Tomar café pode provocar uma elevação temporária da pressão arterial, mas isso não significa que a bebida, por si só, faça mal ao coração. Segundo Clare Collins, professora de Nutrição e Dietética da University of Newcastle, o principal componente responsável por esse efeito é a cafeína, que estimula o coração e provoca a contração dos vasos sanguíneos. Ainda assim, estudos com centenas de milhares de pessoas mostram que o consumo moderado de café não está associado ao aumento do risco de desenvolver hipertensão. As informações foram publicadas em artigo da plataforma The Conversation.
A pressão arterial corresponde à força que o sangue exerce sobre as paredes das artérias. Valores abaixo de 120 por 80 milímetros de mercúrio (mmHg) são considerados normais. Quando a pressão se mantém de forma persistente em 140 por 90 mmHg ou mais, o quadro é classificado como Hipertensão. A condição geralmente não provoca sintomas, mas aumenta o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doenças renais.

A professora aponta que cerca de 31% dos adultos têm hipertensão, e metade deles não sabe. Entre os que usam medicamentos para pressão alta, aproximadamente 47% ainda não mantêm o quadro sob controle.
De acordo com Collins, a cafeína pode elevar a frequência cardíaca e estimular a liberação de adrenalina, hormônio que acelera os batimentos e contrai os vasos sanguíneos. O efeito costuma ser mais perceptível em pessoas que não têm o hábito de consumir café ou que já apresentam pressão alta. Após a ingestão, os níveis de cafeína no sangue atingem o pico entre 30 minutos e duas horas, e sua ação pode se estender por três a seis horas.
Revisões científicas apontam que a cafeína presente no café e em outras bebidas pode elevar a pressão sistólica entre 3 e 15 mmHg e a diastólica entre 4 e 13 mmHg. Apesar disso, uma revisão de 13 estudos envolvendo cerca de 315 mil pessoas concluiu que o consumo de café não aumentou o risco de hipertensão. Durante o acompanhamento, 64.650 participantes desenvolveram pressão alta, mas não foi observada relação consistente entre a bebida e o surgimento da doença.
Outro estudo citado pela pesquisadora acompanhou mais de 18 mil adultos no Japão por quase 19 anos. Entre pessoas com hipertensão grave — pressão sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 100 mmHg ou mais — o risco de morte por doenças cardiovasculares foi duas vezes maior entre aqueles que consumiam duas ou mais xícaras de café por dia. Essa associação, no entanto, não foi observada em indivíduos com pressão normal ou hipertensão leve.
Clare Collins ressalta que o café também contém compostos com potencial efeito benéfico sobre o sistema cardiovascular, como melanoidinas e ácido quínico, que podem contribuir para o bom funcionamento dos vasos sanguíneos.
A recomendação da especialista é que a maioria das pessoas não precisa deixar de tomar café. Em geral, o consumo de até quatro xícaras por dia é considerado seguro. Já quem apresenta pressão muito alta deve reduzir a ingestão, observar como o organismo reage e discutir o hábito com um médico. Collins também orienta evitar cafeína antes de medir a pressão arterial, já que o efeito temporário da substância pode alterar o resultado do exame.
Para a maior parte das pessoas, a moderação significa limitar a ingestão a quatro xícaras por dia ou optar por café descafeinado. Já quem tem pressão sistólica de 160 ou mais ou diastólica de 100 ou mais deve considerar limitar o consumo a uma xícara diária e conversar com um médico.