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Crise humanitária
Afegãos em fuga desesperada invadem aeroporto de Cabul e se agarram a aviões após Talibã tomar poder
Tumulto deixa cinco mortos no aeroporto durante retirada de estrangeiros
O Globo
16/08/2021 | 12:12

Ao menos cinco pessoas morreram durante o tumulto no aeroporto de Cabul nesta segunda-feira, segundo testemunhas, enquanto soldados americanos faziam a segurança do perímetro para acelerar a retirada de seu pessoal diplomático. Centenas de afegãos foram para o aeroporto em busca de voos de fuga, um dia após o Talibã retomar o poder quase 20 anos após a invasão americana em outubro de 2001.

Não está claro quem são as vítimas ou como elas morreram, mas vídeos de autenticidade não confirmada mostram ao menos duas pessoas caíndo de um avião militar americano após se esconderam na roda ou nas asas da aeronave. Um funcionário do governo americano também confirmou à Reuters que soldados do país atiraram para o alto para tentar conter pessoas que tentavam embarcar à força em voos militares exclusivos para diplomatas e funcionários da Embaixada dos EUA.

Multidão tenta escapar do Talibã pelo aeroporto de Cabul, nesta segunda-feira (16 de agosto). Segundo o jornal inglês
Multidão tenta escapar do Talibã pelo aeroporto de Cabul, nesta segunda-feira (16 de agosto). Segundo o jornal inglês

Em meio ao caos, um funcionário da Secretaria de Defesa americana disse a Reuters que todas as decolagens foram suspensas em Cabul na tarde desta segunda (manhã de segunda, horário do Brasil) para que a pista fosse esvaziada. Ainda não está claro por quanto tempo a paralisação irá durar.

A multidão começou a se dirigir para o Aeroporto Internacional Hamid Karzai ainda antes do dia escurecer no domingo, tentando embarcar em um dos últimos voos comerciais antes que eles fossem cancelados. Durante a noite, os americanos anunciaram que assumiriam o controle do tráfego áereo e, segundo a Otan e a Autoridade de Aviação Civil afegã, apenas voos militares têm autorização para operar no país.

Dezenas de pessoas pularam muros e cercas enquanto soldados americanos, muitos com armas em punho, protegiam a evacuação de seu pessoal. Conforme os voos se preparavam para decolar, as pessoas se agarravam aos lados de aviões militares mesmo enquanto taxiavam na pista.

Passageiros afegãos ocupam a pista do aeroporto de Cabul em tentativa de fugir do país Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Passageiros afegãos ocupam a pista do aeroporto de Cabul em tentativa de fugir do país Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Afegãos sobem em avião comercial para tentar escapar após Talibã retornar ao poder quase 20 anos após invasão americana Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Afegãos sobem em avião comercial para tentar escapar após Talibã retornar ao poder quase 20 anos após invasão americana Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Soldado dos EUA aponta arma para afegão que tenta embarcar no aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Soldado dos EUA aponta arma para afegão que tenta embarcar no aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Voluntário carrega homem ferido, enquanto pessoas que esperam para tentar fugir do Afeganistão observam Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Voluntário carrega homem ferido, enquanto pessoas que esperam para tentar fugir do Afeganistão observam Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Combatentes do Talibã montam guarda em um veículo ao longo da estrada em Cabul Foto: - / AFP
Combatentes do Talibã montam guarda em um veículo ao longo da estrada em Cabul Foto: – / AFP
Soldado dos EUA aponta arma para passageiro afegão no aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Soldado dos EUA aponta arma para passageiro afegão no aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Soldados dos EUA montam guarda enquanto o povo afegão espera chance de embarcar em voo de fuga Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Soldados dos EUA montam guarda enquanto o povo afegão espera chance de embarcar em voo de fuga Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Passageiros afegãos sentam-se dentro de um avião enquanto esperam para deixar o aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP
Passageiros afegãos sentam-se dentro de um avião enquanto esperam para deixar o aeroporto de Cabul Foto: WAKIL KOHSAR / AFP

Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, cuja autenticidade não pôde ser confirmada, é possível ver três corpos no chão, perto do que aparenta ser uma entrada lateral. Outra testemunha disse ter visto cinco corpos. Na noite de domingo, mais de 60 países emitiram um comunicado conjunto no domingo pedindo que os afegãos e cidadãos de outros países que queiram deixar o Afeganistão possam poder fazê-lo sem impedimentos.

Os Estados Unidos abriram mão de sua grande base militar em Bagram, a cerca de 60 km ao norte da capital, há semanas, em uma etapa da retirada de suas tropas do país. Logo, o aeroporto de Cabul é a única rota de fuga para os americanos, algo que causa ira em muitos afegãos:

— Esse é o nosso aeroporto, mas nós estamos vendo diplomatas serem evacuados enquanto nós esperamos na incerteza completa — disse Rakhshanda Jilali, ativista de direitos humanos, à Reuters.

