O Discord suspendeu na segunda-feira 17 as transmissões ao vivo da plataforma no Brasil, cumprindo determinação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. A agência anunciou a medida em 12 de agosto e concedeu três dias úteis para o cumprimento. A suspensão é preventiva, alcança especificamente o recurso Go Live, usado para transmissões em servidores fechados, e não afeta as funções de texto e áudio em mensagens diretas, grupos e servidores. As transmissões devem permanecer suspensas até que a empresa demonstre a adoção de medidas efetivas de proteção a crianças e adolescentes.
A decisão tem origem na morte de uma adolescente de 13 anos em 22 de julho, em Naviraí, município a 355 quilômetros de Campo Grande (MS). Segundo a investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a menina teria sido induzida por um grupo à automutilação durante uma transmissão. A polícia cumpriu sete mandados judiciais em cinco estados — seis de busca e apreensão contra adolescentes e um de prisão contra um adulto — e identificou ao menos uma segunda vítima.

O episódio reabriu uma pergunta prática para pais e responsáveis: como perceber que um adolescente está sendo coagido em ambientes digitais.
Os sinais que merecem atenção
Para Juliana Prates, psicóloga, professora da Universidade Federal da Bahia e doutora em estudos da criança, quatro mudanças de comportamento pedem atenção: queda abrupta nas notas, aumento do isolamento além do esperado para a adolescência, perda de interesse em atividades que antes davam prazer e o hábito de esconder a tela ou desligar o computador quando é interrompido.
Karen Scavacini, doutora em psicologia e fundadora do Instituto Vita Alere, de prevenção e posvenção do suicídio, aponta sinais mais específicos de situações de coerção: ansiedade ou pânico diante de mensagens, medo de uma pessoa ou grupo específico, necessidade de responder imediatamente a notificações e despertar de madrugada para atender alguém.
Também chamam atenção comportamentos como apagar conversas repetidamente, trocar de plataforma com frequência, pedir dinheiro sem justificativa e demonstrar terror diante da possibilidade de uma imagem ou vídeo ser divulgado.
Segundo Scavacini, não é necessário que o adolescente tenha depressão, ansiedade ou histórico de comportamento suicida para que uma situação de coerção grave provoque uma crise aguda. Ela alerta ainda para a tendência de, após uma morte, buscar retroativamente uma doença mental que explique todo o episódio — o que pode minimizar o peso da violência sofrida.
O que não fazer
Um erro comum, segundo as duas especialistas, é reagir com discursos alarmistas ou acusações. Prates cita a tendência de dizer que, se o filho usar determinada rede social, “vai acontecer uma tragédia”: o adolescente desmente o argumento ao observar colegas usando a mesma plataforma sem problemas.
Scavacini alerta contra frases como “eu avisei que isso ia acontecer” e contra a proibição imediata do celular. Essas reações podem fazer com que o filho se feche justamente quando mais precisa falar. A alternativa é iniciar a conversa demonstrando preocupação e disponibilidade.
“Percebi que alguma coisa está acontecendo e estou preocupado com você. Você não precisa me contar tudo de uma vez, mas, se alguém estiver te ameaçando ou fazendo você sentir medo, eu quero ajudar”, exemplifica.
O próprio caso do Discord pode servir de ponto de partida, já que muitos adolescentes provavelmente já ouviram falar do episódio. A orientação é perguntar primeiro o que o filho já sabe e, depois, se algo parecido já aconteceu com ele.
As duas psicólogas defendem ainda um acordo prévio em casa: pedidos para manter situações em segredo devem ser tratados como sinal de alerta, e os pais vão ajudar antes de punir. Isso reduz uma das principais armas de quem pratica coerção — convencer a vítima de que contar vai piorar tudo.
A responsabilidade não é só das famílias
Prates defende que a resposta não se limite à vigilância técnica. Scavacini considera que o controle parental ajuda, principalmente com crianças menores, mas é “apenas uma camada” de proteção: nenhum responsável consegue supervisionar todos os ambientes digitais o tempo todo. Ela defende que as plataformas identifiquem padrões de aliciamento, ameaça e chantagem e mantenham canais de denúncia efetivos.
Esse é justamente o eixo do novo arcabouço legal. O Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, sancionado em 2025, responsabiliza plataformas pela prevenção de riscos a menores — dispositivo que sustenta a atuação da ANPD no caso. Em 11 de agosto, o Discord já havia entregue à Advocacia-Geral da União uma proposta para reforçar a segurança de crianças na plataforma. A reportagem sobre os sinais de alerta foi publicada originalmente por O Correio de Hoje, em texto sobre como identificar coerção de adolescentes em grupos on-line.
Havendo risco imediato à vida, os adultos precisam agir: interromper contatos e acionar a rede de proteção — Conselho Tutelar, delegacia especializada e serviços de saúde. Scavacini ressalta que é importante o adolescente entender que a medida está sendo tomada contra a violência sofrida, e não contra ele.
Se você está passando por sofrimento emocional, ligue 188, do Centro de Valorização da Vida, disponível 24 horas, ou acesse cvv.org.br. Em caso de emergência, procure uma UPA ou ligue 192.