O empresário Roberto Serquiz, dos segmentos de água mineral e reciclagem, foi eleito nesta semana presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), para suceder o atual mandatário, Amaro Sales, a partir de 31 de outubro de 2023. Nesta entrevista ao AGORA RN, Serquiz destaca o fato de ter sido escolhido por unanimidade para ocupar o posto e atribui sua eleição ao diálogo.
Ele diz, ainda, como pretende se relacionar com as gestões do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), da governadora Fátima Bezerra (PT) e dos prefeitos, e destaca que quer conversar com todas as instituições, independentemente da orientação ideológica do governante.

Confira a entrevista na íntegra:
AGORA RN – A quê o senhor atribui a sua eleição para a presidência da Fiern?
ROBERTO SERQUIZ – A eleição por unanimidade fortalece a unidade e o espírito da classe industrial. Fiquei muito grato. A vitória verdadeira se agiganta quando é repartida por muitos. O presidente Amaro Sales vai deixar um legado. Ele ainda tem alguns projetos para entregar, e nós vamos dar continuidade para termos uma indústria mais forte e mais coesa e para ampliarmos as bases sindicais, aproximar a indústria dos serviços (Sesi, Senai, IEL) e, ao mesmo tempo, pensarmos juntos o avanço de cada sindicato, trazendo novas empresas para a base sindical, aumentar esse leque de empresas na Casa da Indústria.
AGORA RN – O senhor esperava articular com a oposição a sua eleição?
SERQUIZ – Meu perfil é sempre de conversa. Com todos. Não tenho restrição, não tenho barreiras. Busco sempre estar ali próximo aos colegas. Essa é minha história dentro da Fiern. São 30 anos lá dentro. Essa unanimidade se deu através do diálogo, que é minha marca. Sempre dialogando. Não vou chamar de oposição. O entendimento prevaleceu, e o resultado foi esse.
AGORA RN – Existe compromisso de apoiar o candidato da oposição na próxima eleição?
SERQUIZ – Não existe combinado neste sentido. Não devemos falar isso agora. Na conversa que tivemos, não entrou compromisso de apoiar A ou B. Essa questão de compromisso de A e B não foi pactuada. O que surgiu foi: você consegue mudar o estatuto para mandato único? Veja bem, isso não depende de mim. Depende do colegiado, de uma assembleia. Se você olhar para o exemplo que tenho dentro da Federação, esse é meu entendimento.
AGORA RN – É viável debater o mandato único na Fiern?
SERQUIZ – Não tem como não debater. Eu vou colocar meu posicionamento, vou dar minha opinião. Mas é preciso compreender o que cada um pensa. Fui eleito presidente da Federação, mas vou ser o líder para fazer uma gestão participativa. Vou ser o líder com os líderes e não para os líderes. Vou trabalhar com todos. Recebendo as dificuldades, demandas de cada setor, buscando colaborar. Meu projeto é institucional, para a indústria. Estou pensando na indústria e não no Roberto.
AGORA RN – O que pretende fazer de diferente do seu antecessor?
SERQUIZ – A minha bandeira é institucional. O presidente Amaro está deixando um legado. Fez uma reestruturação física, funcional e de perfil no Sistema S do RN. Você tem hoje unidades modernas atendendo a indústria. O CT-GAS/ER é um instituto referência para o País, com laboratórios e quadro docente de alto nível. No campo das energias renováveis, o Brasil faz pesquisas e calibragem dos equipamentos no CT-GAS. O CT-GAS tem um túnel de vento, o único do País, que tem um equipamento chamado anemômetro, que mede a intensidade e o volume do vento. Tem um laboratório simulador de altura, que faz todo treinamento de pessoal para trabalhar na altura, porque os aerogeradores são 180 a 200 metros de altura.
Existe um trabalho de pesquisa de biomassa que transforma a glicerina em querosene de aviação. Isso se faz aqui no RN. Tem também o instituto de inovação em Mossoró, o início de um trabalho muito importante. Essa é uma meta que tenho que perseguir, que é a questão da educação.
