Um documento confidencial atribuído ao serviço de inteligência militar da Rússia sugere que Moscou discutiu o envio de drones avançados e treinamento operacional ao Irã para uso potencial contra tropas americanas no Oriente Médio. O material, obtido pela revista britânica The Economist, aponta uma ampliação da cooperação militar entre os dois países em meio à guerra envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.
Segundo a publicação, o plano prevê o fornecimento de 5 mil drones de fibra óptica de curto alcance — semelhantes aos empregados na guerra da Ucrânia — além de drones guiados por satélite de longo alcance e programas de treinamento para operadores iranianos. A proposta teria sido elaborada pelo GRU, braço de inteligência das Forças Armadas russas, em um documento de dez páginas com diagramas e mapas de áreas costeiras iranianas.

A reportagem afirma não possuir confirmação independente de que o documento tenha sido efetivamente entregue ao governo iraniano, nem provas de que os equipamentos tenham chegado ao país ou que os treinamentos tenham sido iniciados. Ainda assim, fontes de inteligência regionais classificaram o plano como plausível. O especialista em inteligência russa Christo Grozev afirmou que o conteúdo é compatível com outros sinais recentes de aprofundamento da cooperação militar entre Moscou e Teerã.
O documento teria sido produzido nas primeiras semanas da guerra, período em que autoridades russas avaliavam como real a possibilidade de uma ofensiva terrestre dos Estados Unidos contra território iraniano, incluindo uma eventual tentativa de tomada da Ilha de Kharg, importante terminal petrolífero no Golfo Pérsico.
Os drones de fibra óptica mencionados no relatório ganharam relevância estratégica no conflito da Ucrânia ao neutralizarem sistemas de bloqueio eletrônico. Diferentemente dos drones convencionais, controlados por rádio, esses equipamentos operam por meio de cabos de fibra óptica conectados diretamente ao operador, o que dificulta interferências eletrônicas e aumenta a precisão dos ataques.
Na guerra ucraniana, a tecnologia foi utilizada principalmente pela Rússia para criar áreas de alto risco operacional, atingindo veículos e tropas a longas distâncias. O sistema também transmite imagens mais estáveis e reduz o risco de localização do operador por sinais de rádio.
Segundo a reportagem, equipamentos semelhantes já apareceram no Líbano em ações do Hezbollah contra forças israelenses. Autoridades de Israel afirmaram que os drones foram fornecidos pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, embora não tenham confirmado a origem russa da tecnologia.
O plano russo também incluiria drones de longo alcance guiados por satélite e equipados com terminais Starlink. Moscou utilizou equipamentos desse tipo na Ucrânia para localizar alvos e escapar de sistemas de defesa aérea. A proposta indicaria a possibilidade de deslocar parte dessas operações para o Oriente Médio, onde as restrições ao uso do Starlink seriam menores.
Outro eixo do documento trata da formação de operadores. A proposta prevê recrutamento entre cerca de 10 mil estudantes iranianos em universidades russas, além de possíveis integrantes das comunidades tajique e alauíta na Síria. Todos passariam por processos de verificação de lealdade política e ausência de vínculos com extremismo religioso.
O relatório ainda destaca que a Rússia enfrenta limitações operacionais por causa do prolongamento da guerra na Ucrânia, atualmente no quinto ano. Apesar disso, o documento argumenta que um apoio militar limitado ao Irã seria suficiente para elevar os custos de eventuais operações americanas na região, mantendo ao mesmo tempo margem de negação formal para evitar confronto direto entre Moscou e Washington.