O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que não acredita que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixará a disputa pela Presidência da República, apesar das dificuldades enfrentadas dentro do próprio campo político. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada na edição desta segunda-feira 13, Kassab avaliou que o pré-candidato enfrenta problemas decorrentes de conflitos internos envolvendo aliados, mas disse que os bons números nas pesquisas tornam improvável uma desistência.
“Como são pessoas que estão na campanha do Flávio, são atores importantes que estão com problema de relacionamento. A Michelle é esposa do pai do candidato. É possível falar que o candidato não está com problema? Lógico que está. Mas não vejo o Flávio deixando de ser candidato. Os números na pesquisa dele são bons. Por que ele vai deixar?”, declarou.

Anunciado como candidato a vice-presidente na chapa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), Kassab afirmou que o partido não punirá candidatos da legenda que optarem por não apoiar o presidenciável nos estados. Segundo ele, a autonomia das campanhas estaduais é uma característica do sistema político brasileiro e o PSD não pretende impor alinhamento obrigatório.
“A coligação nas eleições majoritárias é uma excrescência do sistema partidário brasileiro. Nós não ficamos com essas teses que, muitas vezes, são para enganar a opinião pública. ‘Olha, se não sair do partido eu expulso, se não sair do governo eu expulso’”, afirmou.
Para Kassab, a ausência de apoio explícito de governadores do PSD — como Raquel Lyra, de Pernambuco, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul — não compromete a campanha presidencial de Caiado. Ele argumentou que as redes sociais reduziram a dependência da estrutura dos candidatos aos governos estaduais e afirmou que o foco da legenda será fortalecer seus projetos regionais.
“Hoje o candidato a presidente não precisa mais da campanha do candidato a governador. Com as redes sociais, ele chega direto aos lugares. Não estamos nos envolvendo na campanha de governador. Se tiver, lógico, é melhor, mas a campanha é de Caiado. E é evidente que, onde o PSD tem um candidato (a governador), estamos apoiando esse candidato”, disse Kassab.
Embora reconheça que Caiado esteja inserido no campo da direita, Kassab afirmou que o ex-governador goiano representa um perfil moderado e acredita que isso poderá diferenciá-lo na disputa presidencial.
“O que diferencia o Caiado é que ele é de uma direita moderada. Ele sempre foi um cara do diálogo, da política. As pessoas vão perceber que para ganhar do Lula, é o Caiado. Críticas não são o que o eleitor quer. O eleitor quer propostas, quer experiências, saber o que o candidato já fez na vida, se foi coisa boa, coisa ruim, se tem experiência de gestão”, acrescentou.
Na avaliação do presidente do PSD, o principal adversário continua sendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas ele afirmou que Caiado teria mais condições de derrotá-lo do que Flávio Bolsonaro. “Com o Caiado, não tem essa rejeição. Flávio tem 51% de rejeição”.

Master, tarifaço e economia
Kassab também comentou os possíveis reflexos eleitorais do caso Master, investigação que envolve o entorno político de Caiado. Segundo ele, o eleitor está mais preocupado com o futuro do que com investigações em andamento e cabe às instituições conduzirem os processos.
“O eleitor está olhando para frente. Todas essas questões são resolvidas pela Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário. O candidato tem que se manifestar, e o Caiado tem feito isso. Pelo respeito às instituições, ele aguarda que punições sejam dadas, para aqueles que fizeram malfeitos”, argumentou.
Sobre a atuação de Flávio e Eduardo Bolsonaro durante a crise provocada pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, Kassab fez críticas à postura da família Bolsonaro. Segundo ele, Eduardo errou ao apoiar inicialmente a medida e Flávio não conseguiu reverter o desgaste político.
“Prejudicou a imagem da família Bolsonaro. Desde o primeiro momento, o Eduardo deu um passo errado, com o apoio da família, a favor do tarifaço. Ele influenciou para que houvesse tarifaço. E agora o Flávio está correndo atrás do prejuízo, está procurando se recuperar, mas não consegue. Ele foi pedir um adiamento. Como adiamento? Então ele está de acordo? Tem que manifestar a sua discórdia, a sua repulsa. Para todos nós, é inadmissível essas medidas”, enfatizou.
Na área econômica e trabalhista, Kassab declarou ser favorável ao fim da escala de trabalho 6×1, mas defendeu que a mudança ocorra de forma gradual.
“Sou a favor, mas acho que está sendo muito acelerada essa discussão para um tema de tanta relevância, principalmente em alguns setores que publicamente têm dito que vai provocar desemprego, inflação, prejudicar o trabalhador. Vamos deixar claro que não é eleitoreira. Se não for eleitoreira, a transição precisa ser discutida com mais calma”, contou.
O presidente do PSD também fez duras críticas ao atual modelo de emendas parlamentares. Para ele, o volume de recursos reservado no Orçamento é incompatível com as necessidades de investimento do país e deveria ser incorporado à programação do Poder Executivo.
“Sou radicalmente contra as emendas. Precisamos de um outro modelo. É um absurdo R$ 60 bilhões para o ano. Dá para construir duas linhas de metrô completas por ano numa cidade como São Paulo. Falo isso de uma maneira muito respeitosa, mas falo isso na minha bancada, falo em todos os lugares: não tem como continuar, qualquer que seja o presidente da República. Se continuarem, que sejam aplicadas nos respectivos orçamentos, no programa do Executivo, seja ele municipal, estadual ou nacional”, emendou.
Por fim, Kassab afirmou que os candidatos à Presidência deveriam assumir posição clara sobre o tema durante a campanha.
“Acho que quem quer ser presidente da República tem que deixar claro se é a favor que continue assim ou é contra. Eu defendo que o Caiado seja contra o modelo. Pode até continuar (a existir), mas não dá para ficar como está”, encerrou.