, com sinais de ruptura em mecanismos clássicos de freios e contrapesos.

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Trump empurra a democracia americana para um teste histórico - Foto: Reprodução/Globo

Não se trata apenas de um recuo estatístico. O que está em curso é uma reconfiguração mais profunda da dinâmica política. A Freedom House descreve um Legislativo enfraquecido, incapaz de exercer plenamente sua função de contrapeso, diante de um Congresso dominado por aliados do presidente que evitam confrontos por receio de desgaste político. Ao mesmo tempo, o Executivo amplia seu raio de ação, avançando sobre áreas que tradicionalmente exigiriam maior mediação institucional.

O diagnóstico se agrava quando se observa o ambiente mais amplo. Pressões sobre a liberdade de expressão, embates recorrentes com a imprensa e iniciativas que fragilizam estruturas de controle e combate à corrupção compõem um quadro que vai além de disputas políticas convencionais. Há um padrão. E ele aponta para o enfraquecimento deliberado de pilares que sustentam o funcionamento democrático.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. Desde 2005, os Estados Unidos acumulam perda de 12 pontos em índices internacionais de liberdade, desempenho pior do que o registrado pela maioria dos países considerados livres no mesmo período. No ranking do V-Dem, a queda é ainda mais expressiva: o país despencou da 20ª para a 51ª posição entre 179 nações.

Parte dessa inflexão se conecta diretamente ao estilo de liderança de Trump. O presidente não apenas tensiona instituições — ele frequentemente questiona sua legitimidade. Ataques à imprensa, críticas a universidades e confrontos com opositores deixaram de ser episódios isolados e passaram a compor uma estratégia política. Em alguns momentos, o próprio discurso presidencial sugere uma visão de poder pouco compatível com os limites institucionais tradicionais. Ao afirmar que seu principal freio seria sua “própria moral” e ao minimizar o papel do Congresso como instância de controle, Trump explicita uma concepção de autoridade que desafia o desenho clássico da democracia americana.

O V-Dem vai além ao situar o atual nível democrático dos Estados Unidos próximo ao de 1965, período marcado por profundas desigualdades no acesso a direitos civis e políticos. Foi naquele contexto que o governo de Lyndon B. Johnson sancionou a legislação que proibiu a discriminação racial nas eleições, em um momento histórico impulsionado por lideranças como Martin Luther King Jr.. A comparação, no entanto, não indica um retorno ao mesmo tipo de problema. Na década de 1960, as distorções estavam concentradas em barreiras legais explícitas. Hoje, o risco é mais difuso, pois envolve o funcionamento das próprias instituições.

A erosão atual não se dá por meio de uma ruptura abrupta, mas por um processo contínuo de desgaste. Normas são relativizadas, limites são testados e instituições passam a operar sob pressão constante.

O que torna esse cenário ainda mais simbólico é o momento histórico em que ele ocorre. Ao se aproximar de um quarto de milênio desde sua independência, os Estados Unidos deixam de ser apenas uma referência de estabilidade democrática para se tornar também um exemplo de como esse modelo pode ser tensionado por dentro. A crise não é apenas americana. Ela serve de alerta para outras democracias que enfrentam desafios semelhantes.

A questão central, portanto, não é apenas o desempenho de um governo específico, mas a capacidade das instituições de resistirem a pressões que testam seus limites. O legado democrático dos Estados Unidos sempre esteve associado à solidez de suas regras e à previsibilidade de seu sistema político. Hoje, esse legado entra em zona de risco — e o principal fator dessa inflexão tem nome, método e projeto de poder.