Um ensaio fotográfico criado inicialmente para celebrar o Mês da Mulher transformou-se em uma iniciativa voltada ao fortalecimento dos vínculos familiares de pacientes em cuidados paliativos atendidas por um instituto de Natal. Batizado de “Memórias e Afetos”, o projeto reuniu quatro mulheres em tratamento e seus familiares em uma nova sessão de fotos, com o objetivo de registrar momentos de convivência, acolhimento e reforçar a compreensão sobre o papel dos cuidados paliativos na promoção da qualidade de vida.
A proposta surgiu em março, quando as pacientes participaram de um ensaio fotográfico voltado à valorização da autoestima feminina. A repercussão positiva da experiência levou a equipe multidisciplinar responsável pelo acompanhamento das mulheres a ampliar a iniciativa, desta vez incluindo familiares nas fotografias para estreitar os laços afetivos durante o tratamento.

Uma das participantes é Juliana, que realiza tratamento contra um câncer de pâncreas. Ela afirma que o projeto modificou sua rotina e também a forma como passou a enxergar os cuidados paliativos. “Renovou os nossos laços com nossos parentes, que cada um fez com um parente, e a gente pôde viver esse momento muito bonito. A gente se sentiu única e especial. E para mostrar que a gente também merece viver, merece ser feliz, ter uma qualidade de vida.”
Segundo a psicóloga responsável pelo acompanhamento do grupo, Fernanda Félix, a adesão das pacientes foi imediata após a apresentação da proposta. Ela explica que o encontro para apresentar o projeto foi organizado de forma surpresa e acabou se transformando em um momento de integração entre pacientes e familiares. “Houve esse momento de muitos risos, brincadeiras, conexão, afeto, foi um momento incrível.”
Além do fortalecimento dos vínculos familiares, o projeto também busca combater o preconceito ainda existente em torno dos cuidados paliativos. A equipe responsável pelo atendimento explica que muitas pessoas associam esse tipo de assistência apenas ao fim da vida, quando, na realidade, trata-se de uma abordagem voltada para reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida durante todo o processo de adoecimento.
De acordo com a médica paliativista que acompanha as pacientes, o atendimento é desenvolvido por uma equipe multiprofissional formada por médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e outros profissionais, permitindo um acompanhamento amplo tanto do paciente quanto da família.
“O cuidado paliativo é uma abordagem holística e que visa a melhora da qualidade de vida e a dignidade de quem está enfrentando. E para que a gente consiga exercer isso da melhor forma, a gente não pode ser só com o médico, tem que ser com uma equipe multidisciplinar. Então é todo um arsenal de uma equipe, fisioterapeuta, psicólogo, agente social, médico, nutricionista, que monta esse planejamento que vai ajudar esse paciente e essa família a enfrentar o processo de adoecimento, seja ele com uma proposta curativa ou não.”
O acompanhamento também promove a convivência entre as próprias pacientes, que encontram no grupo uma rede de apoio durante o tratamento. Segundo a equipe, essa troca de experiências contribui para enfrentar os desafios impostos pela doença e fortalece o sentimento de pertencimento.
Entre as participantes está Verônica, que iniciou o tratamento de um câncer de mama em 2018 e, posteriormente, recebeu o diagnóstico de metástase hepática. Ela afirma que a experiência com os cuidados paliativos transformou sua forma de enxergar a vida.

“Hoje eu vejo a vida de uma forma que eu não via antes. Do câncer eu vejo totalmente diferente, com mais vontade de viver. E que o tratamento paliativo está aí para nos esperançar por uma vida melhor, por um tratamento melhor. Não é fácil, porque eu estou nessa luta desde 2018. Começou com a mama e agora é metástase hepática. Mas vivo cada dia cheio de esperança.”
Para a equipe responsável pelo projeto, iniciativas como o “Memórias e Afetos” mostram que os cuidados paliativos vão além do tratamento clínico. A proposta busca oferecer acolhimento emocional, fortalecer os laços familiares e ampliar a compreensão de que esse modelo de assistência pode estar presente em diferentes fases do tratamento, com foco na dignidade, no conforto e na qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares.