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Doação

Banco de leite da Januário Cicco atende prematuros e reforça importância da doação no RN

Banco da Januário Cicco utiliza cerca de 8 litros por dia; Doação de leite materno beneficia mais de mil bebês no RN em 2026
Por Heliny França, O Correio de Hoje
20/05/2026 | 14:42

O leite materno é de grande importância nos primeiros meses de vida, funcionando quase como um medicamento natural para os bebês. Todo ano, hospitais realizam campanhas para incentivar a iniciativa que pode salvar vidas. Para um bebê prematuro, poucos mililitros já fazem diferença. No Rio Grande do Norte, a Maternidade Escola Januário Cicco possui um banco de leite de referência que atende outras unidades de saúde.

“Ele [o leite] é extremamente rico em nutrientes, melhora a imunidade, protege o intestino imaturo dos bebês prematuros, reduz infecções e contribui diretamente para o desenvolvimento neurológico e ganho de peso. Para um prematuro, o leite humano pode representar mais estabilidade clínica e mais chances de recuperação saudável”, explica a médica pediatra do Januário Cicco, Adriana Dantas.

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Banco de leite da Maternidade Januário Cicco atende recém-nascidos prematuros e abastece outras unidades - Foto: Cedida

Ela explica que os bebês prematuros e os recém-nascidos de baixo peso que estão internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal, e que por algum motivo não conseguem ser amamentados pela própria mãe, os que mais necessitam do leite doado. “São bebês extremamente frágeis, que precisam de uma nutrição segura e altamente protetora nos primeiros dias de vida”.

Verônica Feitosa, que é enfermeira do banco de Leite da Maternidade Januário Cicco, explica que o leite materno protege o intestino imaturo dos bebês prematuros, auxiliando na imunidade e atuando no desenvolvimento da criança. “E tem estudos, até dentro da maternidade, que mostram que o uso do leite materno diminui o tempo de internação desse bebê. É um bebê que consegue se desenvolver mais rápido, ganhar peso mais rápido. Tudo isso por causa do leite”.

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Enfermeira Verônica Feitosa: pequenas quantidades fazem diferença – Foto: Cedida

Os bebês internados que não consomem leite materno acabam ficando mais vulneráveis a infecções, tendo mais chances de desenvolver dificuldades intestinais graves e também podem ter intolerância alimentar, além de precisar prolongar o tempo de internação. A médica explica que, em alguns casos, aumenta o risco de complicações, como a enterocolite necrosante, que é uma doença intestinal grave e potencialmente fatal em prematuros.

“Nós acompanhamos diariamente o impacto positivo do leite humano na evolução clínica dos recém-nascidos. Muitas vezes, após o início da oferta do leite humano, observamos melhora da aceitação alimentar, ganho de peso mais adequado, menos complicações infecciosas e evolução mais segura desses bebês. Uma verdadeira bênção”, destaca Adriana.

A amamentação ainda é acompanhada de alguns mitos, o que acaba fazendo com que muitas mulheres desistam de oferecer o leite para seus bebês. Além da coleta, o banco de leite também auxilia essas mães tirando dúvidas. Verônica conta que algumas lactantes, por falta de informação, acabam acreditando no mito do ‘leite fraco’”.

“Não existe nenhum leite fraco. O leite vai se adaptar de acordo com a necessidade do bebê. Para se ter noção, às vezes, quando o bebê está gripado e a mãe está amamentando, o organismo entende que precisa produzir mais proteínas que vão ajudar na imunidade. Então, o bebê que está precisando ganhar peso, o leite vai ficar mais hipercalórico”, disse a enfermeira.

Além disso, muitas mães acabam achando que seu leite é insuficiente e procuram complementar com fórmula. Verônica explica que o leite materno tem a capacidade de nutrir o bebê até os 6 meses de vida exclusivamente, sem necessidade de qualquer outra substância. Ela destaca ainda que a produção do leite está relacionada ao estímulo. “O organismo entende que precisa produzir mais leite diante do estímulo da sucção. E é esse o mecanismo, esse é o ciclo que faz acontecer a produção do leite materno”.

A médica explica que após receberem alta das enfermarias, os recém-nascidos passam a ser acompanhados pela equipe de Pediatria do Banco de Leite. Os bebês passam por consultas mensais para acompanhar o crescimento, o ganho de peso e o desenvolvimento neuropsicomotor até o sexto mês de vida. A médica destaca a importância da doação de leite materno, e que uma pequena quantidade já pode mudar a realidade de muitos bebês, principalmente os prematuros extremos, que recebem pequenos volumes por vez.

