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Editorial

Natal testa novo modelo com mais subsídios e incentivos

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 25
Editorial
25/03/2026 | 06:27

A proposta anunciada pela Prefeitura do Natal para ampliar gratuidades, instituir tarifa zero aos domingos e criar mecanismos como devolução tarifária no transporte público não pode ser vista apenas como um conjunto de medidas pontuais. O projeto, que será enviado à Câmara Municipal, reorganiza benefícios já existentes e incorpora novos instrumentos — como a gratuidade integral para estudantes da rede pública estadual, tarifa social em feriados, isenção em datas específicas, como eleições e Enem, além de um modelo de “cashback” para usuários que se deslocarem ao Alecrim e à Cidade Alta. No fundo, o que se desenha é uma tentativa de reposicionar o modelo de financiamento e operação do transporte público na capital.

Historicamente, o transporte urbano no Brasil foi estruturado sob uma lógica direta: o passageiro arca com a maior parte do custo por meio da tarifa. Esse arranjo, porém, vem perdendo sustentação. A redução do número de usuários ao longo dos anos, somada à elevação contínua de despesas — sobretudo com combustível e mão de obra — criou um desequilíbrio evidente. Em termos simples, há menos gente pagando por um sistema cada vez mais caro.

transporte onibus - Foto: José Aldenir/Agora RN
Natal testa novo modelo com mais subsídios e incentivos - Foto: José Aldenir/Agora RN

Nesse cenário, iniciativas como a tarifa zero em determinados dias e a ampliação de gratuidades deixam de ser apenas políticas de cunho social, embora também cumpram esse papel. Elas passam a funcionar como estratégias para reaquecer a demanda. Ao reduzir o custo da passagem, especialmente em períodos como os domingos, a gestão municipal tenta atrair de volta usuários que abandonaram o transporte coletivo. A ampliação do número de passageiros, ainda que sob condições diferenciadas, contribui para dar escala ao sistema.

Há, no entanto, um movimento mais estrutural em curso: a mudança na lógica de financiamento. Ao diminuir o peso da tarifa para o usuário, transfere-se parte do custo para o poder público, seja por meio de subsídios, compensações ou renúncias fiscais. Isso implica, na prática, que o transporte passa a ser sustentado, ao menos em parte, pelo conjunto da sociedade — e não apenas por quem utiliza diretamente o serviço.

A proposta apresentada em Natal se insere justamente nessa transição. Sem abandonar completamente o modelo tarifário, ela introduz elementos de um sistema híbrido, em que há divisão de responsabilidades entre usuários, poder público e mecanismos de incentivo. O “cashback” para deslocamentos ao Alecrim e à Cidade Alta é um exemplo claro dessa lógica. Não se trata apenas de facilitar o acesso, mas de induzir fluxos, direcionar deslocamentos e estimular a atividade econômica nessas áreas.

Outro ponto relevante é a tentativa de incorporar tecnologia e critérios mais objetivos na concessão dos benefícios. Ao classificar a política como “moderna” e baseada em equilíbrio fiscal, a Prefeitura sinaliza a intenção de ampliar o controle sobre o sistema, reduzir distorções e melhorar a gestão dos recursos. Em um cenário com maior participação de dinheiro público, esse nível de controle deixa de ser acessório e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do modelo.

A transição, contudo, não ocorre sem desafios. O principal deles é garantir equilíbrio fiscal. A ampliação de benefícios, se não vier acompanhada de fontes claras e estáveis de financiamento, tende a pressionar as contas públicas. Por outro lado, manter o modelo atual significa insistir em um sistema que já apresenta sinais claros de esgotamento.

O que está posto, portanto, não é um modelo fechado, mas um conjunto de diretrizes. As medidas indicam uma tentativa de adaptação a uma realidade em que o transporte público não se sustenta mais apenas com a tarifa paga pelo usuário. Trata-se de um processo gradual, que exigirá ajustes, monitoramento constante e transparência sobre custos e resultados.

A questão central não é apenas avaliar se as iniciativas são positivas — muitas delas, claramente, são —, mas entender se fazem parte de uma estratégia consistente de longo prazo. Pelo perfil da atual gestão, essa parece ser a intenção. Se confirmada, Natal pode avançar na construção de um sistema mais inclusivo e funcional. Caso contrário, há o risco de que as medidas se limitem a ações isoladas, com efeitos restritos.

De todo modo, há um ponto que já se impõe: o modelo tradicional, sustentado quase exclusivamente pela tarifa, não responde mais sozinho às demandas do sistema. Reconhecer essa limitação é, por si só, um passo necessário para qualquer mudança mais profunda.