E a Fiern na unidade em São Gonçalo do Amarante hoje é a primeira escola que já está aplicando o novo modelo do MEC, do Ministério da Educação e Cultura. Como é esse modelo? O garoto faz ensino médio, de 12 a 15 anos. Terminou o ensino médio, ou continua lá na escola para se preparar para o Enem ou ele vai para o CT-Gás exatamente para esse trabalho de profissionalização. Mecânica, eletricidade, energia renovável. Eu pretendo ampliar esse processo de focar na educação profissionalizante. Esse nicho que Amaro está deixando eu pretendo prosseguir e avançar. Melhorar o que tiver de melhorar, ampliar o que tiver de ampliar e desenvolver novos projetos, porque a economia é dinâmica e cada época traz cenários diferentes.
AGORA RN – O que o senhor pretende mudar na gestão da Fiern?
SERQUIZ – Vai ser uma gestão profissional. Meu compromisso é institucional. Nós vamos trabalhar uma gestão para o resultado. Mas, para isso, eu preciso definir um tipo de postura, de conduta, que leve ao que nós almejamos. Vou conversar com o presidente Amaro na próxima semana para ver os espaços. Ele vai estar presidente até outubro. Nós já começamos. Temos um bom relacionamento. Eu estou aqui com ele há 12 anos. Vou fazer aquilo que eu preciso fazer para poder chegar naquilo que eu pretendo.
AGORA RN – O senhor pretende cortar cargos?
SERQUIZ – A Federação já está bem enxuta. Essa questão de cortar cargos eu tenho que avaliar. Se tiver excesso, preciso avaliar. Quando o presidente assumiu a Federação da Indústria, ele fez um trabalho de redução muito forte. Foi toda uma adequação de acordo com a realidade, inclusive de receitas. Hoje nós temos 50% do que tínhamos quando o presidente assumiu. Acredito que não tem muita coisa para fazer nesse sentido não.
AGORA RN – O senhor foi tesoureiro da Fiern. Como estão as finanças da Federação hoje?
SERQUIZ – A Federação da Indústria está com capacidade de liquidez, um superávit. Não tem problema de desequilíbrio. A gente está bem organizado. Lembrando que sou tesoureiro da Fiern. Eu não estou tesoureiro do Sistema S. Meu orçamento administrado anualmente gira em torno de R$ 6 a 7 milhões.
AGORA RN – O senhor pretende alterar o relacionamento com os sindicatos?
SERQUIZ – Todos os presidentes já têm acesso direto. O que eu pretendo fazer? Criar um ambiente para que esses sindicatos possam ampliar a base sindical, porque temos muitos empresários, muitas indústrias no RN que não estão filiadas aos sindicatos. Vou dar essa condição para que os presidentes possam ampliar suas bases. Eu sou do setor da reciclagem e da água mineral. Isso aí eu domino. Mas quais são os problemas da panificação, da construção, da indústria têxtil? Tem que vir de lá para cá. Nós temos que dar o apoio a cada um dos sindicatos a partir do momento que nos demandarem.
AGORA RN – A Fiern sempre atuou como voz independente na defesa dos interesses da indústria e também dos interesses econômicos aqui do RN. Como o senhor pretende caracterizar a sua gestão em relação aos governos Federal, Estadual e municipais?
SERQUIZ – Meu projeto é institucional. Então, eu pretendo conversar com todas as instituições. A Federação da Indústria tem uma missão e está posta no estatuto: promover e defender. O que nós queremos no Estado, no município e do ambiente federal é focar na missão que está sendo concedida. O diálogo é importante, mas ele precisa ter a independência. Estado e Federação precisam dialogar, porque existem dificuldades no setor público e no setor privado. Você tem que colocar isso na mesa e dizer: onde nós podemos caminhar juntos dentro da legalidade? O que nós precisamos deixar bem claro é que a minha linha é a seguinte: nós não precisamos de proteção. Nós precisamos de assistência.
AGORA RN – O senhor já tem pautas para conversar com o poder público?
SERQUIZ – Eu vou iniciar em outubro. Hoje existe esse ambiente de diálogo permanente com o governo. Então a instituição já tem uma estrada pavimentada. E a gente pretende percorrer essa mesma filosofia de diálogo. Dentro da independência e olhando para os interesses da indústria.
‘Prefiro ter mais esperança do que expectativas sobre próximo governo’
AGORA RN – O que o senhor considera que foram avanços para a indústria na gestão do presidente Jair Bolsonaro que devem ser mantidos ou aperfeiçoados pelo presidente eleito Lula a partir do ano que vem?
SERQUIZ – Não quero gerar nenhuma expectativa nessa questão política. Eu prefiro ter esperança. Não expectativa, e sim esperança. A expectativa que eu vou ter agora pode me trazer um sentimento de frustração. Prefiro torcer para que dê certo. O Brasil vai completar 20 anos do primeiro mandato de Lula.
O que nós precisávamos ter feito lá em 2002, que não foi feito, foram as reformas. Quando o Lula assumiu em 2002, o país estava com instabilidade econômica. Ali era um ambiente propício para se fazer as reformas trabalhista, previdenciária, tributária e administrativa. O que aconteceu no País? Não foi feito. Priorizou-se cada vez mais as commodities. No PIB, a participação da indústria é menor. Não é desprestigiar a commodity, que é importante. Mas também ela precisa ser atualizada. Nós exportamos muita in natura. Muitas vezes a gente coloca o produto para lá (exterior) e recebe ele beneficiado. Então, esse lado também precisa ser revisto. Mas do ponto de vista da indústria, as reformas são importantíssimas.
Nós fizemos a trabalhista com o Michel Temer e fizemos a a previdenciária com Jair Bolsonaro. Não foi o que se queria, mas foi o possível. Mas nós estamos falando de 20 anos. Então, agora nós temos a possibilidade de dar um giro. Já que não foi feito lá atrás, agora que se faça a tributária e a administrativa. O que acontece na questão tributária? Você tem um excesso de normas, de alíquotas, e isso cria um contencioso. Você vê que a quantidade de ações em vários votos no STF sobre o PIS sobre Cofins… Porque existe um excesso de norma, excesso de alíquotas. É preciso ser revisto isso para que essa indústria possa também criar a sua retomada.
AGORA RN – Quais devemser as prioridades do novo governo?
SERQUIZ – Na reforma tributária, tem duas PEC que estão, ao meu ver, prontas para serem aprovadas. E eu torço para que não só o governo como os congressistas possam ter essa essa percepção de urgência. Você tem uma simplificação, pela PEC 110, que é simplificar o imposto de valor agregado, condensar em um único imposto. E existe a PEC 43. É preciso ver também que, na hora que você cria um imposto único, você tem que compensar a perda do estado. Então essas duas PECs estão amadurecidas. Elas precisam da compreensão dos congressistas para que a gente possa aprovar a reforma tributária. Resumo: prefiro ter mais esperança do que expectativas, porque se, em 20 anos, só foram feitas duas reformas, e nenhuma delas no governo Lula, eu espero que, quando Lula entrar, ele empate o jogo ou ganhe dos outros dois governos.
AGORA RN – Sobre as questões sociais, qual a sua leitura?
SERQUIZ – As políticas sociais são importantes. Não há como negar que você tem 50 milhões de brasileiros precisando de apoio para comer. Isso não é uma coisa qualquer. Mas é preciso que dê o auxílio para a pessoa respirar, mas que tenha ambiente de desenvolvimento para que as pessoas não fiquem dependentes disso.
AGORA RN – Qual a sua visão sobre a situação econômica do Rio Grande do Norte e o relacionamento da Fiern com o Governo do Estado?
SERQUIZ – Nesse diálogo do primeiro mandato da governadora Fátima Bezerra com a Federação, tivemos alguns avanços do ponto de vista normativo. Tivemos o Proedi, que foi muito importante. Tivemos a Lei do Gás, muito importante. Marco da Inovação… Avançamos nessa parte normativa. Mas não avançamos na questão da infraestrutura. O Rio Grande do Norte tem uma economia diversificada e capilarizada. O RN produz 95% do sal marinho para o País. Temos um polo da fruticultura, de frutas tropicais em Assu Mossoró. Temos a região de Apodi, maior exportador de melão do Brasil. Temos no Seridó ferro e tungstênio. Temos essa retomada do petróleo e do gás, através dessa mudança dos produtores independentes substituindo a Petrobras. Temos o potencial da pesca e o maior volume de cardumes de atum.
