Existe um momento na trajetória de todo artista em que o retorno para casa deixa de ser apenas um deslocamento geográfico. Passa a ser uma espécie de acerto de contas com a própria história. Quando Juliana Linhares subir ao palco do Teatro Riachuelo, no dia 22 de agosto, para apresentar pela primeira vez em Natal o espetáculo Até Cansar o Cansaço, será difícil separar a cantora da menina que cresceu assistindo aos shows de suas referências na capital potiguar.
A cidade que a viu começar agora a recebe depois de uma longa travessia. Nos últimos anos, Juliana levou sua voz a festivais como o Rock in Rio, percorreu palcos em Portugal, Espanha e França, viu uma de suas canções alcançar a trilha sonora de uma novela em horário nobre e consolidou seu nome entre os artistas mais inventivos da música brasileira contemporânea. Mas, de certa forma, tudo isso parece dialogar com uma pergunta que atravessa sua obra desde o início: o que significa ser nordestino hoje?

Foi essa inquietação que deu origem a Nordeste Ficção, álbum lançado em 2021 e que se transformou em um dos trabalhos mais discutidos da música brasileira recente. Mais do que um disco, o projeto abriu espaço para reflexões sobre identidade, pertencimento e representação, questionando imagens cristalizadas do Nordeste e propondo novas formas de enxergar a região.
A própria artista reconhece que saiu transformada desse processo.
“O processo do Nordeste Ficção é muito longo e pessoal. Me vejo, através dele, mudando, me transformando, entendendo o que é o Nordeste em mim e para mim, e em relação às pessoas que me encontram na minha vida. Foi um aprendizado grande entender o quanto o Nordeste foi criado, inventado e reinventado, dentro e fora dele, para se tornar o que é. E para a gente conseguir desconstruir estereótipos e fortalecer outras histórias dentro do próprio Nordeste.”
Ela afirma que o álbum redefiniu não apenas seu olhar sobre a região, mas também sua compreensão sobre a própria arte.
“Acho que esse álbum me transforma enquanto artista, enquanto brasileira nordestina, porque me faz enxergar o Nordeste de outras maneiras. Depois desse álbum, me tornei uma artista muito mais confiante mesmo do que eu vim fazer com a minha voz. A minha voz se torna muito mais poderosa através do discurso desse álbum, do que ele vem falar. Acho que eu consegui me apropriar das minhas próprias canções.”
Agora, cerca de cinco anos depois do lançamento daquele trabalho, Juliana chega a uma nova etapa. Até Cansar o Cansaço, seu segundo álbum solo, surge em um contexto diferente. Se Nordeste Ficção olhava para as construções históricas e simbólicas da identidade nordestina, o novo trabalho mergulha em questões mais ligadas ao tempo presente, ao desgaste cotidiano e às tentativas de reinvenção diante de um mundo acelerado.
O espetáculo que estreia em Natal traz canções inéditas do novo disco, sucessos da carreira e releituras da música brasileira. Mas também representa um ponto de passagem entre ciclos criativos.
Ao encerrar a turnê de Nordeste Ficção, no ano passado, Juliana já apontava para o futuro.
“Acho que a mensagem que eu deixo é a própria do Nordeste Ficção, da profundeza da nossa existência como nordestinos, de como a gente é múltiplo, amplo, grande, de como a gente pode ser além da ficção e criar as nossas próprias. Enfim, eu acho que é fortalecer mesmo a nossa existência para a gente mesmo. Com o fim da turnê virá um projeto novo. Estou agora em processo de disco novo e de outros projetos pessoais e artísticos.”
O novo projeto finalmente chegou. Mas há algo que permanece. A relação afetiva com Natal continua sendo um eixo importante da sua trajetória. Não por acaso, a estreia do espetáculo acontece justamente diante do público que acompanhou seus primeiros passos.
Ao longo dos últimos anos, Juliana também viu sua música alcançar públicos que estavam muito além do circuito tradicional da canção nordestina. Entre todas as faixas de sua discografia, nenhuma teve impacto tão amplo quanto Balanceiro.
“É uma música que chegou, levou a minha voz e o meu trabalho para lugares inimagináveis. Não só até a novela, em horário nobre, em Renascer. Já recebi uma mensagem que ela estava tocando na França. A música realmente tem um poder poderoso de furar bolha e fronteira.”
“Essa música levou o meu trabalho e a minha voz para muitas pessoas diversas. Isso faz o trabalho se ampliar.”
Talvez seja justamente essa a síntese da trajetória que ela apresenta agora ao público potiguar.
Uma artista que partiu de Natal para questionar imagens prontas sobre o Nordeste. Que transformou pesquisa, memória e pertencimento em canção. Que viu suas músicas atravessarem fronteiras físicas e simbólicas. E que retorna à cidade onde tudo começou trazendo novas perguntas.
Porque, para Juliana Linhares, a arte nunca parece ter sido um lugar de respostas definitivas. É um movimento contínuo de invenção. E, ao que tudo indica, ainda há muitas histórias para cantar antes de cansar o cansaço.