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Cinema

Filme criado por IA estreia no Tribeca

Exibida em Nova York, produção utiliza ferramentas de inteligência artificial para retratar episódios que ocorreram durante manifestações no Irã
Por O Correio de Hoje
24/06/2026 | 14:59

Uma produção sobre a repressão a manifestações no Irã transformou-se em um dos assuntos mais comentados do Festival de Tribeca, em Nova York, ao se tornar o primeiro longa-metragem totalmente gerado por inteligência artificial a integrar a programação de um grande festival internacional de cinema.

Intitulado Dreams of Violets (“Sonhos de Violetas”, em tradução livre), o filme tem 75 minutos de duração e foi concebido pelos irmãos iranianos Ash Koosha e Pooya Koosha. A obra retrata episódios ocorridos durante a repressão do governo iraniano a protestos populares e apresenta cenas de confrontos, disparos, incêndios, explosões e famílias impactadas pela violência.

IA Copia
“Dreams of Violets” tornou-se o primeiro filme produzido por inteligência artificial a integrar a programação de um grande festival - Foto: divulgação

Embora a narrativa seja ambientada em Teerã, nenhuma das imagens foi captada no Irã. Também não houve gravações convencionais, utilização de atores, construção de cenários ou operação de câmeras. Todo o material visual foi desenvolvido com recursos de inteligência artificial a partir de um apartamento em Londres.

A ideia surgiu após Ash Koosha acompanhar à distância os acontecimentos em seu país de origem. O cineasta estava na capital britânica quando a internet foi interrompida em Teerã durante a repressão aos manifestantes. Algumas fotografias e vídeos conseguiram sair do país, mas, segundo ele, havia a percepção de que boa parte da realidade permaneceria desconhecida.

Koosha deixou o Irã em 2009 e afirma que o projeto nasceu da necessidade de registrar acontecimentos que, naquele momento, enfrentavam obstáculos para serem documentados.

“A velocidade importa aqui, certo?”, disse Ash Koosha, cineasta estreante que deixou o Irã em 2009.

“Jornalistas estão se esforçando para verificar os fatos. Organizações humanitárias estão se esforçando e artistas estão se esforçando. Todos tentando contar a história.”

Segundo o diretor, o longa funciona como uma homenagem em um contexto em que a atividade jornalística encontrava limitações para registrar os acontecimentos.

De acordo com o estúdio Fountain 0, responsável pela produção, Dreams of Violets é o primeiro longa-metragem criado integralmente com inteligência artificial a ser selecionado para um grande festival de cinema.

Além de escrever o roteiro, Ash Koosha estruturou todo o fluxo de produção baseado em ferramentas de IA. O método permitiu que texto e imagens fossem desenvolvidos simultaneamente, reduzindo etapas tradicionais da realização cinematográfica.

Segundo o diretor, o processo envolvia gerar sequências, avaliá-las e reconstruí-las quantas vezes fossem necessárias.

“Você tem 30 minutos de filme com a cor corrigida, pronto para usar”, disse Koosha. “E aí você pensa: ‘Não gostei’. Então volta e faz de novo.”

Ele afirma que, nas etapas finais, precisou alterar duas cenas que já não o satisfaziam. As mudanças levaram aproximadamente uma hora para serem concluídas.

O produtor executivo Tom Rogers informou que o orçamento total ficou em torno de US$ 2 mil, valor equivalente a cerca de R$ 10 mil. O montante é considerado extremamente reduzido quando comparado aos custos habituais de uma produção cinematográfica tradicional.

INTERTÍTULO: Reações divididas

A estreia em Manhattan reuniu uma plateia numerosa e provocou debates após a exibição. Muitos espectadores permaneceram nos arredores da sala discutindo o resultado artístico e os possíveis impactos da tecnologia sobre o futuro do audiovisual.

As opiniões variaram. Parte do público afirmou que era evidente que as cenas haviam sido produzidas por inteligência artificial. Outros relataram surpresa com o grau de realismo alcançado por determinadas imagens.

O cineasta Andres Ramirez avaliou que algumas sequências tinham aparência semelhante aos “gráficos do início do PlayStation 2” e classificou determinados momentos como “cartunescos”. Ele também observou que as reações emocionais dos personagens nem sempre transmitiam naturalidade.

Ainda assim, considerou que a produção tende a ser uma das mais comentadas do festival. Mesmo entre os críticos dos efeitos visuais, houve reconhecimento de que a tecnologia ofereceu uma alternativa para abordar um tema de difícil documentação.

INTERTÍTULO: Debate sobre a IA

A chegada da inteligência artificial ao cinema continua dividindo opiniões em Hollywood e em outras áreas da indústria do entretenimento.

Entre os defensores da tecnologia está Jane Rosenthal, cofundadora do Festival de Tribeca. Ela participou recentemente de iniciativas ligadas ao uso de IA em produções audiovisuais, incluindo uma versão aprimorada de O Mágico de Oz apresentada na Sphere, em Las Vegas.

Ao comentar o avanço dessas ferramentas, Rosenthal afirmou:

“Ele usa o que conhece, a tecnologia que tem disponível como sua forma de se expressar.”

Sobre o crescimento da inteligência artificial no setor, acrescentou:

“Pandora saiu da caixa. Precisamos aprender a usá-la.”

Enquanto parte da indústria vê a IA como uma evolução inevitável, outros profissionais demonstram preocupação com possíveis impactos sobre empregos e funções tradicionalmente exercidas por roteiristas, artistas visuais, técnicos e demais trabalhadores do setor.

As discussões sobre proteção contra o uso indiscriminado da tecnologia estiveram entre os principais temas das greves de profissionais de Hollywood em 2023.

Apesar das resistências, o uso da inteligência artificial tem avançado. Um exemplo recente foi a apresentação de Hell Grind, filme de 95 minutos criado com IA e exibido no Marché du Film, mercado cinematográfico ligado ao Festival de Cannes.

Em uma conferência promovida pelo sindicato dos produtores, um palestrante perguntou aos participantes quantos já haviam recebido pedidos para incorporar inteligência artificial aos seus trabalhos. Aproximadamente três quartos da plateia levantaram a mão.

Ainda neste mês, Jane Rosenthal participará como jurada de um festival dedicado exclusivamente a produções desenvolvidas com inteligência artificial, previsto para ocorrer em Nova York e Los Angeles.

Entre os espectadores presentes na estreia estava Renata Plaut, que afirmou ter comparecido ao evento motivada pela curiosidade em relação aos aspectos técnicos da produção. Para ela, o filme demonstrou que a inteligência artificial pode ocupar espaço legítimo no setor de entretenimento.