Em um momento em que algoritmos disputam atenção e as grandes plataformas concentram cada vez mais o fluxo de informações, um grupo de jornalistas, comunicadores e agentes culturais se reuniu em Natal para discutir algo que permanece essencial: quem conta as histórias da cultura potiguar e de que forma elas chegam ao público.
Realizado no Natal Bier pelo Comitê Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte, o encontro “Círculo de Cultura: Comunicação é Arte” transformou experiências individuais em uma conversa coletiva sobre pertencimento, identidade e resistência cultural. Mais do que debater ferramentas de comunicação, os participantes refletiram sobre os caminhos que os levaram a enxergar a cultura como pauta permanente e como instrumento de fortalecimento dos territórios onde vivem.
A primeira mesa, intitulada “Vozes da Comunicação Cultural e Popular Potiguar”, reuniu os jornalistas Emerson Medeiros, Moisés Lima e Nathallya Macedo, editora do Agora RN, O Correio de Hoje e Revista Cultue. Embora vindos de trajetórias distintas, os três apresentaram um ponto em comum: a compreensão de que a comunicação cultural começa muito antes da publicação de uma reportagem. Ela nasce da convivência com os lugares, as pessoas e as manifestações que formam a identidade de uma comunidade.
Ao apresentar os convidados, a mediação destacou a atuação de profissionais que, ao longo dos anos, construíram espaços dedicados à valorização da produção artística local, muitas vezes fora das estruturas tradicionais da imprensa.
Para Nathallya Macedo, o interesse pela cultura surgiu antes mesmo do jornalismo.
“Eu sempre gostei de ler, de escrever, e aí eu queria ser escritora, na verdade, mas quando eu fui decidir fazer a faculdade, eu acho que o jornalismo parecia ser mais viável e mais rentável, de certa forma, e aí eu decidi fazer jornalismo.”
A aproximação com a cobertura cultural aconteceu de forma gradual, durante os primeiros passos na profissão.
“Desde sempre, gosto de cultura pop, eu acompanho bastante esse cenário, e eu acho que foi bem natural. Quando eu comecei a estagiar, não tinha tanto espaço para cobertura cultural, era mais jornalismo comunitário. Sugeri para o meu chefe começar a escrever sobre cultura e cobrir festivais, e foi assim que começou.”
A fala evidencia um cenário recorrente em veículos locais: a cultura frequentemente disputa espaço com pautas consideradas mais urgentes. Ainda assim, foi justamente a insistência em cobrir festivais, artistas e movimentos culturais que abriu caminho para uma atuação voltada à valorização da produção potiguar.
Se para Nathallya a cultura entrou pela porta da curiosidade e do interesse pela escrita, para Moisés Lima ela surgiu do encontro entre história, música e jornalismo. Com mais de três décadas de atuação na imprensa cultural do RN, ele relembrou que o desejo de compreender a sociedade foi determinante para a escolha da profissão.
“Já muito jovem, eu tinha uma sintonia com a ideia da história. Eu sempre tive uma ligação muito forte sobre a conexão entre a história e a sociedade. E, no desenvolver disso, me encantava ver como o papel do jornalista, daquele repórter que estava na TV, estava escrevendo histórias e conectava as pessoas às sociedades, aos seus contextos.”
A escolha pelo jornalismo o levou ao curso de Comunicação Social da UFRN e, posteriormente, à cobertura cultural.
“Naturalmente, por ter um viés que me associava à arte, que é a música, com uma conexão muito forte com o olhar de quem estava fora, como observador da cena, que é o jornalista, com aquele que produzia a expressão, que é o artista, eu resolvi me especializar nesse campo cultural.”
Foi no extinto Diário de Natal que consolidou essa trajetória, atuando durante mais de quinze anos como repórter e editor de cultura.
Já Emerson Medeiros levou ao debate uma perspectiva construída a partir da comunicação popular e das vivências no bairro das Rocas, em Natal. A trajetória começou de maneira informal, com vídeos publicados nas redes sociais.
“Eu sempre fui um grande falante. Eu era aquele jovem, aquela criança que os professores diziam: ele é muito inteligente, mas conversa demais.”
Os conteúdos humorísticos sobre situações do cotidiano acabaram encontrando audiência e criando identificação.
“Acho que o meu primeiro viral foi falando das Rocas, do meu bairro, inclusive. Falando que as Rocas é um país. E aí isso fala um pouco sobre a cultura do meu bairro, porque meu bairro tem de tudo. Então, meu bairro é uma nação.”
O sucesso nas redes abriu espaço para experiências em rádio e televisão. Mas foi a manutenção da linguagem popular que acabou se tornando sua principal marca.
“Eu acho que a diferença é que eu sempre tentava falar a linguagem das pessoas. Eu sempre tentava colocar o meu sotaque.”
Segundo ele, adaptar a linguagem ao contexto não significa abrir mão da comunicação jornalística, mas aproximá-la do público.
A segunda mesa, intitulada “Empreendedorismo Feminino na Comunicação Cultural Potiguar”, debateu os caminhos da atuação de mulheres na comunicação voltada à cultura no Rio Grande do Norte. Participaram da discussão as comunicadoras Luciana Oliveira, Ângela Bezerra, Cecí Oliveira e Margot Ferreira.
Ao longo do encontro, ficou evidente que a comunicação cultural vai além da divulgação de eventos ou da cobertura artística. Ela funciona como ferramenta de preservação da memória, fortalecimento de identidades e ampliação do acesso à produção cultural. Em um cenário marcado pela velocidade das redes sociais e pela disputa por visibilidade, o debate reforçou a importância de narrativas construídas a partir dos territórios e das experiências locais, valorizando quem vive, produz e transforma a cultura potiguar diariamente.