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Médica Adriana Dantas: leite materno fortalece a imunidade do bebê – Foto: Cedida

“Doar leite humano é um ato silencioso que salva vidas todos os dias. Muitas mães acreditam que precisam produzir grandes quantidades para doar, mas pequenas quantidades já fazem enorme diferença na vida desses bebês. Um único frasco pode alimentar vários recém-nascidos internados. Quando falamos de leite humano, cada gota importa”, disse a médica.

Adriana, que já acompanhou histórias muitos marcantes na UTI Neonatal, conta que é impossível não se emocionar ao lidar com bebês frágeis e com quadros delicados que evoluem aos poucos graças à solidariedade de outras mães.

“Ver um bebê sair da UTI, ganhar peso, ir para os braços da família e finalmente receber alta nos lembra diariamente que a doação de leite humano vai muito além de alimento: ela entrega esperança”, disse Adriana.

Doação

Além de atender a demanda da Maternidade Januário Cicco, o banco processa leite para outras unidades como: a Maternidade Araken Pinto, Hospital Infantil Varela Santiago, Hospital Ana Bezerra, Hospital da Unimed e o Hospital do Coração. A enfermeira Verônica explica que o banco trabalha desde a captação até o processamento do leite doado. A captação é feita através do Programa Bombeiro Amigo do Peito, que disponibiliza viaturas e militares do serviço operacional de saúde do órgão para atender e realizar coletas e visitas domiciliares relacionadas ao programa.

Para doar, a mulher precisa estar saudável, ter leite em excesso e enviar exames de sangue recentes. A coleta é feita na residência da lactante, o banco fornece recipientes de vidro com tampa de plástico para a coleta. É necessário seguir uma série de recomendações para realizar a ordenha, como prender os cabelos, evitar falar no processo, e é recomendado usar máscara para evitar que alguma partícula contamine o leite durante a extração. O leite precisa ser armazenado no congelador e pode ficar lá até 15 dias guardado.

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Corpo de Bombeiros auxilia coleta de leite humano com visitas às mães – Foto: Cedida

“Então as mães doadoras, geralmente, quando dá 10 dias, elas entram em contato conosco para que a equipe faça a coleta e o leite seja processado no tempo de 15 dias, que é o que preconiza a rede brasileira de bancos de leite”, explica Verônica.

Esse leite doado passa por uma pasteurização antes de ser oferecido aos bebês. O processo é um tratamento térmico de aquecimento lento – geralmente a 62,5 °C por 30 minutos- que inativa microrganismos patogênicos e preserva os nutrientes, e é obrigatório. Segundo a pediatra Adriana Dantas, ter um banco de leite dentro da maternidade representa um cuidado, suporte e oportunidade de vida para muitos recém-nascidos. A médica destaca que a parceria com o Corpo de Bombeiros facilita o processo junto às doadoras.

“Para muitos bebês prematuros ou internados, o leite humano doado é uma ponte importante para recuperação, crescimento e proteção. Por trás de cada frasco doado, existe um impacto real na evolução desses recém-nascidos e uma rede de solidariedade que transforma cuidado em esperança”, pontuou Adriana.

O banco de leite da Januário Cicco atende a UTI da unidade, que atualmente possui 23 leitos de UTI neonatal, além de 15 leitos de unidade intermediária. Verônica explica que geralmente é preciso 8 litros por dia para alimentar os bebês da maternidade.

Em 2025, o banco contou com 1.216 doadoras e recebeu 2.300 litros, desse total 1.930 litros foram pasteurizados (a doação feita diretamente da mãe para o filho não passa pelo processo). Neste ano, 2.938 bebês foram beneficiados com esse leite. Já de janeiro a abril de 2026, o banco teve 376 doadoras, sendo coletados 788 litros, que atendeu 1.060 recém-nascidos. De acordo com a enfermeira, existe um período no ano em que há uma baixa nas doações, normalmente no mês de dezembro até fevereiro. “É o período que as escolas param, os pais viajam e as mães também”.

Além da doação, o banco de leite também auxilia mães com dificuldade para amamentar através do programa SOS Mama, não é necessário ter tido o bebê na Januário. “É só chegar na maternidade e procurar o banco de leite e a gente vai dar orientações. Desde o manejo como a pega correta, a questão da massagem, das ordenhas e posicionamento do bebê, até mesmo em intercorrências relacionadas à amamentação, como candidíase, mastite e fissuras”. Ainda é necessário reforçar a iniciativa através de campanhas de conscientização. Em 19 de maio é celebrado o Dia Nacional de Doação de Leite Humano, e a unidade realizou uma série de ações.