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Longevidade

Curiosidade favorece vida mais longa

Pesquisa com idosos da “zona azul” da Sardenha identificou relação entre características psicológicas, bem-estar e envelhecimento saudável
Por O Correio de Hoje
10/07/2026 | 14:40

Além de hábitos saudáveis como alimentação equilibrada e prática de atividades físicas, características da personalidade também podem influenciar a longevidade. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Cagliari, na Itália, que identificou diferenças psicológicas entre idosos que vivem na chamada “zona azul” da Sardenha — região conhecida pela elevada concentração de centenários — e moradores de localidades próximas. Os resultados foram publicados na revista científica International Journal of Applied Positive Psychology.

Os pesquisadores avaliaram 125 idosos com idade média de 80 anos. Desse total, 55 viviam na área considerada “zona azul” da Sardenha e outros 70 residiam em municípios vizinhos, fora da região de maior concentração de pessoas com mais de 100 anos. Os dois grupos apresentavam perfis semelhantes em relação à idade, sexo, nível socioeconômico, escolaridade e funcionamento cognitivo, permitindo uma comparação mais precisa entre os participantes.

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Pesquisa realizada na região italiana da Sardenha identificou que abertura a novas experiências, amabilidade e melhor controle emocional estão associados ao envelhecimento saudável - Foto: Magnific

Durante a pesquisa, os voluntários passaram por uma série de avaliações voltadas à eficiência cognitiva, qualidade de vida, bem-estar psicológico e características de personalidade. Para isso, os cientistas utilizaram o modelo conhecido como “Big Five”, um dos principais instrumentos da psicologia para analisar traços de personalidade.

O método avalia cinco dimensões: extroversão, relacionada à sociabilidade; abertura à experiência, ligada à curiosidade e ao interesse por novas vivências; conscienciosidade, que envolve organização e planejamento; agradabilidade, associada à empatia, altruísmo e cooperação; e neuroticismo, caracterizado pela maior tendência à ansiedade, estresse e instabilidade emocional.

Após controlar fatores como idade e escolaridade, os pesquisadores observaram que níveis mais elevados de abertura à experiência, conscienciosidade e agradabilidade estavam associados a melhores indicadores de bem-estar psicológico e maior participação em atividades de lazer. Em sentido contrário, níveis elevados de neuroticismo apresentaram relação com pior qualidade de vida.

Ao comparar os dois grupos, o estudo mostrou que os moradores da “zona azul” apresentavam maior abertura para novas experiências, melhores estratégias para enfrentar dificuldades cotidianas e maior competência emocional, entendida como a capacidade de compreender e compartilhar as próprias emoções.

Os idosos que viviam na região de maior longevidade também demonstraram maior satisfação com suas relações sociais e participação mais frequente em atividades intelectualmente e fisicamente estimulantes quando comparados aos participantes residentes fora da área.

No artigo científico, os autores afirmam que os resultados “sugerem que a combinação de traços de personalidade adaptativos e recursos de enfrentamento favorece um estilo de vida mais ativo, fornecendo informações sobre os mecanismos envolvidos no envelhecimento bem-sucedido”. Os pesquisadores acrescentam ainda que os achados “destacam características psicológicas específicas associadas ao envelhecimento bem-sucedido no contexto singular de longevidade da Zona Azul da Sardenha”.

As chamadas “zonas azuis” são regiões conhecidas por reunir proporções elevadas de pessoas centenárias e costumam ser associadas a hábitos como alimentação saudável, prática regular de exercícios físicos, forte convivência comunitária e senso de propósito de vida. O conceito foi apresentado em 2004 e popularizado pelo jornalista Dan Buettner.

Além da Sardenha, na Itália, integram a lista Okinawa, no Japão; Nicoya, na Costa Rica; Ikaria, na Grécia; e Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos. Entretanto, a própria existência das “zonas azuis” passou a ser questionada nos últimos anos. Pesquisadores como Saul Justin Newman, da University College London, argumentam que parte dos dados utilizados para identificar essas regiões apresenta inconsistências, incluindo registros incorretos de idade, falhas cadastrais e até casos de fraude documental.

Um dos exemplos citados por Newman é o de Sogen Kato, considerado durante anos o homem mais velho do Japão. Em 2010, autoridades encontraram seus restos mortais e constataram que ele havia morrido em 1978, enquanto familiares continuavam recebendo sua aposentadoria por décadas.

Apesar dos questionamentos sobre a metodologia empregada para identificar as “zonas azuis”, o novo estudo reforça que fatores psicológicos, aliados a hábitos saudáveis e ao fortalecimento das relações sociais, podem desempenhar papel relevante no processo de envelhecimento e na manutenção da qualidade de vida durante a velhice.