Pelo terceiro ano consecutivo, o suicídio foi a principal causa de morte entre policiais civis e militares no Brasil, superando os óbitos registrados em confrontos durante o serviço e também aqueles ocorridos fora do expediente. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que aponta aumento de 37,8% nos suicídios de policiais desde 2017, enquanto as mortes violentas intencionais de agentes caíram 63,7% no mesmo período.
Casos aumentam no Rio Grande do Norte
Em 2025, o Brasil registrou 110 suicídios de policiais da ativa, contra 126 no ano anterior. Apesar da redução de 12,7% em relação a 2024, especialistas avaliam que o número ainda representa um problema estrutural relacionado à saúde mental nas corporações.

No Rio Grande do Norte, a situação apresentou movimento contrário ao cenário nacional. O Estado passou de um caso registrado em 2024 para três em 2025, aumento de 200%. Segundo o levantamento, um caso envolveu a Polícia Militar e dois ocorreram na Polícia Civil.
A taxa estadual passou de 0,09 para 0,27 suicídio por 100 mil policiais, colocando o RN entre os estados que tiveram crescimento no período.
Suicídios superam mortes em serviço
Os 110 casos registrados no País ficaram acima das mortes em confrontos durante o serviço, que somaram 29 ocorrências, e dos óbitos de policiais durante a folga ou por outras lesões não naturais, que totalizaram 59 registros.
Os dados indicam uma mudança no perfil da vitimização policial. Antes, os estudos se concentravam principalmente nas mortes durante a folga, muitas relacionadas a atividades extras, conhecidas como “bicos”. Atualmente, o suicídio ocupa a principal posição entre as causas de morte desses profissionais.
Para Dayse Miranda, presidente do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (Ippes), os números exigem uma discussão nacional sobre o tema.
“Apenas esse dado de 2025, de 110 suicídios, já teria de ser suficiente para um amplo debate público sobre o tema”, afirmou.
Especialistas defendem políticas permanentes
Segundo especialistas, o sofrimento psicológico dos policiais está relacionado a fatores como exposição constante à violência, pressão profissional, medo de represálias contra familiares e condições de trabalho.
Raquel Antoniassi, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), defende que a prevenção seja tratada como uma política pública contínua.
Entre as medidas apontadas estão a criação de programas permanentes de saúde mental nas corporações, protocolos para identificação de sinais de sofrimento psicológico, capacitação de chefias e colegas, apoio a familiares após casos de suicídio e redução do estigma sobre a busca por atendimento.
O presidente da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol), Rodolfo Queiroz Laterza, também cita fatores institucionais como parte do problema.
“Más condições de trabalho, remuneração defasada, má gestão institucional que direciona para o policial a responsabilidade por problemas mais abrangentes e o nível de exposição a risco contínuo”, afirmou.
São Paulo concentra maior crescimento
Apesar da redução nacional, alguns estados registraram aumento nos casos. São Paulo teve o maior crescimento, passando de 17 suicídios em 2024 para 30 em 2025, alta de 76,5%.
Na Polícia Militar paulista, os registros passaram de 13 para 22, enquanto na Polícia Civil aumentaram de quatro para oito. Minas Gerais também apresentou crescimento, passando de 10 para 14 casos.
Em contrapartida, estados como Rio de Janeiro, Paraná e Bahia tiveram redução no período.
Letalidade policial também cresce
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também apontou aumento da letalidade policial no Brasil. Em 2025, 6.602 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais, maior número da série histórica iniciada em 2016.
O total representa crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior, com taxa nacional de 3,1 mortes por 100 mil habitantes.
As maiores taxas foram registradas no Amapá (17,1 por 100 mil habitantes), Bahia (10,6) e Sergipe (8,4). No Rio de Janeiro, parte do aumento foi associada à Operação Contenção.
Especialistas defendem que a saúde mental dos profissionais de segurança pública passe a integrar de forma permanente as políticas do setor, diante do cenário em que o suicídio se tornou a principal causa de morte entre policiais brasileiros.