Imagem mais moderada

O caos no aeroporto vem horas após o Talibã afirmar que a “guerra chegou ao fim” e emitir uma série de comunicados afirmando que seus soldados foram ordenados a não atirar ou atacar ninguém. Em seu Twitter, o porta-voz Suhail Shaheen disse que “a vida, a propriedade e a honra de ninguém deve ser prejudicada, mas sim protegida”.

O avanço do Talibã até Cabul, no entanto, praticamente não enfrentou resistência militar. Seus combatentes chegaram às portas da capital no domingo, após uma ofensiva relâmpago de menos de duas semanas em que tomaram o controle de todas as principais cidades do Afeganistão, às vésperas da conclusão da retirada das forças dos EUA e de seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), prevista para 31 de agosto.

Fuzileiro naval dos EUA se protege de ataque do Talibã, na província de Helmand, no Afeganistão Foto: GORAN TOMASEVIC / REUTERS - 18/05/2008
Fuzileiro naval dos EUA se protege de ataque do Talibã, na província de Helmand, no Afeganistão Foto: GORAN TOMASEVIC / REUTERS – 18/05/2008
Militar da Marinha dos EUA tenta proteger afegão com o filho durante confronto com Talibã, no distrito de Nad Ali, província de Helmand, Afeganistão Foto: GORAN TOMASEVIC / REUTERS - 13/02/2010
Militar da Marinha dos EUA tenta proteger afegão com o filho durante confronto com Talibã, no distrito de Nad Ali, província de Helmand, Afeganistão Foto: GORAN TOMASEVIC / REUTERS – 13/02/2010
Talibãs fortemente armados são vistos em local não revelado no Afeganistão Foto: STRINGER / REUTERS - 16/01/2009
Talibãs fortemente armados são vistos em local não revelado no Afeganistão Foto: STRINGER / REUTERS – 16/01/2009
Soldados afegãos assistem a várias explosões de bombardeios dos EUA nas montanhas Tora Bora, no Afeganistão Foto: ERIK DE CASTRO / REUTERS - 16/12/2001
Soldados afegãos assistem a várias explosões de bombardeios dos EUA nas montanhas Tora Bora, no Afeganistão Foto: ERIK DE CASTRO / REUTERS – 16/12/2001
Afegão e filho passam de bicicleta pelo corpo de um talibã morto durante confronto no norte de Cabul Foto: YANNIS BEHRAKIS / REUTERS - 13/11/2001
Afegão e filho passam de bicicleta pelo corpo de um talibã morto durante confronto no norte de Cabul Foto: YANNIS BEHRAKIS / REUTERS – 13/11/2001
Mariam Shakebar, de 16 anos, deu boas-vindas aos telespectadores da Televisão de Cabul quando a emissora voltou ao ar após um blecaute de cinco anos ordenado pelo Talibã Foto: SHAMIL ZHUMATOV / REUTERS - 18/11/2001
Mariam Shakebar, de 16 anos, deu boas-vindas aos telespectadores da Televisão de Cabul quando a emissora voltou ao ar após um blecaute de cinco anos ordenado pelo Talibã Foto: SHAMIL ZHUMATOV / REUTERS – 18/11/2001
Soldado do Talibã põe arma para fora de um veículo do Exército afegão em estrada na província de Laghman Foto: - / AFP
Soldado do Talibã põe arma para fora de um veículo do Exército afegão em estrada na província de Laghman Foto: – / AFP
Combatentes talibãs ostentam armamento pesado sobre um veículo em uma rua na província de Laghman Foto: - / AFP
Combatentes talibãs ostentam armamento pesado sobre um veículo em uma rua na província de Laghman Foto: – / AFP
Homem é detido por fuzileiros navais dos EUA após batalha contra os insurgentes talibãs, na província de Helmand, no sul do Afeganistão Foto: FINBARR O'REILLY / REUTERS
Homem é detido por fuzileiros navais dos EUA após batalha contra os insurgentes talibãs, na província de Helmand, no sul do Afeganistão Foto: FINBARR O’REILLY / REUTERS
Forçada a deixar sua casa por combates, criança dorme em parque público de Cabul Foto: STRINGER / REUTERS
Forçada a deixar sua casa por combates, criança dorme em parque público de Cabul Foto: STRINGER / REUTERS
Policiais afegãos capturam talibã após tiroteio perto da vila de Shajoy, na província de Zabol Foto: Goran Tomasevic / REUTERS - 22/03/2008
Policiais afegãos capturam talibã após tiroteio perto da vila de Shajoy, na província de Zabol Foto: Goran Tomasevic / REUTERS – 22/03/2008
Em posto de controle no distrito de Ghorband, província de Parwan, homens armados fazem vigia contra o Talibã Foto: STRINGER / REUTERS - 29/06/2009
Em posto de controle no distrito de Ghorband, província de Parwan, homens armados fazem vigia contra o Talibã Foto: STRINGER / REUTERS – 29/06/2009
Membros das Forças Especiais Afegãs cuidam de soldado ferido durante tiroteio com o Talibã Foto: Danish Siddiqui / REUTERS - 12/07/2021
Membros das Forças Especiais Afegãs cuidam de soldado ferido durante tiroteio com o Talibã Foto: Danish Siddiqui / REUTERS – 12/07/2021
Miliciano carrega seu rifle enquanto as Forças Especiais afegãs visitam um centro distrital durante uma missão de combate contra o Talibã, na província de Kandahar, Afeganistão, Foto: Danish Siddiqui / REUTERS - 12/07/2021
Miliciano carrega seu rifle enquanto as Forças Especiais afegãs visitam um centro distrital durante uma missão de combate contra o Talibã, na província de Kandahar, Afeganistão, Foto: Danish Siddiqui / REUTERS – 12/07/2021

