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Violência

Professores expõem rotina de hostilidade nas escolas nas redes

Professores relatam aumento de agressividade e desgaste emocional nas salas de aula
Por O Correio do Hoje
11/05/2026 | 14:57

Enquanto dava aula para uma turma do 8º ano em uma escola pública do Paraná, a professora Geórgia Kimura Noda, de 34 anos, ouviu de um estudante que uma mulher “muito linda” “poderia estudar”. O comentário foi seguido por insultos e situações recorrentes de desrespeito em sala de aula, cenário que levou a docente a perder a paciência diante da turma — algo que, segundo ela, nunca havia acontecido antes em sua carreira.

O relato, publicado nas redes sociais, alcançou milhões de visualizações e provocou identificação entre professores de diferentes regiões do país, que passaram a compartilhar experiências semelhantes envolvendo agressividade, ofensas e desgaste emocional no ambiente escolar.

PROFESSORES
Professores de diferentes regiões do país relatam aumento de agressividade, desrespeito e desgaste emocional dentro das salas de aula Foto: Reprodução

“Todo mundo odeia a escola. Parece que ninguém quer estar lá, nem os professores, muito menos os alunos”, afirmou Geórgia. “Esse foi só mais um episódio de desrespeito, mais um episódio de agressividade. A gente acaba abaixando a cabeça, aceitando e ficando sem resposta. Aí, isso vai se normalizando. A sala de aula é um ambiente muito hostil.”

Educadores relatam que situações antes consideradas pontuais passaram a ocorrer com maior frequência, impulsionadas por conflitos constantes, desinteresse dos estudantes, dificuldades de aprendizagem e aumento da pressão emocional dentro das escolas.

Dados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), ligada à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, apontam que quase metade dos professores brasileiros afirma sofrer intimidação ou abuso verbal de alunos como fator de estresse profissional. O levantamento também registra altos índices de sobrecarga e desgaste emocional entre docentes no país.

A psicóloga Bruna Seling, que atende profissionais da educação, afirma que o cenário está relacionado a múltiplos fatores, entre eles a baixa valorização social da profissão, salários reduzidos e dificuldades crescentes para lidar com conflitos e comportamentos agressivos nas escolas.

Nas redes sociais, professores passaram a relatar episódios de hostilidade vividos no cotidiano escolar. Um dos casos mais compartilhados foi o de Luiz, de 26 anos, que atua em uma escola municipal de Goiânia. Segundo ele, foi alvo de xingamentos após tentar reorganizar uma turma durante uma atividade.

“Acabei de sair da escola e estou esgotado. Hoje, um aluno mandou ‘tomar no c…’ porque pedi para ele sentar no seu lugar e fazer a atividade. Isso me cansa. Essa falta de respeito, de limites. A falta de interesse que nós, professores, enfrentamos todos os dias”, relatou.

Outro episódio ocorreu em uma escola municipal de Magé, onde o professor Rafael Guimarães afirmou ter sido agredido fisicamente por um aluno do 4º ano após uma discussão em sala de aula. Segundo o educador, o estudante o atingiu com um soco.

Especialistas afirmam que o ambiente escolar vem refletindo mudanças mais amplas observadas no comportamento social. Para a pesquisadora Luciene Tognetta, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), ligado à Universidade Estadual Paulista e à Universidade Estadual de Campinas, o uso excessivo de tecnologia e redes sociais influencia diretamente as relações dentro das escolas.

“Eu diria que o comportamento dos alunos não está simplesmente ‘piorando’, mas mudando com a presença constante das tecnologias e dos celulares”, afirmou. Segundo ela, embora a internet amplie o acesso ao conhecimento, a ausência de supervisão no ambiente digital expõe crianças e adolescentes a conteúdos violentos, discursos de ódio e manipulação emocional.

A pesquisadora afirma que o contato frequente com esse tipo de conteúdo pode afetar o equilíbrio emocional dos jovens e influenciar comportamentos agressivos no ambiente escolar. Para ela, o enfrentamento do problema exige atuação conjunta de escolas, famílias e poder público.

Na rede privada, professores também relatam mudanças de comportamento após a pandemia. João da Silva, coordenador de uma escola particular no Rio de Janeiro, afirma que percebeu redução do interesse pelas aulas à medida que os estudantes avançam nas séries.

Segundo especialistas, o aumento da tensão nas escolas reflete não apenas questões educacionais, mas também transformações sociais mais amplas envolvendo tecnologia, saúde mental, relações familiares e convivência coletiva.