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Caso Master

Fábio Faria convidou Alcolumbre, Pacheco e Toffoli para festa de Vorcaro com 120 mulheres, mostram mensagens

Ex-ministro potiguar sugeriu preferência por modelos estrangeiras para evitar vazamento; os três negam ter ido, e Vorcaro avisou: "Se vazar, eu tô morto"
Agora RN
11/09/2026 | 12:21

O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, potiguar que foi deputado federal pelo Rio Grande do Norte por quatro mandatos, ajudou o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, a montar a lista de convidados de uma festa de Halloween, o Dia das Bruxas, realizada em 2023 na casa noturna Madame Satã, na capital paulista. É o que mostram mensagens obtidas pela Polícia Federal. Pelos diálogos, coube a Faria chamar as autoridades, enquanto o promoter — o organizador encarregado de atrair o público — Tiago Polo ficou com a tarefa de mobilizar mulheres, sobretudo modelos. Quem revelou o conteúdo foi o jornalista João Batista Jr., repórter da revista piauí, que teve em mãos o relatório policial.

Fábio Faria afirmou que se limitou a mandar os convites para o evento de Vorcaro em São Paulo, realizado na terça-feira 31 de outubro de 2023.

Fábio Faria fala ao microfone diante de painel de madeira, de colete verde sobre camisa jeans, com a bandeira do Brasil no bolso
O ex-ministro das Comunicações e ex-deputado federal pelo RN Fábio Faria — José Aldenir

Vorcaro planejou a festa para reunir empresários e autoridades e impôs condições. Uma delas era a proibição de celulares, para que nada vazasse. Outra, a presença de modelos, de preferência estrangeiras. “Só menina nova”, escreveu o banqueiro numa das mensagens.

As conversas indicam também uma desproporção grande entre mulheres e homens na lista. “120 mulheres e 20 homens. Tô tendo que tirar mulher porque não tá cabendo”, disse Vorcaro numa mensagem enviada ao ex-ministro.

Em 24 de outubro de 2023, segundo os registros, Faria contou a Vorcaro que já tinha convidado nomes do Legislativo e do Judiciário. “Davi e Pacheco fechado para terça. Chamei Toffoli tb”, escreveu pelo WhatsApp. Davi era o senador Davi Alcolumbre (União-AP); Pacheco, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que naquele momento presidia o Senado; e Toffoli, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na mesma conversa, Faria completou: “Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer. E na segunda quero ir lá no banco com os meus sócios do escritório”. Mais tarde, quando Vorcaro voltou a perguntar quem estava confirmado para a festa, o ex-ministro respondeu que “Pacheco e Davi” iriam. Sobre Toffoli, disse que o ministro ia “tentar pq preside uma sessão na terça”. O banqueiro quis saber ainda, na mesma troca de mensagens: “Ciro não?” — possivelmente uma menção ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). A resposta de Faria foi que Ciro estaria viajando.

Em outro trecho, Faria avisou que “MV” ligaria para Vorcaro para saber se podia “chamar o Wesley”. “Óbvio, né”, respondeu o banqueiro. De acordo com a reportagem, MV seria possivelmente o advogado Marcos Vinícius Furtado Coêlho, que já prestou serviços aos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Enquanto acertava com Faria os convidados do meio político e empresarial, Vorcaro tratava com Tiago Polo da presença feminina. “Irmão, costurei várias agências pra gente conversar. Mega, Ford, Joy, enfim quando quiser retomar esse assunto, me fala”, escreveu Polo, mencionando agências de modelo em condições de indicar nomes para a festa.

Os convidados citados nas mensagens negam ter comparecido ao evento. Marcos Vinícius Furtado Coêlho afirmou que, no dia da festa, estava em Brasília. A equipe de assessoria de Wesley Batista declarou que “não há qualquer elemento que permita identificar Wesley Batista como o ‘Wesley’ mencionado nas mensagens” e acrescentou que “o que se pode afirmar categoricamente é que Wesley Batista nunca participou de qualquer festa promovida por Daniel Vorcaro”.

Toffoli, por meio da assessoria de imprensa, declarou que não esteve no evento. Alcolumbre e Pacheco, em notas, disseram que não foram e que estavam em Brasília cumprindo agenda de trabalho no Senado. As conversas, por si só, não comprovam a presença de nenhum dos convidados mencionados.

Nascido no Rio Grande do Norte, Faria chefiou o Ministério das Comunicações no governo Jair Bolsonaro, de 2020 a 2022. Deixou o cargo no fim de 2022, mas continuou circulando entre empresários, políticos e autoridades — e foi nesse período que se aproximou de Vorcaro. Casado desde 2017 com a apresentadora Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, ele disse à esposa, segundo as mensagens, que dormiria em Brasília no dia da festa.

No início de setembro, o ex-ministro já tinha aparecido em outro relatório da PF, feito a partir da análise do celular de Vorcaro, como o intermediário do contato entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Segundo aquele documento, Faria passou a Vorcaro o número de telefone usado por Moraes e, depois, ajudou a organizar encontros entre ambos.

Antes da festa, nas conversas com o banqueiro, Faria mostrou preocupação com a chance de imagens do evento irem parar nas redes sociais. Lembrou a repercussão negativa de uma festa do jogador Neymar em Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro, e alertou o banqueiro: “Porque tem publicidade um vazamento desses. Ontem vazou a festa do Neymar”. Por causa desse temor, sugeriu chamar menos brasileiras e priorizar as modelos estrangeiras.

A resposta de Vorcaro foi que ele tinha montado um esquema para impedir registros dentro da boate: celulares recolhidos na entrada e uma equipe de segurança só para fiscalizar os convidados. “Relaxa que vai ser zero estresse. Claro, mas sem telefone total. Se vazar, eu tô morto. Peguei equipe só de controle disso”, escreveu. Pelas mensagens, disse ainda que metade das convidadas seria estrangeira e que, se a festa viesse a público, seria apresentada como uma reunião institucional do Master, isto é, um encontro de trabalho do banco.

O cuidado não bastou. No dia seguinte, uma convidada postou no TikTok um vídeo com o título “MELHOR FESTA DE HALLOWEEN”. Irritado, Vorcaro teria mandado Tiago Polo providenciar a retirada do conteúdo, que depois foi apagado. Segundo os registros citados pela piauí, o banqueiro recorreu também a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, na tentativa de tirar do Instagram uma postagem de uma produtora sobre as atrações musicais da noite. Mourão morreu em março de 2026; antes, ele já tinha sido preso numa apuração sobre uma milícia privada.