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Música

Rádio Pirata: 40 anos do disco que marcou gerações

Disco nasceu de uma gravação ao vivo improvisada, impulsionada pelo sucesso inesperado de “London, London”, e transformou o RPM em um dos maiores fenômenos da música brasileira
Por O Correio de Hoje
24/06/2026 | 15:13

Uma música gravada sem grandes pretensões durante um show acabou dando origem ao álbum mais vendido da história do rock brasileiro. Quarenta anos depois de seu lançamento, “Rádio Pirata ao Vivo”, do RPM, continua cercado de histórias, divergências, recordes e episódios que ajudam a explicar por que a banda se transformou em um dos maiores fenômenos de público da música nacional.

A origem do disco remonta a março de 1986, quando os integrantes do RPM foram convocados para uma reunião urgente na sede da CBS. A gravadora tinha uma boa notícia e um problema. A boa notícia era que “London, London”, versão do grupo para a canção escrita por Caetano Veloso em 1970, havia se tornado a música mais executada nas rádios brasileiras. O problema era que a empresa não recebia qualquer retorno financeiro da faixa, já que ela havia sido registrada durante uma apresentação ao vivo e não integrava oficialmente nenhum álbum.

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Diante do sucesso inesperado, surgiram alternativas para aproveitar comercialmente a canção. Uma delas seria regravar a música em estúdio e acrescentá-la como faixa bônus ao álbum “Revoluções Por Minuto”, lançado em 1985. A hipótese foi descartada porque a banda e a gravadora acreditavam que os fãs que já haviam comprado o disco poderiam se sentir prejudicados. Outra possibilidade seria lançar um compacto simples ou duplo, formato que já havia praticamente desaparecido da indústria fonográfica brasileira naquele período.

Sem consenso, a CBS optou por um caminho mais ousado: registrar um show completo e transformá-lo em um álbum ao vivo. A decisão mudaria a história do grupo.

“Conseguimos estourar uma música que não tinha sido gravada”, lembra Paulo Ricardo em entrevista ao Estadão. “Foi um fenômeno metalinguístico: o álbum Rádio Pirata ao Vivo nasceu da versão pirata de uma música.”

Para o guitarrista Fernando Deluqui, o sucesso de “London, London” foi determinante para impulsionar o projeto.

“London, London foi a fagulha que detonou a explosão”, afirma. “Topamos gravar o álbum meio a contragosto. Ninguém imaginava a repercussão do público.”

O repertório reuniu cinco músicas do álbum de estreia do RPM — “Revoluções Por Minuto”, “A Cruz e a Espada”, “Olhar 43”, “Estação no Inferno” e “Rádio Pirata” —, todas assinadas por Paulo Ricardo e Luiz Schiavon. Também foram incluídas as inéditas “Alvorada Voraz” e “Naja”, além das regravações de “London, London” e “Flores Astrais”, clássico dos Secos & Molhados. Entre as faixas, aparecia ainda uma citação instrumental de “Light My Fire”, dos Doors.

“Durante Rádio Pirata, a banda tocava o que queria de David Bowie a Led Zeppelin. Algumas versões duravam 20 minutos. Era a deixa para ir ao banheiro”, diverte-se Paulo Ricardo.

O RPM havia sido formado por Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui. O baterista Paulo Pagni entrou posteriormente, após a passagem de Moreno Júnior e Charles Gavin, que deixaria o grupo para integrar os Titãs.

“Meu quarto foi o primeiro estúdio do RPM. Fazíamos uma barulheira danada. O vizinho chamou a polícia várias vezes”, recorda Moreno Júnior. “Fiquei triste com a minha saída. Chorei muito. Mas, depois, entendi o motivo. Não houve briga, nem guardo mágoa. Somos amigos até hoje.”

As gravações de “Rádio Pirata ao Vivo” ocorreram nos dias 26 e 27 de maio de 1986, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Apenas dois meses depois, o álbum já estava nas lojas.