AGORA RN – Como vê o cenário de infraestrutura do Estado?
SERQUIZ – Temos um cenário para uma economia diversificada, capilarizada, mas precisamos de uma infraestrutura. Não temos estradas, não temos parques industriais. Eles precisam ter uma urbanização. E dois instrumentos que atrapalham muito a economia do Estado, e são coisas que vou colocar de forma muito clara: porto e aeroporto.
Fala-se em construir porto. Foi feito um estudo e, em determinado momento, perguntei quanto era. R$ 7 bilhões. O Estado não tem capacidade financeira para fazer. Então precisa, paralelo a isso, aprovar as leis de concessões de parceria público-privada (PPP). Se não aprovar, você não vai ter o recurso para construir. O novo porto é essencial para as energias renováveis offshore e toda essa parte para que a economia do mar possa expandir. Não é só a questão da energia, tem toda uma riqueza no mar, a famosa economia azul. Temos esse potencial, mas é preciso um porto. Nosso porto está completamente ultrapassado.
Não tem estrutura. Temos que buscar soluções para estes problemas estruturais e isto é desenvolvimento. Se esse porto está inviabilizado, e o aeroporto não viabilizar, estamos escoando a economia por Pecém e Suape. O aeroporto, quando estava na parte de construção, pensou-se em criar uma área de livre comércio e eu acho que essa é uma solução que poderia ser amadurecida. Quando você cria uma área de livre comércio, você tem geração de empresas que podem viabilizar o aeroporto, como acontece com nossos vizinhos, como Pernambuco.
AGORA RN – Como o Rio Grande do Norte pode retomar a industrialização? De que maneira isso pode ser feito? É possível atrair novas indústrias ao Estado?
SERQUIZ – O investidor vem para o RN a partir do momento em que o ambiente de negócios é favorável. Não digo de assistência. No exemplo da energia eólica, o RN gera 25% da energia eólica renovável do País. Mas isso é feito porque nós temos os melhores ventos e melhores condições. Mas se tivéssemos uma resolução que desse segurança, estaríamos em uma situação muito melhor. Se a gente der um ambiente que seja mais receptivo, nós vamos ter as empresas chegando aqui com mais investimentos no RN. Quando a gente avançou no Proedi, na lei da inovação, na Lei do gás, foram avanços.
AGORA RN – O ambiente de negócios favorável passa pela infraestrutura, por questões tributárias e de incentivos? A falta de algum desses itens pode impedir esse ambiente favorável?
SERQUIZ – Do ponto de vista tributário, temos Proedi. Não temos do que reclamar. Ele é atualizado e competitivo. Da Lei do Gás, também nesse ambiente. Nós precisamos avançar em outros setores. Uma coisa é falar do incentivo. Mas, para licenciar os grandes investimentos, você precisa ter um ambiente favorável. E esse ambiente favorável passa por resoluções que deem condições para que um técnico, na hora do licenciamento, possa ter um guia. A resolução é um guia.
AGORA RN – Como é possível ter mais segurança jurídica para os negócios?
SERQUIZ – Tendo resoluções claras do que pode ou não pode. Isso é na área de construção civil, nas energias renováveis, em todos os setores. Então, precisamos ter regras claras como aconteceu agora no Plano Diretor de Natal. Conseguimos avançar. Não é aquilo que se queria, mas se avançou e estamos começando a ver essa movimentação na área da construção e já aparecem alguns lançamentos.
AGORA RN – A chegada do 5G deve mudar todo o comportamento da indústria. Como o RN está se preparando para isso? Quais os desafios em termos de reformulação da indústria em relação a essa nova tecnologia?
SERQUIZ – Se olharmos a cronologia, na década 1970 houve a mecanização. Na de 1980, a automação. Na de 1990, a informatização. Passamos pela digitalização e agora é a hora da robotização, da indústria 4.0. A chegada do 5G vai acelerar a melhoria de produção na questão da implantação da indústria 4.0, que vai trazer a robotização para processos. Evolução importante e vejo que a indústria está de olho. Ela é muito importante para que possamos dar esse passo no processo evolutivo