Às vésperas de completar 60 anos, em dezembro, Claudia Raia se tornou um dos rostos mais associados à transformação da forma como o envelhecimento feminino é encarado no Brasil. Atriz, bailarina, produtora, empresária e mãe de três filhos, ela afirma viver uma das etapas mais férteis de sua trajetória profissional e pessoal, distante dos estereótipos que durante décadas limitaram as expectativas sobre mulheres que ultrapassam os 50 anos.
A artista costuma dizer que se sente muito mais jovem do que a idade registrada nos documentos. O segredo, segundo ela, está na combinação entre disposição, disciplina e capacidade de continuar sonhando.

“Jamais! Tenho 15 de mentalidade e 35 fisicamente. Vou fazer 60 anos, e está tudo bem. Só que o que acontece dentro de mim é um turbilhão de coisas maravilhosas. Sou inquieta. Sonho a longo prazo.”
Claudia afirma que uma das principais mudanças desta fase da vida foi compreender que não precisa se enquadrar nas expectativas impostas pela sociedade sobre idade, comportamento ou aparência.
“Embutem na nossa cabeça que devemos ter sonhos menores, que não dá mais tempo, que a roupa não é mais adequada para a idade. Quem falou? Tô começando o meu segundo ato, ainda tenho um grande final e quero morrer no palco, representando. Espetáculo de morte!”
INTERTÍTULO: Fase de intensa produção
A declaração reflete um momento particularmente intenso de sua carreira. Nos próximos meses, ela retorna aos palcos com o musical “Tarsila: A Brasileira”, em temporada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro entre os dias 31 de julho e 2 de agosto.
Também integra o elenco da série “Fúria”, da Netflix, na qual interpreta uma agiota, e apresenta o reality show “Sua Mãe Te Conhece?”, igualmente produzido pela plataforma de streaming. Além disso, prepara-se para participar de um filme produzido por seu filho mais velho, Enzo Celulari.
Para a atriz, a maturidade não significou desaceleração. Pelo contrário. Ela acredita estar vivendo seu período de maior criatividade.
“É tão boa essa inquietude, mas agora ela é madura. Não quero mais ser multi, mas inteira no que faço. Esse é um momento único na minha vida, de maior criatividade.”
Ela cita como exemplo o desafio de liderar uma grande produção teatral.
“Tenho um espetáculo que amo e é dificílimo para mim como atriz, uma turnê por seis capitais, 74 pessoas, um Cadillac em cena, um absurdo de produção!”
Outro projeto que a impactou profundamente foi a apresentação do reality voltado para as relações entre mães e filhos adultos. Segundo Claudia, a experiência provocou reflexões pessoais importantes.
“Saí transformada. Fui vendo relações adoecidas e codependentes se transformarem na minha cara. São mães observando os filhos sem eles saberem. A gente não conhece os filhos. Isso me pegou.”
Ela afirma que o programa a levou a repensar a própria relação com os filhos e a importância da escuta.
“Saí direto para uma conversa com meus filhos para rever coisas. Percebi que podia melhorar na escuta. É difícil ser mãe de adulto. Eles querem a tua opinião, mas ela já não vale tanto.”
INTERTÍTULO: Lições da maturidade
O processo de amadurecimento também a fez rever antigas cobranças pessoais. Criada sob forte disciplina, Claudia conta que passou boa parte da vida perseguindo padrões inalcançáveis de perfeição.
“Acreditei a vida inteira na perfeição absoluta, sou bailarina, fui criada com disciplina absurda. Minha mãe taurina…”
Ao ser questionada sobre a influência materna, ela reconhece que a exigência foi intensa.
“Muito! Não podia um fio de cabelo fora do lugar, uma meia desfiada. Vim nessa perfeição e me frustrando. Esse sarrafo nunca será alcançado.”
Com o passar dos anos, porém, aprendeu a relativizar essas cobranças.
“Quando a maturidade veio, me disse: ‘Calma’. Não tenho preguiça de melhorar. Vou fazer 60 e estou borbulhante de desejos. Já combinei com Deus: quero chegar aos 120 anos.”
A maternidade voltou a ocupar espaço central em sua vida com o nascimento de Luca, hoje com três anos, fruto de seu relacionamento com o ator Jarbas Homem de Mello. O filho caçula nasceu quando Claudia tinha 55 anos, experiência que ela costuma apontar como uma das mais transformadoras de sua trajetória.
Ao refletir sobre os ensinamentos recebidos da mãe, ela destaca uma lição que ajudou a construir sua carreira.
“Que o sucesso não existe. O que faz carreira é o trabalho.”
Segundo a atriz, essa visão foi decisiva para mantê-la com os pés no chão mesmo nos momentos de maior exposição.
“No início da carreira, um dia fui à banca de jornal e era capa de todas as revistas. Minha mãe: ‘Isso não tem a menor importância, vamos trabalhar’. Ela me deixou com os pés no chão. Fiz sucesso cedo, o caldo podia ter desandado. Só não desandou porque tive essa mãe.”
INTERTÍTULO: Menopausa e novos recomeços
Apesar da fama de disciplinada e incansável, Claudia reconhece que o amadurecimento trouxe uma relação mais saudável com o trabalho.
“A maturidade me deu isso, mas foi meia hora atrás”, brinca. “Entendi que não quero um burnout.”
Como produtora, ela admite que já viveu momentos de extrema cobrança.
“Falava: ‘Por que isso não deu?’ Agora, é ‘vamos com o que deu’.”
Ao longo das últimas décadas, Claudia também se tornou uma das vozes mais ativas na discussão sobre menopausa. O tema, que hoje ganhou espaço nas redes sociais e na mídia, era raramente abordado quando ela começou a falar publicamente sobre o assunto.
“Acho mesmo que sou uma mulher de vanguarda. Trouxe os musicais, fomos criando público, formando equipe, falo da menopausa há 15 anos, quando ninguém tocava no assunto.”