BUSCAR
BUSCAR
Política

Walter não tem ‘autoridade’ para criticar Fátima, diz Samanda

Presidente do PT acusa vice-governador de fugir da responsabilidade de governar, contesta comparação com a gestão Garibaldi e critica aliança com Robinson Faria
Por O Correio de Hoje
10/07/2026 | 15:00

A pré-candidata ao Senado Samanda Alves (PT) afirmou que o vice-governador Walter Alves (MDB) não tem “autoridade” para atuar como fiscal da gestão da governadora Fátima Bezerra (PT), por ter se recusado a assumir o governo em abril deste ano. Em artigo publicado nesta sexta-feira 10 no jornal Agora RN, a dirigente petista reagiu às críticas feitas pelo emedebista à situação fiscal do Estado e acusou Walter de adotar uma “memória seletiva” ao se distanciar de uma administração da qual ainda faz parte.

“Confesso que eu teria vergonha de me apresentar como um vice que diz não ter participado das decisões do governo. Afinal, quem abre mão da responsabilidade de governar perde, a meu ver, parte da autoridade para posar de fiscal da gestão”, escreveu Samanda.

capa portal (30)
Samanda diz que Walter Alves não tem “autoridade” para fiscalizar gestão Fátima - Foto: Elpídio Júnior / CMN / José Aldenir

Para ela, há uma contradição entre a tentativa de Walter de se afastar das decisões administrativas e o diagnóstico negativo que passou a apresentar sobre as contas estaduais.

A reação ocorre após uma série de entrevistas concedidas pelo vice-governador nos últimos dias. Na segunda-feira 6, na rádio 98 FM, Walter voltou a afirmar que não tinha participação efetiva na condução do Executivo.

“Eu não participo da gestão, eu não participo do comitê gestor. O que eu sei é o que todo mundo sabe, pela imprensa”, declarou.

Walter rompeu politicamente com o governo em janeiro deste ano. Na ocasião, ele comunicou que não assumiria a gestão caso a governadora Fátima Bezerra (PT) renunciasse — naquele momento, ela pretendia concorrer ao Senado.

Além disso, Walter anunciou apoio à pré-candidatura de Allyson Bezerra (União) ao Governo do Estado, que é de oposição. A ação do vice-governador atrapalhou os planos do PT, que precisou substituir Fátima Bezerra por Samanda Alves na disputa ao Senado — a governadora decidiu permanecer no cargo até o fim da gestão para não entregar o comando do governo aos opositores.

Desde então, o vice-governador passou a fazer críticas frequentes à situação financeira estadual. Ele tem declarado que decidiu não assumir o governo porque herdaria um Estado em situação fiscal precária.

Na entrevista, afirmou que o próximo governador precisará promover um “choque de gestão para valer” e citou déficit fiscal, atrasos relacionados a empréstimos consignados, dificuldades no pagamento de fornecedores e pressão das despesas com pessoal.

“Infelizmente, é um déficit muito alto”, disse.

Samanda rebateu o discurso argumentando que Walter tenta desqualificar a gestão Fátima ao compará-la com o governo de seu pai, Garibaldi Alves Filho, na década de 1990, sem considerar as diferenças entre os dois períodos.

“Do tempo em que Garibaldi governou para cá, muita coisa mudou. Mudaram as regras fiscais, as obrigações constitucionais, a estrutura do Estado, a folha de pessoal e o volume de políticas públicas que precisam ser financiadas. Comparar a realidade de hoje com um governo de quase 30 anos atrás é viver no passado”, afirmou.

No artigo, a presidente do PT-RN também recuperou a privatização da Cosern, realizada no governo Garibaldi, em 1997. Segundo Samanda, a companhia foi vendida por R$ 676,4 milhões, montante que, corrigido, corresponderia atualmente a cerca de R$ 4 bilhões.

A petista sustenta que a operação garantiu ao Estado uma disponibilidade extraordinária de caixa e tornou o ponto de partida daquela administração distinto do cenário encontrado por Fátima em 2019.

“Curiosamente, é um montante muito próximo da dívida herdada por Fátima ao assumir o governo. São pontos de partida completamente distintos. Governar com um caixa reforçado por uma privatização é muito diferente de assumir um Estado endividado e com salários atrasados”, escreveu.

