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Saúde

‘Dieta bíblica’ ganha espaço nas redes e divide opiniões

Especialistas alertam para riscos de dietas restritivas e líderes religiosos afirmam que jejum tem objetivo espiritual
Por O Correio de Hoje
20/05/2026 | 12:44

Conteúdos que associam fé cristã e emagrecimento vêm ganhando popularidade em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube. Em vídeos curtos, influenciadores relatam perda de peso ao adotar práticas inspiradas em passagens bíblicas, como jejuns e dietas baseadas em frutas, legumes, grãos e água.

Expressões como “dieta de Daniel”, “7 dias de jejum com Deus” e “como emagreci buscando a Deus” se multiplicaram nas redes, reunindo depoimentos de pessoas que afirmam ter perdido de 3 a 5 quilos em poucos dias. O fenômeno tem despertado debates entre nutricionistas, médicos e líderes religiosos.

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Pacientes adotam jejum para perder peso - Foto: Freepik

A nutricionista Kesia Araújo, que trabalha com comportamento alimentar, afirma que sua abordagem combina nutrição e mudança de hábitos. Segundo ela, fatores emocionais e espirituais também influenciam a relação com a comida.

A teóloga Angelita Kayo evita usar o termo dieta. “É um processo de reconstrução que envolve corpo, mente e espírito”, afirma. Já a nutricionista Liliane Neto, conhecida como “nutri adventista”, destaca que padrões alimentares baseados em vegetais podem trazer benefícios quando bem planejados.

Do ponto de vista religioso, no entanto, o jejum tem outro propósito. O pastor Valdinei Ferreira afirma que a prática busca fortalecer a comunhão com Deus. “O objetivo é espiritual, não o corpo”, resume. Segundo ele, não há base bíblica para relacionar o jejum ao emagrecimento.

O pastor lembra que o capítulo inicial do livro de Livro de Daniel, frequentemente citado nesses conteúdos, descreve uma escolha alimentar ligada à obediência religiosa, e não a uma estratégia de saúde.

Especialistas em saúde recomendam cautela com promessas de perda rápida de peso. A endocrinologista Fernanda Salles, do Hospital Sírio-Libanês, explica que dietas muito restritivas levam o organismo a consumir gordura e massa muscular. “Há perda de massa muscular e redução do metabolismo”, diz.

A nutróloga Marcella Garcez, da Associação Brasileira de Nutrologia, alerta para riscos como desidratação, hipoglicemia e desequilíbrio de minerais. Camila Manzolini, também do Sírio-Libanês, acrescenta que esses quadros podem causar tontura, fraqueza e desmaios.

Para Cynthia Valério, práticas religiosas não devem ser tratadas como método de emagrecimento. “O emagrecimento deve ser de forma segura e gradual”, afirma.