O secretário estadual de Saúde do Rio Grande do Norte, Alexandre Motta, admitiu que a rede pública estadual enfrenta problemas estruturais, déficit de profissionais, superlotação hospitalar e dificuldades para garantir assistência regional em áreas como obstetrícia, ortopedia e leitos de retaguarda. Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele reconheceu falhas no funcionamento do Hospital Walfredo Gurgel, do Hospital Regional de João Câmara e na própria organização da rede estadual de saúde.
O principal foco da entrevista foi a crise envolvendo os elevadores do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, maior hospital público do Estado. Segundo o secretário, a unidade reúne o hospital antigo e o Pronto-Socorro Clóvis Sarinho, onde funcionam o centro cirúrgico e o atendimento de urgência.

De acordo com Alexandre Motta, os elevadores da área do Clóvis Sarinho são antigos e operam sob forte sobrecarga. Um dos equipamentos já apresentava problemas frequentes e outro quebrou na semana passada. O secretário afirmou que a peça necessária para o reparo não existe no Brasil e precisou passar por adaptação técnica.

A pane gerou impacto direto na logística interna da unidade. Sem elevadores e sem rampas de acesso, pacientes passaram a ser deslocados pelas escadas. Para reduzir a pressão no hospital, a Secretaria Estadual de Saúde reorganizou os atendimentos. Casos de trauma abdominal foram encaminhados ao Hospital Santa Catarina, enquanto pacientes com fraturas expostas de membros inferiores passaram a ser direcionados ao Hospital Regional Deoclécio Marques.
Alexandre Motta reconheceu que o Walfredo funciona acima da capacidade há anos. Segundo ele, embora a unidade tenha 300 leitos, frequentemente chega a internar cerca de 400 pacientes.
“O hospital é um hospital sobrecarregado, ele tem 300 leitos e em muitos momentos ele interna 400”, afirmou.
O secretário explicou que o hospital acaba recebendo também pacientes clínicos que não deveriam permanecer na unidade, originalmente destinada ao atendimento de traumas. Casos como pé diabético, sepse e outras complicações acabam permanecendo no Walfredo por falta de leitos em outras unidades da rede.
Segundo Motta, uma das soluções passa pela ampliação dos chamados leitos de retaguarda — destinados a pacientes que já deixaram a urgência, mas ainda precisam permanecer internados.
A Secretaria também avalia construir uma rampa alternativa no hospital para reduzir a dependência dos elevadores em futuras emergências. Além disso, há uma licitação em andamento para aquisição de um novo equipamento. O secretário afirmou, porém, que a entrega de um elevador hospitalar pode levar cerca de seis meses.
Outro problema citado foi a situação dos tomógrafos da rede estadual. Alexandre Motta informou que um equipamento alugado está funcionando atualmente e que um novo aparelho será enviado por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal.
O secretário defendeu ainda a construção do Hospital Metropolitano do Rio Grande do Norte, projeto que prevê cerca de 350 leitos e investimento estimado em R$ 200 milhões. Segundo ele, a unidade deverá concentrar atendimentos de alta complexidade e aliviar a pressão sobre os hospitais já existentes.
Durante a entrevista, Alexandre Motta também reconheceu problemas graves no Hospital Regional de João Câmara. Segundo ele, a unidade enfrenta deficiências estruturais e falta de profissionais, principalmente na área obstétrica.
Atualmente, gestantes da região do Mato Grande precisam se deslocar para municípios como Macaíba e Ceará-Mirim para realização de partos.
“O Hospital de João Câmara, de fato, é um hospital que está com deficiências, deficiências estruturais, deficiências de pessoal, e ele não tem conseguido oferecer o melhor para aquela população”, afirmou.
O secretário explicou que, pelas regras atuais da Rede Alyne, do Ministério da Saúde, uma maternidade precisa contar com obstetra e pediatra disponíveis 24 horas por dia para funcionamento regular.
Alexandre Motta também admitiu que a maior dificuldade da rede estadual atualmente está relacionada à falta de pessoal. Segundo ele, a Secretaria busca autorização junto ao Tribunal de Contas do Estado para convocar novos aprovados em concurso público.
“As dificuldades que a gente tem hoje, em regra, na rede, são basicamente por pessoal”, declarou.
Apesar das dificuldades, o secretário afirmou que algumas regiões avançaram nos últimos anos. Ele citou melhorias em hospitais de cidades como Pau dos Ferros, Assú, Mossoró, Currais Novos e Caicó.
Mesmo assim, reconheceu que a terceira região de saúde do Estado, especialmente a região de João Câmara e Mato Grande, segue sendo o principal ponto frágil da rede pública estadual.
“O nosso patinho feio”, definiu o secretário ao comentar a situação do hospital da cidade.
Ao longo da entrevista, Alexandre Motta afirmou que a crise da saúde pública no Rio Grande do Norte não se resume a problemas pontuais, como elevadores quebrados ou falta de equipamentos, mas envolve dificuldades estruturais acumuladas na rede hospitalar estadual.