Logo depois, o presidente Ashraf Ghani fugiu do país, afirmando que pretendia evitar um “banho de sangue”. Em questão de horas, o grupo extremista já havia adentrado o Palácio Presidencial, sendo recebido sem resistência pela guarda presidencial.

Ainda no domingo, o porta-voz do braço político do grupo, Mohammed Naeem, disse à al-Jazeera que o Talibã não contava com a fuga e que o novo regime será determinado em breve. Segundo Naeem, o Talibã está preparado para lidar com as preocupações internacionais “por meio do diálogo”, mas não permitirá interferência no país.

Naeem disse ainda que o grupo não pretende viver em isolamento, em mais um sinal da estratégia do grupo de projetar uma imagem mais moderada, prometendo respeitar os direitos de meninas e mulheres e de proteger tanto afegãos quanto estrangeiros. Teme-se, contudo, que o grupo retorne para as práticas mais duras em sua imposição da lei islâmica: enquanto esteve no comando do país, entre 1996 e 2001, mulhares não podiam trabalhar e punições como apedrejamento eram adotadas.

Soldados adicionais

Tanto os Estados Unidos quanto a ONU relataram na semana passada que receberam relatos de que o grupo estava executando soldados do governo que ser rendiam. Em Kunduz, tomada no dia 8, o Talibã já criou postos de checagem e foi de porta em porta avisar que servidores públicos deveriam voltar ao trabalho ou, caso contrário, correriam risco de punição.

Nesta segunda, um integrante do Talibã disse à Reuters que a situação no país é “tranquila” e que já controlam 90% dos prédios estatais do país. Os soldados, ele disse, foram instruídos a evitar quaisquer danos a propriedades, mas há relatos de visitas a casa de funcionários de Ghani e do confisco de armas de civis na capital, onde as ruas amanheceram praticamente vazias e com lojas fechadas.

— Eu estou em estado de choque completo — disse à Reuters Sherzad Karim Stanekzai, que passou a noite em sua loha de carpetes para protegê-la. — Eu sei que não haverá estrangeiros que virão para Cabul agora.

Um avião militar afegão, por sua vez, foi abatido pelas Força Aérea do Uzbequistão após cruzar ilegalmente a fronteira no domingo. Não está claro quantas pessoas estavam à bordo, mas o Ministério da Defesa do país disse nesta segunda que o piloto sobreviveu.

No domingo, o Pentágono autorizou o envio de mil soldados adicionais para o Afeganistão para ajudar na retirada de cidadãos americanos e afegãos aliados, expandindo sua presença militar no país para quase 6 mil soldados nas próximas 24 horas. Durante a madrugada, o Departamento de Estado confirmou que todo o seu pessoal diplomático, incluindo o embaixador Ross Wilson, foram levados para o aeroporto de Cabul, de onde a missão americana funciona. A bandeira do país também foi retirada do complexo em que fica a embaixada.

O governo americano estima ainda que haja cerca de 88 mil aliados afegãos, como intérpretes e ativistas, e seus parentes que deram entrada em pedidos de visto especiais. Cerca de 2 mil deles, segundo a Secretaria de Defesa, foram resgatados até o momento e, à Reuters, um funcionário do governo americano disse que Washington estuda evacuá-los temporariamente para as bases militares Fort McCoy, no Wisconsin, e Fort Bliss, no Texas.

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