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Neurologia

Condição rara faz pessoas se perderem até em lugares conhecidos, aponta estudo

Desorientação topográfica do desenvolvimento pode afetar até uma em cada 30 pessoas e está relacionada à dificuldade de criar mapas mentais dos ambientes
Por O Correio de Hoje
10/07/2026 | 14:44

Uma condição pouco conhecida pode explicar por que algumas pessoas se perdem com frequência, mesmo em locais que conhecem há anos. A desorientação topográfica do desenvolvimento (DTD), descrita como uma incapacidade permanente de navegação espacial sem relação com lesões cerebrais ou doenças neurológicas, pode afetar até uma em cada 30 pessoas, segundo pesquisadores da Universidade de Leiden, na Holanda.

Um novo estudo busca compreender melhor um subtipo da condição, chamado pelos cientistas de “atopia”, além de avaliar formas de treinamento capazes de melhorar a orientação espacial.

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Distúrbio faz pessoas se perderem até em casa - Foto: Magnific

A pesquisa, publicada por especialistas da Universidade de Leiden, aponta que pessoas com DTD apresentam dificuldades persistentes para encontrar caminhos desde a infância. Diferentemente do que ocorre após acidentes vasculares cerebrais, traumatismos ou doenças neurodegenerativas, a desorientação não é consequência de alterações adquiridas no cérebro, mas faz parte do funcionamento do sistema de navegação dessas pessoas desde o nascimento.

Segundo os pesquisadores, a condição pode variar de intensidade. Nos casos mais graves, a dificuldade para se orientar interfere significativamente na rotina e leva pacientes a buscar atendimento especializado. Em quadros mais leves, o problema pode passar despercebido durante toda a vida, sendo frequentemente interpretado apenas como falta de senso de direção.

Nos últimos anos, o conceito de DTD passou a abranger diferentes tipos de comprometimento da navegação espacial. Para os autores do estudo, essa ampliação acabou tornando o diagnóstico menos preciso e dificultando tanto a compreensão da condição quanto o desenvolvimento de estratégias específicas de apoio aos pacientes.

O novo trabalho concentra-se em um grupo específico de pessoas com DTD que não consegue construir os chamados mapas cognitivos, representações mentais utilizadas para organizar espacialmente o ambiente ao redor.

Em indivíduos sem alterações, esses mapas permitem compreender como ruas, edifícios e pontos de referência se relacionam entre si, possibilitando prever trajetos, encontrar caminhos alternativos e orientar-se mesmo em locais desconhecidos.

Após entrevistas e acompanhamento de pacientes, os pesquisadores propuseram o uso do termo atopia para definir esse subtipo. A palavra significa, literalmente, “sem lugar” ou “sem mapa”.

Pessoas com atopia conseguem reconhecer locais e pontos de referência, mas não conseguem integrar essas informações em uma representação espacial única. Isso faz com que conheçam fatos isolados — como saber que a casa fica próxima da estação de trem ou que determinada loja está perto da residência — sem conseguir visualizar como esses locais se conectam dentro do espaço.

Como consequência, qualquer alteração em um trajeto habitual pode gerar grande dificuldade de orientação. Uma rua interditada, uma conversão inesperada ou a chegada a um edifício por uma entrada diferente da habitual podem ser suficientes para fazer com que a pessoa perca completamente a referência do local.

Um dos participantes da pesquisa descreveu essa experiência: “Na minha cabeça, estou sempre em apenas um lugar, então não consigo imaginar como é o ambiente ao meu redor.”

A ausência de um mapa mental faz com que muitas pessoas desenvolvam estratégias compensatórias. Entre elas estão a repetição rígida de trajetos conhecidos, a evitação de locais desconhecidos e a dependência constante de aplicativos de navegação.

Os autores alertam que esses comportamentos podem ser interpretados de forma equivocada como ansiedade, desatenção ou até falta de inteligência, embora não exista relação entre essas características. Sem suporte adequado, a limitação pode comprometer significativamente a autonomia.

Uma das participantes do estudo relatou que evitava sair sozinha para qualquer destino localizado a mais de algumas quadras de sua residência, dependendo do marido para realizar deslocamentos.

Apesar das dificuldades, os pesquisadores afirmam que tanto a atopia quanto a desorientação topográfica do desenvolvimento não são doenças degenerativas. Estudos indicam que a capacidade de navegação pode ser desenvolvida por meio de treinamento específico.

A orientação espacial funciona de maneira semelhante a um músculo: quanto menos utilizada, maior tende a ser sua perda de eficiência. Pesquisas anteriores mostraram que pessoas que passaram a depender de aplicativos de GPS apresentaram pior desempenho em testes de memória espacial.