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Carros

Bateria pesa na compra de carros elétricos

Com híbridos e elétricos em expansão, bateria deixa de ser detalhe técnico e passa a influenciar compra, pós-venda e avaliação de seminovos no RN
Por O Correio de Hoje
03/06/2026 | 15:50

A bateria virou a pergunta central na compra de um carro eletrificado no Rio Grande do Norte. Antes, o consumidor queria saber principalmente sobre motor, consumo, preço, design, conforto e valor de revenda. Agora, com o avanço dos híbridos, plug-in e elétricos, a decisão passou a carregar uma nova camada de dúvidas: autonomia real, tempo de carregamento, vida útil, garantia, custo de substituição, degradação, software, pós-venda e segurança na revenda. O carro mudou. E, com ele, mudou também o cálculo de quem compra, vende, revisa ou avalia um seminovo.

O movimento acompanha uma transformação nacional. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, o Brasil fechou 2025 com 223.912 veículos leves eletrificados vendidos, alta de 26% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o mercado total de veículos leves cresceu 2,6%. Mas, no balcão das concessionárias e no pátio das lojas multimarcas, esse crescimento vem acompanhado de uma constatação comum: a bateria é hoje o principal ponto de confiança — ou de insegurança — do consumidor.

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Concessionárias relatam que bateria, autonomia, software e garantia passaram a pesar na decisão de compra dos eletrificados- Foto: Divulgação

Novo medo está sob o assoalho

Para Álvaro Crisanto, presidente da Anreve, Associação Norte-Riograndense de Revendedores de Veículos, esse impacto já chegou ao mercado de seminovos em Natal. Segundo ele, os híbridos leves e plug-ins têm boa penetração, enquanto os elétricos 100% ainda aparecem em menor volume, mas crescem à medida que a venda do zero quilômetro começa a abastecer o mercado de usados.

“Os híbridos leves e plug-ins já estão com uma boa penetração no mercado. Os elétricos 100% ainda representam menor volume, mas crescem rápido porque houve explosão de vendas de zero quilômetro neste ano. E a venda do zero quilômetro abastece o mercado de seminovos com o passar do tempo”, afirma.

No seminovo, porém, a bateria pesa de forma ainda mais sensível. O comprador quer saber como o carro foi usado, como foi recarregado, quanto ainda entrega de autonomia e se a garantia permanece válida.

“O principal receio é bateria: custo de substituição e degradação. O consumidor médio ainda não entende bem vida útil, garantia e perda de autonomia. Mas a garantia de até oito anos minimiza esses impactos”, diz Álvaro.

A preocupação tem lógica. A vida útil de uma bateria não depende apenas da idade do carro. Temperatura, frequência de recarga rápida, nível de carga, profundidade de descarga e perfil de uso influenciam a perda de capacidade ao longo do tempo. Dois carros iguais, do mesmo ano, podem envelhecer de forma diferente se foram carregados e usados de maneiras distintas.

Seminovo carrega histórico invisível

A mudança altera a própria leitura do veículo usado. Antes, o cálculo passava por quilometragem, motor, câmbio, pintura, revisões e procedência. Nos eletrificados, entram fatores menos visíveis e mais técnicos: saúde da bateria, histórico de recarga, autonomia real, software, atualizações e garantia remanescente. O carro passa a carregar uma espécie de histórico invisível, que precisa ser interpretado antes de virar preço.

“A loja multimarcas agora precisa aprender coisas que antes não eram relevantes para avaliação dos carros, como saúde da bateria, histórico de recarga, autonomia real, software e atualizações, garantia remanescente da bateria. Então está mudando completamente as avaliações”, afirma Álvaro.

No mercado de usados, isso já aparece na liquidez. Álvaro afirma que os veículos a combustão ainda têm comportamento mais previsível. Os elétricos premium sofrem desvalorização mais agressiva, enquanto os elétricos de entrada têm procura maior, especialmente entre motoristas de aplicativo e consumidores que rodam muito.

