A presença feminina na política brasileira tem avançado gradualmente, mas a maternidade continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados por mulheres que exercem mandatos eletivos. Mesmo com a ampliação da licença-maternidade em Assembleias Legislativas e no Congresso, deputadas e vereadoras relatam que ainda convivem com julgamentos, ataques e dificuldades estruturais para conciliar a vida pública com os cuidados com os filhos.
A deputada estadual Marina Helou, atualmente no PSB e pré-candidata à Câmara dos Deputados, lembra que ouviu de um colega que “nunca vai se reeleger” ao anunciar, em 2019, a gravidez de sua filha Lara. Segundo ela, a reação contrastou com a recebida por um parlamentar que informou, na mesma reunião, que sua esposa estava grávida e foi apenas cumprimentado.

Marina afirma que a maternidade esteve no centro de críticas desde a campanha de 2018, quando disputou a eleição com o filho Martin ainda bebê. “Ou falavam que eu não podia estar fazendo campanha com um bebê tão pequeno ou, se eu o deixava em casa, que eu estava sendo uma mãe ruim”, relatou à Folha de S.Paulo.
A percepção de julgamento constante é compartilhada por mulheres de diferentes partidos e regiões do país. Especialistas apontam que esse ambiente hostil contribui para afastar potenciais candidatas, mesmo em um cenário de crescente interesse do eleitorado por lideranças femininas.
Nos últimos dez anos, ao menos 13 Assembleias Legislativas aprovaram normas para regulamentar ou ampliar a licença-maternidade para deputadas estaduais. Ainda assim, a situação permanece desigual. Maranhão, Amapá e Goiás informaram não ter regra específica, enquanto em outros estados a regulamentação não foi localizada ou não houve resposta aos questionamentos da reportagem da Folha de S.Paulo.
A deputada mineira Ana Paula Siqueira, hoje filiada ao PT, descobriu em 2019 que a Assembleia Legislativa de Minas Gerais não possuía norma interna disciplinando o afastamento de parlamentares gestantes. Grávida do terceiro filho, precisou recorrer à Mesa Diretora e ao setor jurídico para garantir o direito aos 120 dias de licença. A regulamentação foi aprovada quatro meses após o nascimento do bebê.
Para a professora da FGV Direito São Paulo, Luciana Ramos, a ausência de regras claras gera insegurança jurídica. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela afirmou que a proteção à maternidade precisa estar expressamente assegurada para garantir que as mulheres possam retornar ao mandato “nas mesmas condições que os outros”.
A cientista política Débora Thomé destaca que a maternidade coincide justamente com o período de maior atividade política de muitas mulheres. “Como faz quando não há licença-maternidade?”, questiona.
No Congresso Nacional, a ex-deputada federal Áurea Carolina relatou que, em 2020, precisou apresentar uma petição para que a Câmara corrigisse faltas registradas durante sua licença após o nascimento do filho Jorge. “Para mudar essas coisas é quase que uma revolução feminista”, disse à Folha de S.Paulo.
A ex-deputada gaúcha Manuela d’Ávila também ajudou a dar visibilidade ao tema ao amamentar a filha no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em 2016. Segundo ela, a cena expôs a ausência de políticas adequadas para mães em ambientes legislativos.
Parlamentares de diferentes campos ideológicos relatam experiências semelhantes. A deputada federal Júlia Zanatta afirma ter se sentido desrespeitada ao ser criticada por levar a filha bebê a um ato político em Brasília. “Foi bastante desgastante esses ataques que sofri”, declarou.
No Rio de Janeiro, a vereadora Joyce Trindade, pré-candidata a deputada estadual pelo PSD, questiona o padrão ainda imposto às mulheres. “Qual mulher queremos na política: a que deseja ser mãe ou apenas a que já tem a vida pessoal resolvida?”, indagou à Folha de S.Paulo.
Para a cientista política Flávia Biroli, a falta de políticas de apoio penaliza as mulheres por desempenharem uma função essencial à sociedade. “Não seria justo prejudicá-las em suas carreiras, na política incluída, por estarem cuidando de um recém-nascido”, afirmou.
Embora avanços institucionais tenham ocorrido nos últimos anos, os relatos mostram que o desafio vai além da legislação. A permanência das mulheres na política depende não apenas de regras formais, mas também de uma mudança cultural que reconheça a maternidade como parte legítima da trajetória de lideranças públicas.