O uso de suplementos como whey protein e creatina por crianças tem ganhado espaço nas redes sociais, impulsionado por relatos de pais e influenciadores que dizem recorrer aos produtos para complementar a alimentação dos filhos. A prática, no entanto, é vista com preocupação pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que divulgou recentemente um alerta desaconselhando o uso dessas substâncias em crianças e adolescentes sem indicação profissional.
O whey protein é uma proteína extraída do soro do leite e amplamente utilizada por adultos que praticam atividade física. Nas redes, influenciadoras como Carol Borba e Virginia Fonseca já mostraram preparações com whey para os filhos pequenos, o que ajudou a popularizar o tema.

Pais relatam que recorrem ao suplemento em momentos de inapetência ou seletividade alimentar. A nutricionista Amanda Félix, de Sorocaba, afirma que utiliza whey em receitas para o filho desde o primeiro ano de vida, especialmente em períodos de menor aceitação alimentar.
A SBP, no entanto, afirma que esses produtos são ultraprocessados e oferecem proteínas de forma concentrada, sem os demais nutrientes presentes nos alimentos naturais. “Diferentemente dos alimentos, que fornecem proteínas associadas a vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos, esses produtos promovem uma oferta concentrada e descontextualizada de nutrientes”, informou a entidade.
Segundo a pediatra Fabíola Suano, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP, uma criança de 15 quilos necessita de cerca de 15 gramas de proteína por dia, quantidade facilmente obtida na alimentação. “Um bifinho. O whey protein não tem nenhuma vantagem em relação à proteína dos alimentos, pelo contrário, tem qualidade inferior”, afirma.
A médica explica que a seletividade alimentar costuma ser transitória, especialmente entre os 4 e 7 anos, e deve ser enfrentada com diversificação da dieta. Ela alerta ainda que suplementos com sabor adocicado podem interferir na formação do paladar e dificultar a aceitação de alimentos como legumes e verduras.
O consumo excessivo de proteína, segundo estudos citados pela SBP, pode sobrecarregar rins e fígado, além de favorecer alterações metabólicas e maior armazenamento de gordura corporal.
Entre adolescentes, o uso desses produtos também pode reforçar a pressão estética. “Está se criando um modelo de saúde ‘marombada’. É como se ter mais músculo significasse ser mais saudável”, diz Fabíola Suano.
Representantes do setor de suplementos contestam o alerta. Marcelo Bella, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Produtos Nutricionais (Abenutri), afirma que não há estudos robustos comprovando danos renais ou hepáticos quando o consumo ocorre sem excessos.
Aline Goettet, diretora executiva da Brasnutri, ressalta, porém, que as orientações da Anvisa devem ser seguidas e que o principal risco está no uso indiscriminado, sem necessidade real e sem acompanhamento profissional.