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Consumidor chega mais informado e pergunta sobre vida útil da bateria, recarga, manutenção e valor de revenda – Foto: Divulgação

Venda troca motor por explicação técnica

Nas concessionárias, a bateria também mudou a venda. O vendedor deixou de apresentar apenas potência, design e condição comercial. Agora precisa explicar funcionamento do sistema, tipos de carregamento, custo por quilômetro, autonomia, garantia e perfil de uso.

Na Buda Motors, representante da Mitsubishi em Natal, o gerente geral Leonardo de Medeiros Alves Pereira afirma que vender um eletrificado exige outro nível de preparação.

“Hoje, vender um híbrido ou elétrico exige um nível de preparação técnica e consultiva muito maior do que no veículo tradicional”, diz.

Segundo Leonardo, o consumidor quer economia de curto e médio prazo, mas chega com dúvidas sobre viagens, recarga e manutenção. A bateria aparece em quase todas elas: autonomia para viagens longas, pontos de recarga no RN e nas rodovias, tempo de carregamento, vida útil, valor de revenda, custo de substituição, pós-venda especializado, disponibilidade de peças e prazo de chegada dessas peças.

Para ele, o avanço dos eletrificados é forte, mas o mercado vive uma fase de transição. Os híbridos e elétricos devem ganhar espaço, mas ainda dividirão mercado com veículos a combustão por muitos anos. O ponto decisivo será a capacidade das marcas de sustentar o crescimento com oficina, peças, diagnóstico e pós-venda.

Pós-venda entra antes da compra

A mesma leitura aparece na Motoeste Honda. O gerente de Pós-Venda, Johnata Grilo, afirma que o cliente está mais informado e chega pesquisando mais antes da decisão. Para ele, a chegada dos eletrificados exige mudança em toda a estrutura das concessionárias, especialmente na área técnica.

“A chegada dos eletrificados exige uma mudança importante em toda a estrutura. Não é apenas uma questão comercial”, afirma.

Johnata diz que o pós-venda precisa se preparar para capacitação técnica contínua, atualização de equipamentos de diagnóstico, softwares específicos e protocolos de segurança para sistemas de alta tensão. Na visão dele, a decisão de compra já não termina no produto.

“Hoje a decisão de compra vai além do produto em si; o cliente avalia todo o ecossistema de atendimento e suporte”, afirma.

Esse ecossistema envolve garantia, revisão, peças, treinamento, diagnóstico e capacidade de explicar a tecnologia. Em um carro eletrificado, a bateria não é apenas componente técnico. É argumento comercial, fator de segurança e elemento de fidelização.

Tecnologia tenta reduzir o receio

Na Geely Redenção, em Natal, o gerente Ítalo Rodrigo Andrade de Lima afirma que a confiança precisa ser construída com estrutura local.

“A confiança não é imposta, é construída através de evidências e infraestrutura local sólida”, afirma.

Segundo ele, garantias longas para a bateria ajudam a reduzir o receio do consumidor e tiram parte do risco das costas do proprietário.

A indústria também tenta responder a esses receios com novas químicas e formatos. Baterias LFP, de fosfato de ferro-lítio, ganharam espaço por serem associadas a maior estabilidade térmica e menor custo. A chamada bateria Blade, popularizada pela BYD, usa células alongadas para melhorar aproveitamento de espaço, estrutura e segurança no pacote de baterias.

Na BYD Carmais, o diretor regional Vanderson Oliveira afirma que o test-drive é momento decisivo.

“Após conhecer melhor a tecnologia e realizar test-drives, grande parte dos clientes muda completamente sua percepção. Muitos consumidores se surpreendem positivamente com o desempenho, o conforto, o silêncio na condução e principalmente com a economia no uso diário”, diz.

Experiência vale mais que discurso

A GAC, representada pelo Grupo A. Cândido, também trabalha a confiança como fator central. Para Marcelo Vadalá, diretor no grupo e responsável pelas operações da GAC Motors no Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas, o consumidor deixou de perguntar apenas o que é um elétrico e passou a perguntar qual modelo vale mais a pena para a própria rotina.