A comparação com o governo Garibaldi aparece com frequência no discurso recente de Walter. Na 98 FM, o vice-governador afirmou que seu pai fez “um grande governo” e citou ações como o programa de adutoras, o Programa do Leite, a criação das Centrais do Cidadão e a implantação de parques industriais.

Ao explicar por que desistiu de assumir o Executivo, disse temer que sua passagem pelo cargo fosse comparada negativamente à administração paterna.

“O cidadão ia parar na rua e dizer: ‘Walter, seu pai foi um grande governador, você foi um dos piores’”, afirmou.

Defesa do legado de Fátima

Samanda, por sua vez, procurou deslocar a comparação para o cenário encontrado pelo PT ao assumir o Estado. Ela destacou que Fátima recebeu o governo com quatro folhas salariais em atraso e despesas com pessoal equivalentes a 63,64% da Receita Corrente Líquida.

A dirigente afirma que o percentual caiu para 56,12%, com salários em dia, garantia de direitos e realização de concursos em áreas essenciais. Também citou o 2º lugar alcançado pelo RN no Ranking da Qualidade da Informação Contábil e Fiscal da Secretaria do Tesouro Nacional.

“O vice-governador, no entanto, evita comparar o Rio Grande do Norte de 2019 com o de hoje por uma razão evidente: atualmente está aliado justamente ao grupo que entregou ao Estado uma das maiores crises de sua história recente”, escreveu Samanda.

A crítica tem como alvo a presença do ex-governador e atual deputado federal Robinson Faria (PP) no campo político que apoia Allyson Bezerra.

Nesse ponto, a presidente do PT endureceu o discurso contra Walter e vinculou a cobrança sobre a gestão Fátima à nova composição de alianças do MDB.

“É difícil levar a sério um discurso de preocupação com o futuro do Estado quando ele é feito ao lado de quem afundou o Rio Grande do Norte. Ou se está preocupado com o futuro do Rio Grande do Norte, ou se escolhe se aliar com Robinson Faria. As duas coisas não combinam”, afirmou.

A petista também contestou a avaliação de que a atual administração não conseguiu reorganizar o Estado. No artigo, destacou a recuperação de centenas de quilômetros de rodovias, a retomada de obras estruturantes, a atração de investimentos e os avanços na segurança pública.

Reconheceu que os desafios fiscais permanecem, mas sustentou que o RN recuperou capacidade de planejamento e execução.

“Por mais raivosa que seja a oposição, é difícil negar que hoje temos um Estado melhor do que aquele que encontramos”, escreveu.

Walter apresenta diagnóstico diferente. Na entrevista à 98 FM, afirmou que o Estado precisa primeiro “fazer o dever de casa” na área fiscal e criticou a falta de controle dos gastos.

Ao detalhar o que entende por choque de gestão, defendeu revisão de contratos, aproveitamento ou venda de terrenos e maior estímulo a atividades econômicas como turismo, mineração, petróleo, gás e energias renováveis.

“O que não está tendo é controle dos gastos por falta de gestão do atual governo”, declarou.

Samanda encerrou o artigo elevando o tom e questionando diretamente a postura política do vice-governador.

“Apontar problemas é sempre a tarefa mais simples. Difícil é assumir responsabilidades, tomar decisões e governar. É um atestado de incompetência ter a oportunidade de governar o Estado e fugir da tarefa”, afirmou.

Para a presidente do PT-RN, Walter incorre em incoerência ao criticar a administração da qual participa institucionalmente e, ao mesmo tempo, defender um choque de gestão em uma aliança que inclui Robinson Faria.

“Na política, não se pode ocupar o gabinete do governo e, ao mesmo tempo, posar de líder da oposição”, escreveu.

Ao concluir, Samanda afirmou que a reconstrução do Estado exigiu “coragem, trabalho e compromisso” e acusou o vice-governador de selecionar apenas os episódios convenientes para sustentar sua nova posição política.

“O Rio Grande do Norte merece um debate político baseado em fatos, contexto e honestidade intelectual”, declarou.

Segundo ela, a população conhece as condições em que o governo foi recebido e os desafios enfrentados desde 2019:

“Essa é a história que precisa ser contada, e não apenas os capítulos que interessam a quem faz da memória um instrumento de conveniência política”.