BUSCAR
BUSCAR
Caso Master

PF diz que Vorcaro pagou viagens a Paris e à Disney para servidores do Banco Central; defesas negam

Relatório aponta repasses de R$ 3,8 milhões a Belline Santana, que receberia R$ 500 mil por mês; ele diz que o dinheiro era para um programa de treinamento financeiro de jovens
Agora RN
11/09/2026 | 17:37

Um relatório da Polícia Federal afirma que o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, custeou jantares e viagens internacionais de dois servidores do Banco Central que estão sob suspeita de agir em favor do banco. Os investigadores citam uma ida a Paris do ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana, acompanhado da esposa, e as férias do ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e da família na Disney, nos Estados Unidos. As defesas dos dois negam irregularidades.

No caso de Belline, a PF sustenta que Vorcaro montou parte da agenda do casal na capital francesa. Segundo o relatório, o banqueiro “tratou diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas de restaurantes, recepção e logística, chegando inclusive a encaminhar o contato pessoal do servidor para que a programação fosse finalizada”.

Vista aérea do edifício-sede do Banco Central em Brasília, torre escura cercada por jardins, avenidas e árvores
Sede do Banco Central, em Brasília — Foto: Bacen/Assessoria

Vorcaro teria encarregado duas pessoas de reservar um almoço no Loulou e um jantar no Lapérouse, dois restaurantes da cidade. “Uma indicação de que os eventos seriam pagos por Vorcaro é o fato de ele indicar que deveriam ser pedidos nos restaurantes bons vinhos e comida”, diz o documento. A PF confirmou a presença de Belline e da mulher em Paris na época das mensagens, mas não especificou outros gastos nem os valores que teriam sido pagos.

A investigação vai além das viagens. De acordo com a PF, Belline receberia R$ 500 mil por mês do Master, e comprovantes anexados ao processo mostram transferências que somam R$ 3,8 milhões. Na avaliação da polícia, os pagamentos serviam para favorecer o banco. O servidor e quem fez os repasses dizem outra coisa: que o dinheiro era destinado a um programa de treinamento financeiro voltado a jovens.

O advogado de Belline, Leonardo Palazzi, afirma que o depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, confirmou que seu cliente agiu dentro das funções e das atribuições institucionais, inclusive ao procurar a PF para relatar possíveis irregularidades no Master. A defesa diz que Belline tomou as providências necessárias e nega que ele tenha sido influenciado por Vorcaro.

Sobre Paulo Sérgio, a PF afirma ter encontrado elementos que indicam que o banqueiro bancou a viagem do servidor e da família à Disney. A conclusão se apoia em conversas nas quais Paulo Sérgio manda a Vorcaro um roteiro de passeios pelos Estados Unidos.

Os advogados do ex-diretor sustentam que ele pagou do próprio bolso passagens, hospedagem, ingressos, a compra de moeda estrangeira e as despesas no cartão de crédito. Dizem também que o passeio já tinha data marcada, nas férias escolares de 2024, em janeiro e fevereiro, e que a origem do dinheiro pode ser comprovada com documentos.

Pela versão da defesa, Vorcaro ficou sabendo da viagem quando se agendava uma reunião entre o Banco Central e o banco, que era supervisionado pela autoridade monetária. No dia do embarque, o banqueiro teria oferecido a Paulo Sérgio uma vaga que sobrara num pacote de acesso prioritário aos parques da Universal e da Disney. O servidor diz que aceitou e que pagou em dinheiro vivo US$ 8 mil pela vaga, depois de chegar aos Estados Unidos, a alguém indicado pelo banqueiro. Afirma, ainda, não ter conhecimento de um eventual repasse de US$ 38 mil de Vorcaro ao agente de viagens Leonardo Giunchetti. Diz que não autorizou, não presenciou nem participou dessa transação.

Mesmo assim, a conclusão da PF é que Belline e Paulo Sérgio “atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados” de Vorcaro, indo além dos limites das funções que exerciam no Banco Central.